'Tudo leva a crer que foi premeditado', diz chefe da Polícia sobre morte de médico

Perícia constatou que houve muita limpeza na casa da família depois do crime, mas com o uso do luminol, foram identificados vestígios de sangue em três banheiros da casa

Chefe da Polícia Civil de Pernambuco, Joselito KehrleChefe da Polícia Civil de Pernambuco, Joselito Kehrle - Foto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco

Mais partes do corpo do médico cardiologista e advogado Denirson Paes da Silva, de 54 anos, foram achadas nesta quinta-feira (5), na casa onde a família vivia em Aldeia, Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife. Os primeiros restos mortais haviam sido achados nessa quarta (4), quando o crime foi revelado. A esposa e o filho mais velho são suspeitos e foram presos preventivamente nesta tarde. "Tudo leva a crer que houve premeditação. Como ela [Jussara, a esposa] silenciou, tudo leva a crer na premeditação. Se sugere uma preparação", afirmou chefe da Polícia Civil de Pernambuco, Joselito Kehrle, durante coletiva de imprensa nesta tarde.

Joselito disse que nem a esposa de Denirson - a farmacêutica baiana Jussara Rodrigues Silva Paes, 54 - nem o filho mais velho do casal - o engenheiro civil Danilo Paes, 23 - deram informação alguma ao prestar depoimento, alegando que só falariam em juízo.

Na coletiva, a polícia apresentou a cronologia do caso. No dia 30 de maio, o médico cancelou a viagem para os Estados Unidos, marcada para o dia 2 de junho. Segundo a polícia, é provável que o crime tenha acontecido entre os dias 30 e 31 de maio, quando Jussara dispensou a empregada da casa, que só retornou no dia 1º de junho. No dia 20 de junho, a esposa da vítima registrou o desaparecimento de Denirson na Delegacia de Camaragibe. No Boletim de Ocorrência, ela diz que, inclusive,  ele pode ter ido para os Estados Unidos, mas que a última vez que ele foi visto foi no dia 31 de maio.

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Perícia
A perícia constatou que houve muita limpeza na casa da família depois do crime, mas com o uso do luminol, foram identificados vestígios de sangue em três banheiros da residência, localizada no condomínio Torquato Castro, principalmente no banheiro da piscina. "Nós encontramos, através do reagente luminol, o que pode se confirmar sangue humano no banheiro do hall social, no banheiro de cima e do quiosque próximo a cacimba e a piscina", contou Joselito Kehrle.

Ainda segundo Kehrle, também jogaram na cacimba, onde restos mortais estavam escondidos, cloro líquido e em pastilha pra evitar a proliferação de bactérias. Além disso, as paredes do local foram pintadas, e funcionários contaram à Polícia, em depoimento, que lavaram diversas vezes o banheiro da área da piscina, onde há fortes indícios de ter sido o local do esquartejamento do corpo. "É preciso que a população e a imprensa entendam que a polícia trabalha com indícios, e os indícios são suficientes para autuação por ocultação de cadáver e pela representação por homicídio qualificado", acrescentou o chefe da PC.

O perito do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) Fernando Benevides contou que foi identificado um cimentado recente na área da piscina que teria servido para mascarar a área onde partes do corpo do médico foram carbonizadas, pinturas recentes de paredes e a utilização de produtos de limpeza e de químicos para apagar vestígios de sangue. “O ambiente foi bastante alterado em nível de limpeza e com muita substância química. Toda a casa passou por uma limpeza singular. Esse aspecto compromete as pesquisas como um todo”, contou.

Ainda segundo ele, por ter muitas substâncias químicas nos restos mortais, pode ser difícil identificar a causa da morte. "É importante frisar que estava uma massa de restos mortais que sofreu muita reação química e em estado avançado de decomposição. O adequado seria encontrar vísceras que não tivessem sofrido reação tão danosa, porque foram usadas muitas substâncias para evitar o cheiro característico da decomposição e isso prejudica o trabalho.", disse. Ainda segundo ele, apesar da dificuldade de se identificar substâncias, especialistas irão investigar.

Segundo o tenente-coronel Francisco Cantarelli, comandante do Grupamento de Bombeiros de Salvamento, o material encontrado na cacimba não se trata de um corpo inteiro, mas de restos e pequenos pedaços, que couberam em um pequeno saco. "Ontem [quarta] foi encontrado um material um pouco mais denso, três pedaços longos, um com a forma de um pé, uma estrutura parecida com uma tíbia humana, e mais dois pedaços, não se precisando que forma seria", contou. Nesta quinta, ainda segundo o comandante, foram retirados entulhos de construção da cacimba para facilitar o trabalho dos peritos e foram encontrados mais dois ossos, provavelmente da mesma ossada.

O chefe da Polícia Civil alegou que, apesar de poucos, os restos mortais são suficientes para a realização do exame de DNA. "Nós já confirmamos ser os restos mortais de um ser humano, o que eu preciso agora é de um laudo que comprove que é do médico", disse Kehrle. Os resultados confirmatórios sobre a identidade das partes humanas podem sair ainda nesta sexta-feira (6). Os investigadores tentam entender a dinâmica do crime e de que forma a vítima teria sido morta. Uma reprodução simulada deve ser solicitada.

Buscas
De acordo com a delegada responsável pelo caso, Carmem Lúcia, a arma utilizada para esquartejar o corpo ainda não foi encontrada, assim como um carro de mão que existia na casa.

Ela conta que, durante as buscas na casa da família, o filho mais velho não acompanhou a polícia. "Ele ficava o tempo todo na sala, e a mãe nos acompanhou. A gente percebia que ela não queria nossa permanência nas proximidades da cacimba, sempre nos levando para outras áreas", disse.

No momento da ação, o filho mais novo, Daniel Paes, 20 anos, não estava na residência por estar trabalhando. Segundo a delegada, não há indícios de que ele tenha participação no crime. "A gente não tem suporte suficiente para colocá-lo no local do crime pelas indagações, pelas respostas dele, sempre proativo em colaborar", frisou.

Para a delegada, o comportamento da mãe e do filho mais velho fortalecem indícios da participação no crime. "A forma como eles se comportam, a demora na apresentação, a união dos dois. Certa vez, o filho disse para nós que ele [Denirson] talvez poderia ter se suicidado. Depois falou que ele poderia ter muito dinheiro. O comportamento deles não é o de pessoas que estavam buscando uma pessoa desaparecida", complementou.

Depoimento
O chefe da Polícia Civil contou que os suspeitos optaram por não falar durante depoimento na Delegacia de Camaragibe nessa quarta (4). "Na verdade, não houve depoimento, porque eles silenciaram, o que é contraditório para uma família que busca solucionar o caso, que se iniciou com o desaparecimento", afirmou.

Joselito Kehrle também alegou que, durante o depoimento, os suspeitos tomaram medicamentos, o que chamou a atenção da delegada à frente do caso, Carmem Lúcia. "Chamou a atenção o fato de ela ministrar uma medicação ao filho e de se automedicar. A delegada chegou a pedir que não medicasse ele para que o filho pudesse falar, mas ele pediu o direito de ficar em silêncio", disse.

Ainda segundo Kehrle, o filho mais novo do casal também prestou depoimento e disse que o relacionamento dos pais era "conturbado". "Diferentemente da esposa e do filho mais velho, ele colabora com as investigações, inclusive chegou a depor que havia um relacionamento conturbado e que seu pai teria dito que encerraria o casamento e deixaria a casa", afirmou.

Entenda o Caso
O desaparecimento do médico cardiologista Denirson Paes da Silva vinha sendo investigado há quase um mês. Em um Boletim de Ocorrência registrado no último dia 20 de junho sobre o desaparecimento do marido, a farmacêutica Jussara Rodrigues Silva Paes, 54, alegava que a vítima teria viajado para fora do País e que não teria retornado. A delegada Carmem Lúcia desconfiou do envolvimento dos familiares e solicitou um mandado de busca e apreensão no condomínio em que eles moravam.

Para a polícia, há indícios suficientes da participação de mãe e filho na ocultação do cadáver do médico, encontrado nesta quarta-feira (4) dentro de uma cacimba na casa onde morava, no condomínio Torquato Castro, na Estrada de Aldeia, em Camaragibe, Região Metropolitana do Recife. As investigações continuam a fim de esclarecer a motivação e a conduta de cada um.

Vizinhos do médico afirmaram que dois funcionários dele prestaram depoimento. Um deles teria afirmado que a esposa da vítima o chamou dias atrás para fechar, com cimento, uma cacimba que já estaria fechada com uma tampa "bastante pesada para ser carregada por uma pessoa só". O homem teria notado um mau cheiro, mas a farmacêutica alegou que um gato tinha morrido dentro da cacimba.

O segundo funcionário contou à polícia que o médico, pouco antes de desaparecer, tinha explicado a ele que não precisaria mais de seus serviços porque estaria se separando e iria morar no Recife.

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