Opinião

Um Brasil sobressaltado com o futuro

O século 21 despertou de seu breve sonho e nos mostra um mundo tumultuado que avança para uma reconfiguração dos polos de poder. Esse truísmo, agora tão comum, não está mais em discussão. A forma como tratá-lo, sim.

O velho quebra-cabeça da geopolítica mundial, com peças enormes, encaixe quase perfeito e cores simétricas foi substituído por um jogo mais complexo, com pequenos recortes, assimetria nas bordas e matizes difusos.

O término da guerra fria, celebrado com entusiasmo pelo mundo ocidental e que parecia indicar o fim da história pela hegemonia inconteste dos Estados Unidos, foi, tão somente, a decretação do intervalo em um jogo acirrado no qual os contendores, já substituídos, pelejam com regras alteradas e impostas sem o consenso de outros competidores menos qualificados.

Nesse contexto, o Brasil vive sobressaltado quanto ao seu futuro diante de um ambiente global volátil, incerto, complexo e ambíguo.

Inserido no subcontinente da América do Sul, nosso país sofre com a ciclotimia de afirmação de sua imagem: líder regional consentido ou mais um entre estados abaixo da linha do Equador.

É necessário descortinar a dinâmica que cerca a reconfiguração de poder no tabuleiro estratégico mundial, suas consequências no ambiente regional e os reflexos para a soberania e defesa do país.

Por natural, diante da complexidade do tema, há poucas certezas e muitas dúvidas.

Qual a visão atual do Brasil quanto às relações externas em particular os enlaces regionais? Há coerência e sinergia entre as visões da diplomacia profissional do Itamaraty, herdeira dos exemplos do Barão do Rio Branco e reconhecida mundialmente, e os governos de turno?

Da análise geopolítica que impactaria um porvir de estabilidade à execução do projeto de poder para alcançá-lo, somos um corpo desconectado da cabeça.

Elabora-se coerentemente na fase contemplativa de análise do problema, mas a execução é permeada de incertezas ou pouca vontade política em enfrentar os desafios.

O dilema da neutralidade nos beneficiaria? Não saberia afirmar com total segurança, mas é bom retomar a passagem do histórico diálogo meliano, entre atenienses e habitantes da Ilha de Melos, na Guerra do Peloponeso: “pois deveis saber que o justo, nas discussões entre homens, só prevalece quando os interesses de ambos os lados são compatíveis, e que os fortes exercem o poder e os fracos se submetem”. 

Qual a identidade desse bloco de países sul-americanos? Seus vínculos são psicossociais ou apenas geográficos? Aceitariam unir-se para a defesa de seus interesses?

A multipolaridade global, com novos centros de poder disputando os espaços antes consolidados no “colonialismo” pós segunda guerra, ao se refletir na América do Sul, é impactada por uma polaridade regional distinta.

No lado oriental do subcontinente há estabilidade centenária, no ocidental, fricções históricas ainda geradoras de permanentes conflitos.

Diante desse cenário, o Brasil do chão de fábrica se observa capaz de assumir a liderança regional, estimulando um projeto “sudamericano” coerente com o novo panorama mundial?

Do ponto de vista da cobiça extrarregional, caracterizada na expansão particularmente econômica dos grandes polos de poder, é possível confiar em qualquer potência que tenha interesses divergentes dos nossos?

Emerge dessa construção acadêmica o alerta de que a liderança geopolítica de um Estado precisa transcender  períodos de governo.

Ao mesmo tempo, ela se fortalece no reconhecimento e apoio dos liderados. Nesse diapasão, a região estaria madura para conviver com uma liderança isolada brasileira ou, melhor seria, um arranjo de uma liderança compartilhada?

Afirmou Kissinger, em sua obra DIPLOMACIA, que os países devem aprender a combinar fatores permanentes das relações internacionais com elementos sujeitos à discrição dos governantes.

Pela formulação, o ex-secretário de estado americano nos intima a responder: o que a sociedade brasileira, liderada por seus governantes e atrelada aos interesses de Estado, quer como opção geopolítica e estratégica para o país? 

É hora de enfrentar a questão.



*General de Divisão da Reserva



 

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