Um oásis chamado escola

Nas escolas dentro do sistema prisional, detentos viram reeducandos e têm acesso a uma relação mais humanizada

Geraldo estava ao lado do vice, Luciano Siqueira e de vários vereadoresGeraldo estava ao lado do vice, Luciano Siqueira e de vários vereadores - Foto: Andréa Rêgo Barros/Divulgação

Como a imensa maioria das unidades do sistema prisional brasileiro, o Presídio de Igarassu, é um local inóspito. A chegada se dá por uma sinuosa estrada de barro que termina de frente para a imponente e fria construção de concreto, de muros altos, com cercas elétricas no topo e guaritas de seguranças. Dentro do presídio, no corredor de acesso aos pavilhões, um grupo de seis homens acaba de chegar. Cabisbaixos e algemados, eles passam por um novo detector. Acompanhados dos guardas armados, caminham como se estivessem entrando no Inferno.

É neste ambiente que, nos últimos três anos, a professora Rosângela Mendes dá suas aulas, de segunda a sexta, na Escola Estadual Dom Helder Câmara. Ela sabe que, em uma escola localizada dentro de uma unidade prisional, o educador é convocado a desempenhar um papel que vai além daquele desempenhado pelo profissionais que dão suas aulas nas escolas regulares.

“O professor aqui não trabalha só o conteúdo. Ele trabalha o social, a questão espiritual, trabalha um todo. A experiência com nossos alunos mostra que eles vêm em busca do conhecimento didático, mas também querendo saber como está o mundo lá fora e buscando referências de valores. Todos os pilares da educação, formando realmente um cidadão. Aqui nós nos voltamos mais para a questão humana, não ficamos só no conteúdo”, afirma.

A Dom Helder Câmara atende a cerca de 600 presos, divididos em três turnos, com aulas de alfabetização, ensino fundamental e ensino médio, e é considerada modelo de atendimento da educação prisional de Pernambuco. Quem passa pelo corredor principal da escola, com as paredes repletas de trabalhos produzidos pelos alunos e a decoração das festas juninas ainda pendurada no teto, ou mesmo quem entra em alguma sala de aula ou na biblioteca da unidade, não sente que está dentro de um presídio.

“Nossa rotina aqui é a mais próxima de uma escola lá de fora. A gente faz um trabalho com práticas pedagógicas diferenciadas, porque a gente sabe que, até por conta da idade deles, que já fugiu do padrão escolar, se você tiver uma rotina escolar normal, você não vai conseguir com que eles tenham um despertar”, comenta o diretor da Dom Helder Câmara, Wagner Cadette.

O preso que frequenta uma escola tem uma série de vantagens. Primeiro, ele passa um turno inteiro no ambiente escolar, longe da superlotação dos pavilhões. Na sala de aula, em contato com os profissionais da educação, ele tem a chance de criar laços que não são aqueles impostos pela unidade prisional. Outro fator atrativo é a remissão da pena. Para quatro dias na escola, o preso diminui um dia de pena. “Os alunos colocam que a remissão não é a coisa mais importante, por incrível que pareça. São detentos que têm tanto tempo de pena que não vai fazer tanta diferença. Muitos chegam analfabetos, ou com um analfabetismo funcional, e têm a oportunidade de melhorar”, garante Hugo Regis, coordenador da área de Educação Prisional da Gerência de Políticas Educacionais de Jovens, Adultos e Idosos da Secretaria de Educação de Pernambuco.

FOLHA RESUME
Educação Prisional oferece aos detentos uma oportunidade de convivência social mais tranquila e de qualificação visando à vida depois do cumprimento da pena. Em Pernambuco, são quase seis mil presos que se transformam em reeducandos em uma das 21 unidades escolares que funcionam dentro de presídios e penitenciárias.

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