Um pai que leva uma vida itinerante

O Palhaço Biliro, do mambembe Empyre, mistura vida pessoal e trabalho e cuida em tempo integral dos três filhos que lhe seguem o dia inteiro, aprendendo a arte circense

Manuel Vital, o Palhaço "Birilo", do Empyre Circu´s, em meio a sua família e seus filhos aprendizes de apalhaçoManuel Vital, o Palhaço "Birilo", do Empyre Circu´s, em meio a sua família e seus filhos aprendizes de apalhaço - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Um pai, uma mãe e três filhos dividem a mesma casa. Gato e cachorro no quintal. Descrição comum para uma família, não fosse a casa um trailer e o quintal qualquer lugar do Brasil.  No picadeiro do Empyre Circu's o palhaço Biliro interpreta diversos personagens, dubla, dança e brinca com dois jovens palhaços.

Por trás das cortinas é Manoel Vital Ramos, 48, marido de Dellane Haley, 31, pai de Nalanda Beatriz, 13, e dos seus dois parceiros de palco, Nalbert Bruno,12, o Beijinho e Nauã Breno, 9, o divertido Misturinha.

A vida no circo não é simples, ainda mais para um pai de três crianças que precisa se preocupar com a educação dos filhos e nunca sabe em que local estará daqui há um mês. Porém, Manoel lida com qualquer adversidade do melhor jeito que sabe, com um sorriso no rosto e os filhos do lado. A história é contada pelo próprio palhaço.



Leia o depoimento:
Sou filho de pai ausente e alcoólatra. Quando ele ia para casa estava bêbado, então minha mãe tinha que cuidar dele, de mim e dos meus nove irmãos. Deve ser por isso que sou tão família e apegado com os filhos que tenho aqui. Tenho outros que não vivem comigo e não os esqueço, apesar de a distância ter diminuído o contato.

Comigo eu tenho três, todos com as iniciais N e B: Nalanda Beatriz, Nalbert Bruno e Nauã Breno. Cada um nasceu em um lugar, uma é pernambucana, outro paraibano, e também tem o potiguar. São todos apaixonados pelo ambiente em que vivemos. Passam 24 horas pensando em circo, falando em circo e brincando de circo. Aprenderam os truques de forma natural, ninguém ensinou não.

Hoje eles se apresentam, não recebem nada, só a felicidade de estar no palco, de receber as palmas. Chegam a adoecer se não fazem o show. Às vezes penso em desistir do picadeiro, mas seria como arrancar uma parte deles.

Claro que viver assim traz algumas dificuldades. Nos privamos de várias coisas. Dia dos Pais, por exemplo, estamos nos apresentando para as famílias que vêm comemorar esta data vendo o show. No fim da noite fazemos um jantarzinho, ou então fica só no beijo e abraço mesmo.

A educação dos meninos é nosso maior problema. Temos uma lei que nos acoberta e diz que todas as escolas públicas devem abrir vagas para os filhos de artistas circenses em qualquer época do ano, mas a transferência de uma escola para outra não sai em menos de 30 dias, neste tempo já visitamos vários outros lugares.

Quando vamos procurar escolas às vezes passamos por muitas humilhações, mesmo com a lei, muitas delas não nos aceitam. Os meninos ficaram dois meses sem estudar quando fomos nos apresentar no Cabo porque nenhuma escola os aceitava. Puro preconceito. Quando isto acontece temos que contar com a compreensão do próximo colégio, às vezes achamos uma diretora legal que passa vários trabalhos e provas para que os meninos deem um gás nos estudos e não percam o ano letivo.

Uma das soluções que encontramos é fazer parcerias com escolas particulares locais, oferecemos cortesias e patrocínio por um tempo. Assim ficamos mais tranquilos, sabemos que lá serão bem assistidos. Viver em circo é isso, precisamos molhar a mão das pessoas para termos nossos direitos básicos.

Sempre que Nauã vai para uma nova escola é uma diversão diferente. Temos que revistar sua bolsa para saber se não está levando um nariz de palhaço escondido. Na última aula, quando chegamos para buscá-lo, a professora e seus colegas estavam em círculo em volta dele para vê-lo se apresentar. Ele é apaixonado por palhaços, já diz que será um. Se inspira em vários, menos em mim. Ele me fala "Gosto do seu palhaço não, é sem graça. Melhor como pai mesmo.

Como vivemos na estrada, não sabemos também onde vamos parar. O Brasil não trata bem seus artistas, muitas vezes temos de pousar em lugares que não são propícios. O povo pensa que circo tem que ser armado em lixão. Estávamos em Ipojuca nestas últimas chuvas, ficou tudo alagado. A água quase ultrapassou o palco, ficou no peito. Lonas ficaram sujas, o piso do nosso trailer de equipamentos ficou fofo e afundou, tivemos vários prejuízos.

A melhor parte de ser pai no circo é poder estar com meus filhos o tempo todo. Dificilmente serão pessoas ruins. Se não forem artistas de circo, serão pelo menos bons cidadãos. Minha filha diz que sou mais criança que eles, que não podem me dar uma brecha que já faço uma piada.

Eles pintam e bordam comigo, não consigo ser rígido. Sou pai palhaço, a parte chata deixo para a mãe. Nem consigo ensaiar com eles, tenho sorte dos meus filhos serem talentosos, fui tentar criar um número de contorcionismo para Nalanda mas ela sentiu dor e começou a chorar, Deus me livre tentar outra vez.

A diferença do pai do circo para o da cidade, o considerado normal, é a proximidade que esta vida mambembe traz. Não que os outros pais não queiram estar com os filhos, longe disso, mas geralmente trabalham fora, jornadas grandes e exaustivas, saem de manhã e voltam tarde da noite, mal conseguem ver seus filhos acordados. Aqui não, moro no trabalho, posso ser pai, confidente e palhaço. Estou sempre presente, cuido de todos debaixo da asa.

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