Uma cidade que só cresce para o alto

O primeiro prédio considerado arranha-céu foi erguido no Recife em 1930 sob críticas, inclusive do jornalista Mário Melo: o Hotel Central, na Boa Vista, com oito andares.

Paulo CâmaraPaulo Câmara - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

 

Na primeira metade do século passado os céus do Recife se tornaram uma fronteira a ser desbravada. E quase noventa anos depois do primeiro prédio considerado um arranha-céu ser erguido, a Cidade aguarda a construção de um novo marco da verticalização em 2017. O Jardins da Aurora está sendo levantado no bairro de Santo Amaro, no Centro da Cidade, com 140,5 metros de altura, 360% mais alto que o Hotel Central construído em 1930 na Boa Vista e considerado o primeiro espigão da Capital.

A história dos prédios altos precede a construção do primeiro deles. Em 1919, vinte e um anos antes do Hotel Central, a lei do Recife previa edificações até cinco pavimentos, mas não regulava a construção em larga escala. “A legislação municipal foi sendo modificada, mas sempre incentivou os edifícios altos. A ideia é multiplicar os impostos. É mais vantajoso para a Prefeitura que se cobre o máximo de pessoas em um único terreno”, comentou a professora de arquitetura e urbanismo da UFPE Guilah Naslavsky, autora de um extenso artigo sobre a história da verticalização do Recife.

No estudo, a professora mostra que a Capital Pernambucana foi marcada por melhorias urbanas na década de 1920. A campina do Derby e a avenida Beira-Mar, dando acesso às praias, por exemplo, propiciaram a verticalização. Ao mesmo tempo, novas tecnologias, a exemplo do concreto armado, foram introduzidas na construção civil. A maioria dos prédios da época não passava de dois pavimentos, com exceção daqueles do Centro, com cinco ou mesmo seis.

Os oito andares do Hotel Central foram um marco para a verticalização e por ter o primeiro elevador da Cidade, mas não foi o único da década de 1930. Edifício independência, na Praça da Independência, por exemplo, é lembrado por ter sido o primeiro destinado ao uso de escritórios. Mostrava tempos modernos chegando em linhas arquitetônicas aerodinâmicas e pestanas de concreto.

O crescimento expressivo da população urbana devido ao êxodo rural causado por secas incessantes no interior do Estado. Um crescimento desordenado e o aumento de mocambos foram consequências naturais e levaram o poder público à vontade de modernizar a Cidade ainda naquela década.

A avenida Guararapes (na época chamada 10 de Novembro) foi aberta por José Estelita para desafogar o trânsito, mas também para receber os altos prédios. O Trianon, o Prédio da Sulamérica Capitalização, o da Caixa Econômica Federal, o Cine Art Palácio. Todos foram erguidos na avenida, no início da década seguinte. Em 1946, inclusive, um decreto ordenou um mínimo de oito andares para prédios na avenida Dantas Barreto e na própria avenida Guararapes.

Muitos consideram o edifício Brasilar, com 18 andares, construído na Praça da Independência em 1954, o primeiro arranha-céu da Cidade. “Mas não há como definir a partir da quantidade de pavimentos. Um arranha-céu é aquele que destoa da percepção de altura da época em que ele é erguido”, explicou Naslavsky. O Caeté, na rua da Aurora, também foi construído em 1954, com o mesmo número de andares. Prédios altos e icônicos como o Holiday, com 17 andares e o Acaiaca, com 11, foram levantados nessa época.

O jornalista Mário Melo se opôs publicamente aos prédios altos, na época. Era um “despropósito”. Se o Recife tinha tanto espaço, por que havia de ter crescer para cima? Por “espírito de imitação” de Nova York era a sua resposta para a pergunta. “É uma ilha formada por um rochedo. Há superpopulação para a área, a cidade não tem mais para onde expandir. Mas no Recife, com a enorme área que possuímos?”, escreveu.

As críticas existem até hoje, mas, de acordo com a pesquisadora, não há problema com arranha céus, mas com a falta de planejamento e de estrutura abaixo deles. “Como é do interesse da Prefeitura multiplicar o IPTU de um terreno, é comum que se liberem licenças absurdas sem enxergar o que vem depois. Permite-se a construção de prédios que adensam desgovernadamente uma área valorizada. Em Santo Amaro, por exemplo, para onde vão sair os carros? Em geral, quem compra um apartamento num edifício como o Jardins, não utiliza transporte público. O poder público precisa dar as condições”, criticou.

A pesquisa de Naslavsky mostra ainda que, nos 1960, a estrutura axial da Cidade foi modificada. Ou seja, os arranha-céus deixaram de se localizar apenas em uma avenida em linha reta no Centro. Em 1961, um novo código de obras possibilita verticalização em eixos viários de transportes coletivos e em Boa Viagem. A Cidade foi se metropolizando até a conurbação que, em 1973, instituiu-se como Região Metropolitana do Recife. Também a partir dos 1960, outra tendência, de verticalização das orlas da Cidade levou também as praias a um adensamento desordenado. A partir de 1996, junção de terrenos promoveu a edificação de prédios de mais de 15 pavimentos.

Em 2001, a repercussão negativa da verticalização desenfreada culminou em uma lei que diminui os remembramentos e a altura dos prédios em 12 bairros da Capital. Mas vários projetos já haviam sido aceitos e foram erguidos, como os prédios conhecidos como as “torres gêmeas” do Centro. Essa, inclusive, é a região mais visada hoje pelas construtoras. É onde está localizado o mais alto prédio da Cidade, o Empresarial Charles Darwin, na Ilha do Leite, e onde será erguido o arranha-céu recorde seguinte, o Jardins da Aurora, com previsão de término para o ano que vem.

 

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