Universitária é vítima de injúria após exibir foto sem roupa

Intolerância é fruto dos padrões de beleza definidos para a mulher

A Fundação Joaquim Nabuco e a Secretaria de Mobilidades Especializadas, ambas instituições do Ministério da Educação, assinaram protocolo, em Brasília, nesta terça (29), para levar projetos Alumiar e Índigo a todas as regiõesA Fundação Joaquim Nabuco e a Secretaria de Mobilidades Especializadas, ambas instituições do Ministério da Educação, assinaram protocolo, em Brasília, nesta terça (29), para levar projetos Alumiar e Índigo a todas as regiões - Foto: Divulgação

Se, por um lado, cada sociedade define um padrão hegemônico de beleza, por outro, esse padrão está sempre em disputa. Para o corpo feminino, por exemplo, a expressão desse parâmetro delimita o que é adequado, aceitável. Não pertencer ao grupo modelo - caso da maioria das mulheres -, é escolher entre fadar-se a coadjuvar ou viver em resistência. Daniela Martins, 21, escolheu a segunda opção. Gorda e negra, não se importa em ser bonita para olhos alheios e confia na própria força. Por isso mesmo, desde o último dia 27, experimenta as consequências negativas dessa atitude.

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Agressões não estão diminuindo

A universitária esteve na última quarta-feira (4) em audiência na sede do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) e, nesta quinta-feira (5), vai à Delegacia de Crimes Cibernéticos, sempre com o intuito de se proteger de ameaças racistas e gordofóbicas. Uma foto sua, em que aparece sem roupa, foi exposta no Facebook e algumas pessoas não souberam apreciar.

O primeiro comentário negativo que ela leu continha o disparático ponto de vista de um certo Gabriel: “lugar de gorda não é no Facebook”, dizia. Depois, as agressões, que envolviam também racismo, foram se tornando ameaças de violência física. O MPPE encaminhou o caso à Polícia Civil e à Polícia Federal. Após investigação, os agressores identificados responderão pelo crime de injúria.

“Inicialmente, não me abalei. Eu sei quem eu sou e sou feliz assim. Já passei por um longo processo de aceitação durante a adolescência. Mas isso estava começando a me afetar. Numa noite acordei de súbito com um barulho no quarto e senti como se todas aquelas pessoas e todo aquele ódio estivessem em cima de mim. Na verdade, fiquei triste pelas outras mulheres”, contou.

Desde que passou a postar fotos vestindo biquínis e roupas curtas, milhares foram visualizando e seguindo seus passos. “Perguntam onde acho as roupas. Porque as gordas só tem modelos sem graça disponíveis. Eles nos escondem. Aos poucos, elas vão fazendo igual.”

Dani costuma dizer que todo o ódio recebido será transformado em amor. E nem só ela fará isso. Dos 30 mil comentários que recebeu, quase todos são de apoio e pedem que ela resista às agressões.

Essas ameaças sofridas são injustificáveis. Mas, de acordo com a doutora em sociologia Ana Paula Portella, é possível entender que, quanto mais radical a tentativa de existir fora dos padrões, maior será a reação contrária. Ela própria é uma ameaça ao status quo da beleza. “Isso é um gesto feminista de resistência. As mulheres têm se movido politica e subjetivamente contra uma sociedade patriarcal. Os agressores, quando xingam, estão tentando mostrar que são diferentes daquela mulher, estão tentando pertencer àquele padrão definido e serem aceitos”, analisou a socióloga.

Para o professor de psicologia da UFPE Sylvio Ferreira, o caso remete a um narcisismo precário e comum. “Não se espera ver em outra pessoa algo diferente de si mesmo. Pensam: ‘só deve existir aquilo que é igual a mim, para que eu tenha certeza de que eu sou aquilo que é apropriado a existir’”, explicou.

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