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Experimento

Vacina em estudo oferece proteção contra gripe e Covid-19 em animais

Especialistas de saúde consideram a possibilidade de uma vacinação anual contra a Covid, como é feito contra a gripe

A vacina AstraZenecaVacina da AstraZeneca/OxfordA vacina AstraZenecaVacina da AstraZeneca/Oxford - Foto: Michael Dantas/AFP

Com o surgimento de novas variantes do Sars-CoV-2, especialistas e autoridades de saúde em todo o mundo não descartam a possibilidade de uma vacinação anual contra a Covid, como é feito em todo o mundo contra a gripe.

Nesse sentido, a produção de uma vacina conjugada que protegesse contra o vírus influenza, responsável pela gripe, e contra a doença causada pelo coronavírus seria o ideal -e pode ser uma realidade.

 



Isso porque a vacina combinada contra Covid e gripe da empresa de biotecnologia americana Novavax apresentou bons resultados em estudos em animais (testes pré-clínicos).

A tecnologia utilizada no desenvolvimento do imunizante é a mesma aplicada na produção da vacina contra gripe e na candidata a vacina contra Covid-19 da farmacêutica –proteínas do vírus são combinadas a nanopartículas e são transportadas ao organismo com a ajuda de um adjuvante (substância adicionada à composição da vacina que ajuda na resposta imune).

A sequência genética responsável por codificar a proteína S do Spike do Sars-CoV-2, espécie de gancho molecular utilizado pelo vírus para entrar nas células, é recombinada em células de uma espécie de mariposa. Essas células vão servir como "fábrica" biológica para produção da proteína, que é depois extraída, purificada e adicionada ao composto vacinal.

No caso da gripe, a vacina é produzida utilizando a proteína hemaglutinina de quatro cepas virais pertencentes aos tipos A e B da influenza –em geral, os mais comuns naquela estação de gripe. Essa mesma proteína das quatro variantes é recombinada ao DNA nas células do inseto para expressão gênica e depois adicionada às nanopartículas.

Para avaliar a imunogenicidade da vacina conjugada, batizada de qNIV/CoV2373, os pesquisadores mediram a produção de anticorpos específicos contra a proteína S e contra a hemaglutinina, bem como anticorpos neutralizantes específicos para os dois vírus, coronavírus e influenza, em furões e hamsters após a infecção dos animais com os mesmos.

Em ambos os modelos animais, a vacina levou à produção de anticorpos anti-Sars-CoV-2 e contra a hemaglutinina em taxas elevadas, superiores até à resposta imune produzida apenas pela vacina contra o vírus influenza. Ainda, o fármaco apresentou também bons índices de resposta imune celular.

Para saber se o imunizante também protegeu contra a replicação viral ou desenvolvimento de sintomas nas vias aéreas superiores, os cientistas colheram amostras para o exame de RT-PCR da região oral de lavagem broncoalveolar e analisaram também o tecido pulmonar dos bichos.

Nos quatro dias após a infecção, a quantidade de RNA dos dois tipos de vírus nos animais que receberam a vacina combinada gripe/Covid-19 era igual ou inferior ao limite mínimo, enquanto no grupo placebo foi encontrado um nível elevado de RNA viral.

Ainda, no grupo controle foram identificados pontos de deterioração dos pulmões, o que não foi observado no grupo dos vacinados, indicando uma proteção contra a evolução da síndrome respiratória.

O artigo foi publicado na forma de pré-print na plataforma bioRxiv. Os desenvolvedores da vacina esperam começar os testes em humanos até o final de 2021.

Mas não é só fora do país que a ciência investiga uma proteção única para os principais vírus causadores de síndromes respiratórias no último ano. No Brasil, cientistas da Fiocruz de Minas em parceria com o Instituto Butantan também buscam uma fórmula de vacina que combina a imunização contra a gripe e a doença causada pelo coronavírus.

Ricardo Gazzinelli, pesquisador da Fiocruz-Minas e professor da Universidade Federal de Minas Gerais que coordena a pesquisa, explica o desenvolvimento da vacina em estudo em seu laboratório.

"O vírus influenza tem duas proteínas muito importantes que se expressam na sua superfície, a hemaglutinina e a neuraminidase. A primeira é usada para entrar nas células do hospedeiro, e a segunda para sair durante a replicação [causando a infecção]. Nós retiramos a neuraminidase e colocamos a região de ligação do receptor do Sars-CoV-2. Então o mesmo vírus vai apresentar a hemaglutinina e a proteína S do Sars-CoV-2, mas sem a capacidade de replicar."

Com essa expressão das duas proteínas em um único vetor viral, os cientistas obtiveram resultados positivos tanto de resposta imune humoral (de anticorpos) contra influenza quanto resposta celular contra o coronavírus nos camundongos testados. "O vírus influenza modificado é altamente imunogênico", diz.

Agora, a pesquisa deve avançar para a chamada fase de desafio, quando os modelos animais são infectados intencionalmente com o vírus após a vacinação, para observar a resistência ao parasita. O mesmo tipo de desafio foi utilizado no estudo da Novavax.

"Para esta etapa, vamos usar dois modelos animais: camundongos transgênicos com uma expressão elevada da proteína ECA 2 [enzima conversora de angiotensina 2, receptor usado pelo coronavírus para entrar nas células], tornando-os altamente suscetíveis, e hamsters, que são mais resistentes à doença. Vamos comparar o desenvolvimento de doença respiratória nos dois", explica.

Outra vantagem de uma vacina combinada de gripe e Covid-19 está associada à chamada coinfecção, que é a ocorrência das duas infecções simultaneamente em um mesmo paciente.

"Há estudos que já demonstraram um quadro agravado de gripe quando há coinfecção por outros microorganismos, como pneumococos [bactérias que causam pneumonia]. É possível que a infecção conjunta por Sars-CoV-2 e influenza também provoque esse quadro mais grave", afirma.

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