"Vamos torcer para que a verdade realmente apareça", diz irmão de Thiago Faria

Em entrevista exclusiva ao Portal FolhaPE, Daniel Faria diz não entender por que o irmão "entrou no meio de uma guerra de famílias" e afirma: "Não dá para falar em perdão"

Daniel FariaDaniel Faria - Foto: Bruno Campos/Folha de Pernambuco

Três anos após o assassinato do promotor Thiago Faria Soares, a mãe e o irmão dele ficaram pela primeira vez frente a frente com os acusados do crime. Maria do Carmo chegou ainda no início da manhã ao prédio da Justiça Federal, no Jiquiá, na Zona Oeste do Recife, onde está sendo realizado o julgamento de três dos responsáveis pelo crime. Ela não quis entrar em detalhes sobre o caso e fez um pronunciamento rápido à imprensa dizendo ter certeza que as mães de todo o Brasil estariam juntos com ela naquele momento. Daniel Faria chegou um pouco após o meio-dia. Veio direto do aeroporto - mora no Rio de Janeiro - e, após um almoço com a mãe, concedeu uma entrevista exclusiva ao portal FolhaPE.

O DJ carioca ainda não tem convicção sobre o que realmente ocorreu com o irmão, mas espera a verdade e que todas as pessoas que tenham culpa paguem. Com a advogada Mysheva Martins, noiva do promotor que é considerada vítima de tentativa de assassinato, os familiares de Thiago tiveram contato apenas por e-mail após o crime.

Sobre Mysheva, Daniel espera, ao término do júri, tirar as suas conclusões. Mesmo assim, diz que no momento existe muito magoa por ela ter colocado Thiago "dentro desse vespeiro", já que após se envolver com a advogada o promotor terminou se envolvendo na “guerra entre famílias” que culminou na sua morte. Segundo ele, agora não dá para falar em perdão.

O irmão do promotor emocionou-se a falar sobre a homenagem que fez ao promotor, uma tatuagem no braço com a frase “Pra quem tem fé a vida nunca tem fim”, da música Anjos, do grupo O Rappa.

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Assista no vídeo à entrevista completa com Daniel Faria feita pela editora adjunta do FolhaPE Priscilla Aguiar, com imagens do fotógrafo Bruno Campos e edição de Paccelly Viana. Confira também, abaixo do vídeo, a íntegra, em texto, da entrevista.



Como foram esses três anos de espera por justiça?
É muito difícil. Atrapalha a nossa rotina, atrapalha a vida da família, a gente vive em um estado super difícil de seguir a vida adiante. A gente trabalha, precisa de ânimo para fazer as coisas, e realmente afeta a nossa rotina. Depois de dois anos, o negócio fica um pouco mais controlado. A gente tem picos de saudade em alguns momentos. E agora esse julgamento meio que volta tudo. Então é muito difícil. Eu não imaginava como seria difícil perder um parente e ainda mais um irmão. Está sendo bem complicado.

Como é cada vez que chega até vocês um relato de como tudo ocorreu?
A gente acaba revivendo toda a história. Como é um crime que ainda não está 100% certo do que realmente aconteceu, a gente fica ouvindo muita especulação de várias partes, então a gente fica muito confuso. Algumas vezes, a gente acha que pende para um lado; outras vezes, que pende para o outro. E isso deixa a gente muito agoniado e angustiado também porque a gente quer a verdade. A gente quer que quem tramou e fez isso realmente pague. Não adianta a gente ter um julgamento aqui e a pessoa que fez ou que tenha culpa não seja julgada ou seja considerada inocente. Eu não estou acusando ninguém. Eu só quero realmente a verdade; que quem fez seja punido.

Vocês tiveram contato com os investigadores? Como as informações chegavam até vocês?
O Ministério Público é que deu uma assistência legal para a nossa família. O meu pai e a minha mãe estavam em contato com eles. Mais até o meu pai, que manteve contato com o Ministério Público e passava as informações para a gente. Durante esse tempo, eu procurei não ficar todo dia catando porque dói muito. É uma dor muito grande. Se manter um pouco afastado desse processo faz o seu coração ficar mais calmo. Então, eu tentei deixar um pouco mais quieto porque eu sabia que ia ter a hora do julgamento e a hora dos acusados pagarem pelo que fizeram.

Nesse tempo o caso mudou de mãos várias vezes até ser federalizado. E a polícia concluiu que esses quatro homens que serão julgados e um que está foragido são os responsáveis. Vocês, familiares de Thiago, estão satisfeitos com a conclusão das investigações?
É difícil dizer porque a gente não está aqui no dia a dia e continua tendo informações diferentes do que a Polícia Federal diz ser a verdade. Eu estou aqui no julgamento para tentar tomar um juízo de valor sobre o que realmente aconteceu. Mas eu confio e eu acho que a gente tem uma instituição muito confiável e então eu realmente acredito que o que eles (policiais federais) disseram pode ser a verdade. Eu preciso tomar mais ciência dos fatos com o que vai acontecer agora nos tribunais para realmente tomar um partido sobre o acontecido.

Após a morte de Thiago, vocês receberam um e-mail de Mysheva com os pêsames. E depois, tiveram mais algum contato com ela?
Na verdade, eu acabei de chegar. Nem a vi e não sei se vou encontrar. Na verdade, nosso contato foi realmente por e-mail, um ou dois e-mails uma semana depois do fato acontecido. Estava todo mundo muito abalado. A gente não tinha certeza de muita coisa; então a gente deixou meio de lado isso. E aí vêm as informações, chegam coisas para a gente e a gente tenta absorver e entender o que realmente aconteceu. Não digo que ela teve algum tipo de participação. Não sei na verdade. Mas também rola uma mágoa pelo fato de ela ter colocado o meu irmão neste vespeiro. É uma coisa que a gente não entende muito. Por que o meu irmão entrou no meio de uma guerra entre as famílias. Não dá pra falar nesse momento ainda em perdão e de qualquer coisa nesse sentido. A gente precisa primeiro saber o que aconteceu e depois o tempo vai dizer o que realmente o nosso coração vai mandar e como vai ser esse processo.

Vocês chegaram a acompanhar alguns relatos dela (Mysheva) sobre o caso e hoje é dia de acompanhar o depoimento, como está a expectativa?
A expectativa é grande até pra saber a versão dela porque ela se manteve calada durante esse tempo e a gente recentemente viu uma entrevista. Mas é diferente de estar aqui. Para uma entrevista, a gente pode se preparar e aqui, não. As coisas devem ser expostas e acho que diante de tudo que cerca esse momento a gente pode tirar uma verdade dentro do que ela for falando.

Vocês pensam em falar com ela?
No momento, o meu coração é muito machucado. Não dizendo que ela é culpada ou inocente. A gente não vai tomar esse juízo de valor. Até porque vamos esperar primeiro o que vai acontecer aqui no júri. Mas eu tenho uma mágoa por ela ter colocado o meu irmão nessa situação. O meu irmão um cara sensacional, prestativo toda vida, talvez quis ser prestativo em uma situação e acabou pagando com a vida por isso. Essa mágoa ainda fica nesse momento. No futuro, a gente não sabe o que pode vir a acontecer. Mas nesse momento a mágoa ainda é muito grande.

Depois de tudo você chegou a fazer uma tatuagem em homenagem a Thiago com a frase “pra quem tem fé a vida nunca tem fim”.
É, logo que aconteceu, O Rappa lançou essa música, o nome chama Anjos. (pausa emocionado). O nome da música chama Anjos e, eu não sei, eu lembro do meu irmão quando escuto a música. Essa música me remete muito a essa lembrança. Era uma música que estava estourando na época e eu meio que peguei para fazer uma homenagem pra ele porque achei que essa frase tem tudo a ver. E eu espero que a gente possa se encontrar um dia. Enfim, não volta, né?, mas, quem sabe, a gente ainda se vê por aí (emociona-se novamente).

Tem mais alguma coisa que você gostaria de acrescentar?
Eu agradeço muito o carinho de todo mundo. Eu sei que tem muita gente torcendo para a gente ter um desfecho onde os verdadeiros culpados paguem e eu agradeço todo mundo que tem mandado mensagem e que tem torcido para que a verdade apareça. A gente vê o carinho que as pessoas têm pelo meu irmão e a gente fica muito feliz. A gente sabe o quanto ele foi querido como professor, como promotor, e a gente agradece muito todo mundo que apoiou durante esse tempo e vamos torcer para que a verdade
realmente apareça e quem fez esse ato brutal possa pagar. A gente quer Justiça nesse momento.

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