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Vantagens e fragilidades das escolas dentro de casa

Regulamentação do ensino domiciliar foi assinada, na forma de projeto de lei, pelo presidente Bolsonaro na última quinta-feira (11). Ainda é necessário um longo trâmite legislativo.

Mariana Navarro e o Ensino DomiciliarMariana Navarro e o Ensino Domiciliar - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

Em setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) apontou que o ensino domiciliar, ou seja, uma família que prefere educar o filho em casa em vez de matriculá-lo numa escola, é constitucional. O presidente Jair Bolsonaro assinou na última terça-feira (11) projeto de lei que regulamenta a questão, para garantir apoio a quem pratica o homeschooling (como é chamado) e para inibir famílias que negligenciam a educação dos filhos e não os matriculam na escola. A Folha de Pernambuco mostra quem aplica e leva o método à sério. E, também, que esse ensino tem vantagens e fragilidades.

Ensinar os próprios filhos em casa é uma escolha de pais que acreditam que o sistema educacional brasileiro é insuficiente, ou até mesmo prejudicial. Primeiro, pelo próprio nível da instrução, baixo na maioria das vezes. Mas, também, porque o ensino domiciliar permite que as crianças sejam tratadas de maneira personalizada, algo impossível para as escolas comuns, sejam públicas ou privadas.

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“A teoria da pedagogia mostra que não pode se ensinar em massa. Cada criança tem um tempo, um modo de aprender. No século 17 Comenius já dizia que o professor tem que olhar cada aluno. No nosso sistema de hoje, isso é impossível”, argumenta o doutor em educação pela USP Édison Prado de Andrade, presidente da Associação Brasileira de Defesa e Promoção da Educação Familiar.

Édison justifica o homeschooling também porque os pais enxergam a criança de uma forma que os funcionários de uma escola desconhecem. “Sabem suas aptidões, suas inclinações. Se uma criança tem mais jeito para literatura e outra para matemática, na sala de aula elas terão as duas disciplinas ensinadas da mesma maneira e avaliadas com o mesmo exame. No ensino domiciliar, os pais podem fazer compensações e atingir o potencial máximo das duas áreas. Pesquisas internacionais mostram que crianças ensinadas em casa têm desempenho igual ou superior que as outras. Se a outra for uma escola pública, o homeschooling é muito superior.”

O especialista entende que, se o ensino tradicional fosse satisfatório, principalmente no sentido da personalização, o ensino domiciliar não seria necessário. Em casa, a criança é levada em consideração. Algumas são ávidas por leitura e chegam a ler clássicos da literatura antes dos 10 anos. A curiosidade parece ser inata a elas, e o trabalho dos pais é justamente manter essa característica viva.

A dica é a de Édison, mas também da tutora de Fernanda Novaes, 42. Partindo do Cabanga Iate Clube, na área central do Recife, em 2016, ela, o marido Luiz Faria, 54, e o filho Igor, na época com 5 anos, iniciaram uma vida nômade a bordo de um veleiro. O ensino da criança ficaria a cargo deles, claro. “Transferimos ele para a escola Conlara, nos Estados Unidos, que oferece ensino à distância. Ele é um estudante internacional. Pagamos mensalidade, temos material didático, acompanhamento em português e, se ele quiser frequentar a escola física, ele pode. Mas na prática, nós fazemos o ensino domiciliar e somos acompanhados por uma instituição”, conta a mãe do garoto.

A rotina de mãe e filho é de ensino dirigido pela manhã, após o café. Leitura, lógica, ciências, geografia. “Estrutura básica do fundamental que a escola pública, em geral, não consegue passar. Lá o aluno não vai aprender a falar outra língua, por exemplo. Nós, pais, queremos mais.”

A família de Igor o educa à distância em casa. Ou melhor, em barco

A família de Igor o educa à distância em casa. Ou melhor, em barco - Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

À tarde, atividades extra-curriculares: surfe, pesca, natação, aulas de música, artes marciais. “Cada vez que paramos em uma cidade e percebemos que vamos ficar três seis, ou doze meses, eu o inscrevo em cursos locais. Ele se socializa com crianças de idiomas e costumes diferentes do dele e a troca de cultura parece lhe fazer muito bem”, conta, por telefone, desde o arquipélago paradisíaco de Bocas del Toro, no Panamá. 

Limites
Com o tempo, a criança precisa de mais do que os pais podem oferecer, de acordo com Édison Prado. “Os pais percebem quando o filho está ficando desmotivado ou está ficando complicado para eles acompanharem o estudo do filho. Normalmente é na adolescência. A ajuda pode ser a escola, mas pode ser um professor particular.” 

A socialização na escola também é colocada em xeque por ele. “Chega a ser um risco, a depender da escola. O massacre que houve em Suzano é algo extremo, mas até chegar lá há um leque de problemas corriqueiros não vistos pelo responsáveis pela escola. São furtos, agressões, drogas. Adolescentes tiram nota zero no Enem, não conseguem o mínimo. Mesmo estando na escola.”

As famílias criaram uma rede de apoio e dividem materiais, ensinamentos, técnicas. Interagem e fotografam as atividades para provar que o trabalho é feito, também. Aos poucos, famílias que aplicam o ensino domiciliar se agrupam localmente e interagem pessoalmente, realizando visitas e até viagens de aprendizado. 

A falta que a escola faz
A socialização é a questão mais polêmica do homeschooling. De acordo com a coordenadora de pedagogia da Universo, Angélica Portela, a criança precisa estar inserida em um ambiente escolar diariamente para aprender a socializar. “Há um primeiro grupo, o familiar, em que a criança aprende valores, ética. A escola é responsável por inserir esse indivíduo na sociedade”, explica. Família e escola têm responsabilidades diferentes, de acordo com a especialista.

Segundo a psicopedagoga, a criança que não passar por esse processo pode se tornar uma pessoa com dificuldades de relacionamento no futuro. “Lidar com frustrações, com o diferente e respeitar o ambiente podem se tornar tarefas difíceis”, analisa. Ela se preocupa com o movimento de famílias que querem optar pelo homeschooling unicamente por questões religiosas. “Não querem que a criança perca a veia religiosa que ensinam e acreditam que podem controlar isso. Mas, para além da dificuldade de relacionamento que esse contexto propicia, as famílias, em geral, não estão preparadas para realizar o ensino que a escola propõe.”

Quem busca o ensino domiciliar, contudo, está justamente buscando o contrário do que a escola propõe. E, quem realmente o leva à sério, se esforça por levar a criança a socializar sempre que possível. A artesã Nicole Honório, 31, não quis terceirizar a educação da filha Hadassa, hoje com 7 anos. Mas, quando se mudou do Recife para Itamaracá, percebeu que não havia ali locais para socializar. “No Recife tinha Compaz, museus, bibliotecas públicas, família perto. Aqui não tem. Tive que colocar ela na escola.”

Iniciou-se um problema: a criança estava muito mais avançada que as colegas de classe. Não deveria pular turmas porque estaria com crianças bem mais velhas. “Enquanto ela já estuda geografia e ciências em casa, quando chega do colégio, os outros nem sabem ler ainda. Eu sei que a professora vai se dedicar a alfabetizar os outros, e não a estimular a minha filha, que já acha monótona a aula que tem. Então, faço um ensino domiciliar parcial, à tarde, com ela”, conta. “Se uma escola equivalente ao homeschooling não fosse absurdamente cara, seria uma opção.”

Um é pouco, quatro é bom
O aprender permeia todo o dia da família da psicóloga Mariana Navarro. São três crianças e um adolescente no ensino domiciliar, sob sua responsabilidade. “De manhã temos algo mais formal, com os materiais dirigidos. Mas, como são quatro, isso se dilui durante o dia. Ontem o jardineiro veio, plantamos, colhemos frutas, utilizamos os limões para fazermos cálculos simples. São crianças de 2 a 6 anos”, conta Navarro.

Mariana Navarro e o Ensino Domiciliar

Mariana Navarro e o Ensino Domiciliar - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

 

O adolescente, de 13 anos, estudou até os 11 em uma escola tradicional. Vendo o ensino dos irmãos, insistiu para adotar o homeschooling. “Ele já era muito interessado. Mas com a mudança da escola para o ensino domiciliar eu percebo diferença principalmente na leitura. Por ano, a escola passava dois livros. No ano passado, ele leu 15. Não só literatura, mas técnicos sobre questões que interessam a ele, de moedas a rochas. Ganhou mais autonomia de pesquisa utilizando a internet para o conhecimento e não para jogos ou vídeos bobos”, analisou.

“Todos os dias ele vai ao futebol, tem aula no curso de inglês, faz um curso de raciocínio lógico. Os menores se envolvem com outros nas experiências que oferecemos como museus e encontros com outras famílias que adotam o homeschooling. No mais, ainda fazem aulas de capoeira e de circo. A socialização e o aprendizado são contínuos.” 

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