[Vídeo] Impasses marcam o caminho do Brega-Funk

Fortemente influenciado pelo brega meloso e pelo funk produzido no Rio de Janeiro, esse recente estilo musical é originário do Recife, tendo como berço acolhedor as periferias da capital pernambucana

MC TochaMC Tocha - Foto: Mandy Oliver / Folha de Pernambuco

Foi no bairro de Jardim Piedade, no município de Jaboatão dos Guararapes, que Emerson da Silva, de 24 anos, nasceu e cresceu. Influenciado pelo avô, o MC Tocha, como é popularmente conhecido, começou a carreira aos 15 anos de idade, quando decidiu gravar, de forma amadora, algumas de suas composições. “Comecei em casa mesmo. No meu quartinho, com meu microfone e meu computador. Eu gravava uns funks e, desde a primeira música, tudo deu certo, graças a Deus”, relembra o artista.

Hoje, com quase dez anos de carreira, Tocha alcança mais de 6,5 milhões de acessos no videoclipe “Paralisou”, hit lançado ano passado e que o tornou ainda mais conhecido, sendo regravada até mesmo por outros artistas como Márcia Felipe.

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Nativo do bairro de Casa Amarela, na cidade do Recife, Hugo Alisson Félix de Araújo Silva nunca imaginou que fosse conquistar milhares de fãs. A ideia inicial era ganhar o gosto da comunidade onde vivia através das suas composições. Famoso e conhecido como MC Cego Abusado, ele começou a trajetória de artista distribuindo sua música nos carrinhos de som que circulavam pelas ruas do seu bairro.

Depois de ter ganhado o gosto do público por meio do seu trabalho, ele tem aproximadamente 174 mil seguidores no Instagram e mais de 1,3 milhão de visualizações no videoclipe “Novinha, tá querendo o quê?”, um de seus maiores sucessos ao lado do MC Metal, quando ainda eram parceiros.

Trajetórias distintas, mas conectadas por uma paixão: o brega funk. Fortemente influenciado pelo brega meloso e pelo funk produzido no Rio de Janeiro, esse recente estilo musical é originário do Recife, tendo como berço acolhedor as periferias da capital pernambucana. “Comecei minha carreira de MC ouvindo o funk carioca, como os sons do MC Frank, MC Kikão, Mr. Catra”, conta Cego.

Atualmente, a música desses jovens artistas amadureceu e ganha não só as ruas da comunidade em que moram. Elas também têm caído no gosto de milhões de pessoas pelo Brasil. Da periferia ao Centro, o brega funk está presente em toda a esfera urbana. Alguns impasses, no entanto, marcam o caminho desses garotos.

Preconceito
Duas histórias, duas carreiras e uma intolerável realidade que faz do preconceito seu denominador comum. Mesmo com diversos seguidores, de todas as classes sociais, que curtem o som produzido por esses novos artistas, o brega funk sofre inúmeras resistências musicais oriundas do padrão cultural elitista estabelecido.

Munidos de um discurso discriminatório de que esse estilo de música não faz parte da cultura do povo recifense, é comum ouvir que o brega funk não pode ser considerado como música. “Sempre ouvi dizer por aí que não deveríamos escutar nem dançar brega funk porque é coisa de gente baixa. E eu escutei falar isso exatamente com essas palavras”, comenta a estudante de Direito Deborah Galvão, de 20 anos, que revela já ter alimentado discursos parecidos com este anteriormente. Hoje, após conhecer de perto este ritmo, ela luta a favor dele.

Estereotipada pela sociedade, a música produzida na comunidade vai além da violência e do apelo sexual. O ritmo sobretudo serve como porta-voz daqueles que vivem às margens da sociedade, evidenciando a desigualdade social e, além disso, representa a ascensão cultural dessa classe. “Tem-se a ideia de que música boa não se dança, se sente. É coisa da mente e não do corpo. Tudo aquilo que é do corpo é negativo. O prazer, a sexualidade têm a ver com pecado. Por isso, a música de brega funk que é uma música do corpo, do prazer, da pegação é problematizada pelas normas da família e da igreja, que são formações sociais hegemônicas”, justifica o professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCOM) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Thiago Soares.




Carnaval

Ano passado, essa discussão ganhou mais notoriedade depois de o Governo de Pernambuco deixar de fora alguns gêneros musicais como Forró Eletrônico, Forró Estilizado, Brega, Swingueira, Arrocha, Funk, Sertanejo e Pagode Estilizado da convocatória para o Carnaval 2017. Neste ano, novamente, os mesmos gêneros musicais não puderam participar da convocatória. 

A decisão gerou bastante polêmica. Muitos alegavam que os estilos retirados entram dentro do leque de ritmos contemplados pela Cultura Popular, inclusive o brega funk. A discussão, além disso, girava em torno de o Carnaval ser uma festa tradicionalmente popular, que através da união dos diversos povos, abrange todos os estilos musicais beneficiando todos os gostos de música. “Se o Carnaval consegue juntar todas as classes, por que não tirar proveito disso? Carnaval é a mistura de culturas e o governo excluindo alguns ritmos tira todo o fascínio do que é o Carnaval”, questiona a Deborah.

Essa decisão também não foi bem recebida no ambiente artístico. De acordo com o empresário do MC Tróia, Walter Júnior, o ritmo precisa ganhar mais visibilidade não só no Carnaval, mas também durante todo o ano. “Minha expectativa é que as pessoas parem com o este preconceito porque os meninos merecem. Não só o Tróia, como também vários artistas pernambucanos do brega, que ralaram muito para chegar aonde chegaram”, falou.

Desde então, o debate sobre o brega-funk ser ou não cultura estava instaurado. Para Thiago Soares, o movimento brega-funk como produção popular feita, na maioria das vezes, na periferia é, de fato, cultura. O brega é a produção cultural das classes menos favorecidas e a retirada desse ritmo do Carnaval assim como tantos outros corrobora com uma política cultural de governo excludente. “O Carnaval é uma festa popular em que os populares estão presentes. Não faz sentido ocultar o brega-funk que é popular dos populares. Mas o que existe, é uma política de estado que ignora e silencia um tipo específico de cultura popular, que não atende a dinâmica do que eles acham que é cultura do povo”, analisa.

Ao contrário do cenário vivenciado no ano passado, o movimento brega funk este ano parece ganhar mais espaço na programação oficial de Carnaval. MC Tocha revela que a agenda está cheia para a folia deste ano e conta que, pelo primeiro ano, ele sobe ao palco do Rec-Beat para se apresentar. “Acredito que seja o primeiro MC a me apresentar no Rec-Beat. Vamos chegar lá com tudo”, comemora o artista, que tem a esperança de um dia quebrar as todas barreiras enfrentadas pelo brega funk. “As críticas me fizeram correr mais atrás e ir mais além. Um dia o preconceito acaba. A gente sabe que nada é fácil. A gente precisa ter críticas mesmo para lá na frente ter o que contar”, finaliza.

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