Viver é muito perigoso

Mire, veja, não gosto de droga, nem bebo, nem fumo. Faço consciente. A única coisa que faço é minha oração. Meu ópio é matar, gosto de ver a queda”

José Múcio Monteiro José Múcio Monteiro  - Foto: Divulgação

‘Eu gosto de matar...’ - uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que se debruça - o voo já está pronto! Nasci aqui, mas pouco convivi, porque foi aqui que queimei minha imagem. Comecei matando, depois fui para assaltos, pequenos e grandes. Na realidade, o maior desejo que eu tenho na vida é só mesmo matar, mas quando criança queria ser assaltante. Tinha um amigo que com 10 anos foi preso, aí pensei: “vou lá saber como é isso”.

Naqueles tempos não sabia, hoje é que sei: que para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah basta se olhar um minutinho no espelho - caprichando em fazer cara de valentia ou de ruindade! Com 14 anos matei uma mulher. Matei porque ela começou com a gente, ganhando dinheiro, e depois passou a morder. Morder, na vida do crime, é delatar. Quando descobri, matei de paulada. Quando vou na intenção de matar, mato. E gosto mais de matar de faca. Eu tenho só a 4ª série e nunca pensei em voltar, visse? Pra quê? Eu nasci para o que sou. E depois, praticando assalto maior, assalto a banco, carro forte, que dá dinheiro, estudar nunca mais. Ah, mas a morte também dá muito dinheiro. Eu faço por aluguel.

Olhe: quando o tiro é de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente - depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é sertão. Veja você, tanta gente manda matar! Oxe! Vamo dizer que esse aqui é teu esposo, ele te traiu, aí você chega pra mim, mostra uma foto dele. Aí eu vou atucalhar ele na entrada da tua casa.

Pá, mato ele. Qualquer coisa, não cai nada para você, eu mato ele como latro. Latrocínio, roubo seguido de morte, conhece? É assim, não tem regra. Se você quiser matar um fulano porque não gosta dele? Nonada, já já era... O motivo da morte não me interessa, mas o dinheiro. Quem mais encomenda morte é mulher traída que tem dinheiro, ela gosta de ver. Prefere ser viúva a ser traída.

Cinco mil é o preço para se mandar matar alguém. Gente safada, a gente mata por dois mil, mil quinhentos, até de graça. Se você for minha amiga e pede, eu vou lá, mato. Mas pacto com diabo? Não! Antes de sair para matar, eu faço é a minha oração, alto para todo mundo ouvir. Quer ouvir? Vou fazer para você. (Canta) Santo Antônio pequenino, amansador de burro brabo/ Quem mexer com essa moça, tá mexendo com o diabo!

Remorso? Não! Nunca! Você está sendo paga para ser repórter, né isso? Faz tua função e eu faço a minha, matar. E se não fosse crime, ah, ia ganhar muito dinheiro, viu? Se não me engano, já matei uns 19 aqui fora. Em rebelião, de matar por matar, nem contabilizo.

Se eu te contar... você tem coragem de bater bola com uma cabeça? Não, mas eu já fiz. O senhor não duvide - tem gente, neste aborrecido mundo, que mata só para ver alguém fazer careta. Eu mato mesmo por prazer, menina! É verdade, desde a minha primeira morte que é essa mesma sensação. Geralmente prefiro faca, mas já matei no tiro, é mais rápido. Pou, pou, acabou-se. Mas não tem o mesmo prazer.

Que eu saiba, nenhum nunca sobreviveu. Quando mato, sinto prazer. É sim, uma sensação de saber que aquela porra vai ficar ali mesmo. Já matei gente boa. É diferente, mas morre do mesmo jeito, porque o que me vale é o dinheiro! E nunca levei calote, quem é doido? O cabra pensa duas vezes! Veja, estar preso é ruim, demais: às 6h da manhã cadeia aberta, meio-dia fecha, quatro da tarde abre, faz a chamada; fecha de novo. E você fica ali. Viver é muito perigoso e a vida real, a minha, mais ainda. Mas não tenho medo de morrer, tenho é medo de ficar aleijado, em cima de uma cama. Quem ia ajudar era meu dedo, puxando o gatilho, filha.

Mas me diga, moça: se você matasse alguém, ficaria pensando? Tu acha que sim, mas ficaria não. Quem mata um, mata dez. O problema é matar o primeiro. Tenho pra mim que se a gente vivesse num sertão mesmo, a gente era mais cruel do que é. Ia fazer por sobrevivência. Tem um cara que atucalho como quem procura uma agulha no mar, tenho até foto. Ele tá preso, no dia que sair, vou pegar. Só porque matou criança, na faca.

Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas sem topar com alguém; é onde o criminoso vive seu Jesus-Cristo, arredado do arrocho de autoridade. É fazer justiça. Vou te dizer o porquê. Se você der um tapa numa criança, ela reage? Ela chora, né? Já pensou uma criança ver uma faca na frente dela e não poder fazer nada? Covardia. Só de falar dele fico assim, virado (trinca os dentes). Tem mais uns na minha agenda.

Mire, veja, não gosto de droga, nem bebo, nem fumo. Faço consciente. A única coisa que faço é minha oração. Meu ópio é matar, gosto de ver a queda. Sexo?! Oxe, é bom demais. Matar fica em segundo. Não pretendo parar, fico enquanto Deus me der força para estar aqui. Minha relação com Deus é normal. Você acredita em Deus? Reze todo dia, não esqueça não! Rezo por mim, mas não acendo vela pra vítima alguma. A única coisa que faço é passar e jogar um pouco de sal. Sal grosso, como todo matador faz, que é pro espírito não parar de se coçar, chegar atentado lá em cima e nunca mais fazer mal aos outros. Mas acredito em uma punição, sim, pois Deus diz que se ele colocou, ele tira, né isso? Mas se por tudo a gente for esperar por Deus, é o mesmo que você dever e dizer "que Deus te pague". É muita dívida, então faço um safado chegar lá em cima já morto. Dou ele adiantado.

A polícia é muito corrupta, filha. Quando ela procura agilizar um crime, monta um culpado. Pega e pendura num pau-de-arara para o cara assumir, aí ele diz até que bateu na mãe. Mas, olhe, com a gente não funciona essa tortura. É não e não e acabou-se. A gente vive da morte mesmo. Não me importo de morrer, pode pendurar. É não até o fim.

A vida proporciona coisas boas, ruins. Escolhi essa vida. Ninguém bota ninguém a perder. Se eu te chamar para assaltar um banco ali, você vai? Não. Então, quer dizer, você não quer ter atrapalho. É até fácil, a lei só funciona para pobre. Sabe por que o criminoso pobre faz muita coisa ruim? Ele sofre mais na cadeia. Nem preso me arrependi, só lamentei estar sem ganhar dinheiro. Se eu pudesse voltar, lá trás, voltaria pior do que sou. Mas sou uma pessoa boa, sabe? Vivi numa comunidade e todo mundo gostava de mim. Não é porque você é matador, tem que saber respeitar o seu lugar, respeitar os outros.

Quase todo mais grave criminoso feroz sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai e amigo. Quis ter filho não. Se fosse pai, tinha medo de que seguisse uma vida dessa.

Você acredita que na minha família só eu sou errado? É por isso que não convivo dentro de casa, tenho o maior medo do mundo. Ah, minha mãe é uma pessoa espetacular, linda, a coisa mais preciosa que tenho na minha vida. Ela é bem triste com o que eu faço.

No sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado. É por aí, pesado. Falei para você que tenho 19 mortes porque eu não gosto de falar, mas é muito mais. É que 19 mortes não dá formação de quadrilha, não fecha 20 (risos). Entendeu? Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais. A verdade, moça, é que quando eu tinha 12 anos de idade, um cara me deu uma tapa que rodei e caí. Baixei a cabeça e fui embora. Ele chegou no meio dos amigos dizendo que meteu a mão, até eu voltar com uma faca: “quer morrer sentado ou de pé?” Ele disse: “do jeito que tu 'vim'”. A faca varou o pescoço dele. Tirei, peguei no cabelo dele e rasguei o resto. O sangue esguichou! É bonito demais (gargalhadas). Aí ali comecei a seguir o erro, não parei. Aí fiquei recebendo convite para isso, aquilo outro.

Bora? Bora!
Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é sem-fim que nem não se pode ver. Faço pacto com o diabo não, menina, é melhor ficar com Deus. Só tem duas coisas na face da terra: é a tua saúde e Deus. O diabo não existe. O diabo é a gente mesmo. E vou te dizer mais uma coisa: você é forte. Tem poder, pode ter certeza. Você é tão forte que pode dizer assim, ó: "Santo Antonio, pequenino, amansador de burro bravo/ Quem mexer com Tatiana tá mexendo com o diabo."
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