A difícil missão de superar a crise política

Nos municípios, as dificuldades podem obrigar os prefeitos a profissionalizar suas gestões e o presidente Michel Temer terá a chance de retomar o equilíbrio da economia em meio a turbulências.

TCETCE - Foto: Divulgação

A crise política vivenciada pelo País no ano passado trará novos desafios para 2017. As dificuldades, contudo, poderão ser revertidas em oportunidades, caso o País saiba contornar as expectativas negativas. Para especialistas ouvidos pela Folha de Pernambuco, novas revelações bombásticas sobre o envolvimento de políticos na Lava Jato poderão passar o País a limpo e eliminar práticas nefastas do sistema eleitoral.

Além disso, as ruas devem voltar a entoar a sua voz em grandes manifestações em busca dos seus direitos e o Congresso Nacional terá a oportunidade de votar matérias importantes para a recuperação do País. Nos municípios, as dificuldades podem obrigar os prefeitos a profissionalizar suas gestões e o presidente Michel Temer terá a chance de retomar o equilíbrio da economia em meio a turbulências.
Hely Ferreira
Cientista político da UFPE

O futuro político do presidente da República, Michel Temer (PMDB), tem como maiores incógnitas o avanço da Operação Lava-Jato e a ameaça de impugnação da chapa eleitoral composta por ele e Dilma Rousseff. O andar da carruagem em torno das investigações poderá atingir atores políticos da base e dificultar seu diálogo com o Congresso. A cassação da chapa no TSE, por sua vez, resultaria na eleição indireta para presidente.
Apesar de um cenário difícil que se projeta, o impulsionamento da economia poderá garantir a estabilidade do presidente e do País. Segundo o cientista político Hely Ferreira, o presidente poderá reverter as dificuldades se melhorar a economia. "Tudo depende de como vai se comportar a economia. Essas reformas que ele fez são necessárias. Agora, o problema é que todas as vezes que o País passa por acocho só quem sofre é o mais pobre. Ele precisa criar coragem e convocar o Congresso para sofrer junto com o povo. Ou ele melhora a economia de forma significativa ou a situação dele piora, porque, se o Congresso não vê a melhora no decorrer do ano, facilmente eles mudarão de lado, ainda mais porque o próximo ano terá eleições", avaliou.

Felipe Oriá
Pesquisador da FGV-RJ

A delação premiada firmada pelos mais de 70 executivos da Odebrecht, em 2016, deverá atingir em cheio a classe política, neste ano. Previstos para serem homologados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ainda no primeiro semestre, os depoimentos deverão trazer turbulência para a classe política, mas também poderão ser uma oportunidade de exterminar velhas práticas espúrias que estavam entrelaçadas no sistema eleitoral brasileiro. A exposição poderá obrigar mudanças no processo de democrático e um novo comportamento aos políticos. Muitos políticos deverão ser expostos e outros obrigados a mudar práticas ilegítimas que estavam enraizadas na política brasileira. Para o pesquisador Felipe Oriá, a repercussão das delações e a instabilidade no cenário político obrigam o estabelecimento de uma repactuação entre as instituições brasileiras. É a única forma de encontrar uma saída para a crise. "A certeza é que será necessária a construção de um pacto institucional para acalmar as coisas. As variáveis que olhávamos antes mudaram. A instabilidade e incerteza marcarão o primeiro semestre de 2017, mas um novo pacto poderá superar as dificuldades”.

David Fleisher
Professor da UnB

O Congresso Nacional terá um papel crucial na recuperação da economia brasileira a partir de 2017. É no Legislativo Federal que os principais debates sobre reformas estratégicas para o País serão travados. As pautas são vistas como a esperança para a construção de base sólida para o País e a recuperação dos investidores internacionais na economia. Temas como a reforma da previdência e trabalhista, além da continuidade do ajuste fiscal terão um impacto determinante no futuro do País e da sua população. “Se o Congresso tomar a decisão acertada, ele poderá dar início a recuperação do Brasil e da sua confiança. O ano de 2017 poderá ser uma ponte para um 2018 melhor”, avaliou Fleisher. O ponto de alerta deverá ser a possibilidade de mudanças nos projetos terem o seu conteúdo distorcido. Um exemplo é a polêmica em torno do pacote de medidas anticorrupção. “Um projeto em defesa do combate à corrupção acabou sendo mutilado e transformado em uma coisa totalemente diferente pelo Congresso. Esse é o tipo de experiência que não poderá ser repetida”, advertiu. Outro ponto positivo poderá ser a renovação do comando das mesas diretoras das Casas para 2018.

Antônio Lucena
Prof. da Faculdade Damas

Ao longo de 2016, o mundo político se viu encurralado pela interferência do Judiciário em diversas demandas. Nunca antes na história recente da democracia brasileira, a Justiça assumiu um protagonismo tão intenso seja na figura do juiz paranaense Sérgio Moro à frente da Operação Lava Jato ou nas decisões da cúpula do Supremo Tribunal Federal (STF), que, em muitas ocasiões, fizeram estremecer as paredes do Palácio Planalto e do Congresso. Com 2017 batendo à porta e com ele inúmeras perspectivas - que passam pelo eventual impeachment de Temer, mais prisões e delações - a aposta do cientista político pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Antônio Lucena, é que o Judiciário continuará a interferir no Legislativo e Executivo, promovendo uma varredura em práticas nefastas como a institucionalização da corrupção, o que é visto como um ponto positivo. "Podemos ver com bons olhos certas medidas do Judiciário porque o País está sendo passado a limpo. Isso e uma série de outras questões podem gerar novas práticas na política", avaliou. Resta conferir se as ações do judiciário serão consolidadas.

Túlio Velho Barreto
Professor da Fundaj

As recentes medidas anunciadas pelo governo do presidente Michel Temer (PMDB) bem como os futuros movimentos que se desenham como a reforma da previdência e trabalhista deverão levar a população a retomar as mobilizações populares, em 2017. Pelo menos essa é a projeção do cientista político e sociólogo da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Túlio Velho Barreto. Contudo, o estudioso vê de forma positiva as mobilizações. Considera que a intensificação das demandas sociais será importante para reavivar a democracia e pressionar as futuras medidas do governo Federal como as reformas trabalhista e da previdência. “A minha visão é que houve um golpe de Estado. Portanto, parto do pressuposto que tudo que for feito pela sociedade civil é importante. Toda manifestação que for contra as medidas adotadas por Temer são importantes. É importante que a população vá para a rua para denunciar essas medidas impositivas. Vejo como positivo o comportamento da sociedade continuar e ampliar suas movimentações. É importante que elas ocorram para impor recuo do governo”, avaliou Túlio Velho Barreto.

Vanuccio Pimentel
Consultor do IG Pública

Os prefeitos que assumirão seus mandatos a partir de hoje não terão um ano fácil pela frente, mas as dificuldades podem ser transformadas em oportunidade de mudança no padrão da gestão pública. Os gestores serão obrigados a mudar suas práticas e criar uma consciência maior sobre as prioridades das suas administrações. Isso poderá resultar na redução de gastos desnecessários e foco maior nos investimentos e gastos estratégicos dos executivos municipais. “A crise obrigará os gestores a elencar prioridades e reduzir gastos desnecessários para superar as dificuldades. Vemos gestores cortando e a maioria desses cortes atingem a gordura do governo. Isso poderá criar uma nova consciência do que é prioritário para a gestão. Os prefeitos serão obrigados a profissionalizar suas administrações e reforçar o lado técnico”, avaliou o consultor do Instituto de Gestão Pública (IG Pública), Vanuccio Pimentel. Segundo ele, a acomodação política e partidária acaba ganhando mais espaço que a profissionalização do governo. “A crise impõe um novo modelo. Não haverá mais tanto espaço para acomodação política de vereadores e aliados. O prefeito deverá colocar quem realmente tem condições de superar dificuldades”.

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