A maior “prova de fogo” da democracia

As eleições deste domingo refletem uma polarização entre os que apoiam e odeiam o PT. Mas, diferente de 2014, o fenômeno Bolsonaro tem levado muitos a recear pela estabilidade democrática

Líderes das pesquisas, Fernando Haddad e Jair Bolsonaro devem se enfrentar no segundo turno, que será marcado pela rivalidade pró e anti PTLíderes das pesquisas, Fernando Haddad e Jair Bolsonaro devem se enfrentar no segundo turno, que será marcado pela rivalidade pró e anti PT - Foto: NELSON ALMEIDA / AFP Fábio Rodrigues Pozzebom

Ademocracia brasileira passa por sua maior “prova de fogo”, neste domingo, desde que o País instituiu a redemocratização. É sintomático que, após quatro pleitos vencidos pelo PT, o antipetismo radical encarnado por Jair Bolsonaro (PSL) dê à votação um caráter plebiscitário, onde o eleitor é levado - por força da conjuntura - a optar entre dois projetos opostos. Apesar dos 13 candidatos à Presidência da República - o maior número desde 1989 - essa eleição resultou polarizada entre o “candidato das redes”, Bolsonaro, e o candidato do ex-presidente Lula, Fernando Haddad (PT), numa separação nítida entre direita e esquerda. Dessa forma, o acirramento vivenciado na campanha, especialmente nas redes sociais, põe em dúvida se o próximo presidente terá capacidade de governar.

O cenário que levou Jair Bolsonaro à preferência de 35% das intenções de votos gera alarme na comunidade internacional, pois traz indícios de ameaça ao regime democrático. Há elementos cruciais para montar o quebra-cabeça até a eleição de 2018, no qual a crise econômica - os 13 milhões de desempregados - parece dar o tom enérgico e urgente com que os presidenciáveis falaram durante os 52 dias de campanha.

Além da recessão que aflige de perto as famílias brasileiras, o colapso do sistema político de representação também contribuiu sensivelmente para a formação da “tempestade perfeita”. O impacto da Operação Lava Jato no PT e no PSDB produziram uma rejeição sistemática aos partidos e políticos tradicionais, fazendo o Brasil entrar na rota de países como EUA, França, Reino Unido e Turquia, onde soluções extremas entraram para o cardápio de parte expressiva da população.


Dilma e Aécio
A polarização de 2014, entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, que partiu o eleitorado quase ao meio, é diferente do que o País vive hoje. Na visão do cientista político Marcos Nobre, Bolsonaro tomou o lugar do PSDB para encarnar um antipetismo extremo, sem rabo preso, sem comprometimento com o sistema de “balcão de negócios” e ainda acoplando uma agenda liberal na economia, conservadora nos costumes, com viés autoritário, que ainda representa parte significativa do Brasil. Um projeto que, há quatro anos, soava insólito passou a ganhar corpo quando o economista Paulo Guedes - o “Posto Ipiranga” - se colocou como fiador da ideia.
Com o auxílio das redes sociais, ao modo do presidente americano Donald Trump, onde diz suas opiniões, que rapidamente viralizam, o capitão da reserva alcançou uma projeção inimaginável, relegando ao ocaso ferramentas consagradas da política, como o guia eleitoral na TV. Nem mesmo a facada que sofreu, no começo de setembro em Juiz de Fora (MG), forçando-o a ficar de fora de debates e da campanha de rua, atrapalharam seu crescimento nas pesquisas.

Por outro lado, o PT, que havia perdido metade das prefeituras em 2016, no auge do impeachment da ex-presidente Dilma, entrou na narrativa da "volta por cima", propagando o discurso de saudade da prosperidade experimentada nos governos Lula e se abraçou com o Nordeste para viabilizar a candidatura. O ex-presidente inclusive encampou uma luta judicial para se colocar na disputa, mas parte da sociedade tinha noção de que a estratégia era transferir votos para Fernando Haddad e para isso, o PT precisava ser protagonista no campo da esquerda. Foi singular o ato de substituição da candidatura, na frente da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, no dia 11 de setembro. Em poucos dias o ex-ministro da Educação chegou ao segundo lugar.

Dança
Tentando se viabilizar como terceira via à polarização, Ciro Gomes (PDT) definiu a estratégia petista como uma "dança à beira do abismo". Geraldo Alckmin (PSDB), que concorre à frente de uma coligação com seis minutos de guia eleitoral, torpedeou o quanto pôde a polarização entre "radicais de direita e esquerda". Marina Silva (Rede) que disputa a sua terceira eleição, viu seu percentual desidratar à medida que o acirramento entre bolsonaristas e lulistas aumentava.

Agora, quando se colocam dúvidas sobre a capacidade do sistema democrático brasileiro, a pesquisa Datafolha aponta que 69% da população acredita que o regime democrático é a melhor forma de governo para o País, marca recorde desde 1989. O cientista político Fábio Reis (UFMG) interpreta o número como uma concepção abstrata da população sobre o que significa democracia. "Não há democracia direta. Estamos fazendo eleição, com supostos representantes lá. Não decidimos em praça pública. Falar de democracia direta é impróprio, diante do que se propõe no debate atual", avalia.

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