Memória

A primeira e antológica entrevista com o rei do baião

Fã de carteirinha de Gonzagão, só o conhecia pela televisão. Mas conhecia também a sua fama de, muitas vezes, ser duro no trato.

Aniversário Carla BensoussanAniversário Carla Bensoussan - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Em 1983, vindo de mais uma maratona pelo território do semiárido devastado pela seca no Nordeste, fiz um pernoite em Salgueiro, a 530 km do Recife. Lembro que era uma tarde de sábado e o sol já se punha quando bati de frente na entrada do hotel com o cantor Luiz Gonzaga, que estava com show marcado nesse dia na cidade.

Fã de carteirinha de Gonzagão, só o conhecia pela televisão. Mas conhecia também a sua fama de, muitas vezes, ser duro no trato. Jornalistas que já haviam estado com ele me contavam tratar-se, sem meias palavras, de um chato. Criei coragem, no entanto, e enfrentei a fera. Apresentei-me como correspondente do Diário de Pernambuco e de supetão quis saber se ele me dava uma entrevista.

Ele olhou para mim, com rosto ainda imberbe, dando os primeiros passos na profissão, e como se não acreditasse no que eu falasse, sapecou: “Mas, você é jornalista mesmo, ainda cheirando a mijo?” E deu uma gargalhada. Achei que havia perdido a minha primeira grande oportunidade de estar frente a frente com o rei, imaginando que só concedia entrevistas para jornalistas já celebrizados.

Observando que eu já estava com a ferramenta nas mãos – um velho gravador, daqueles que pesavam dois quilos, grande e fora de moda – acendeu a minha esperança: “Faço o seguinte, garoto, venha aqui de noite, depois das nove horas, porque agora estou cansado e preciso tirar um sono”.

Meia hora antes, já estava na recepção do hotel de plantão. Uma hora depois, chega Gonzagão de traje a rigor para o seu show, gibão e chapéu de couro. “Senta aqui, garoto, pode perguntar o que você quiser, mas seja breve porque o povo está me esperando para a festa”, disse, referindo-se ao show marcado para Salgueiro.

Sapequei o gravador, Gonzaga foi se animando com a prosa, certamente por causa das minhas provocações sobre o seu papel para conciliar as famílias Alencar e Sampaio, que se guerreavam em Exu, sua terra natal, e a entrevista, fantástica, rendeu uma belíssima capa no caderno Viver, do DP, então editado pela competente jornalista Lêda Rivas.

Um ano antes, em 1982, quando os brasileiros voltavam às urnas para eleger governadores, 18 anos após o golpe militar, Gonzagão ajudou a acabar com uma disputa familiar do tempo do Brasil Colônia, que se transformou no maior símbolo das rixas de clãs na política nacional, deixando um saldo de mais de 40 mortos da década de 1940 ao início dos anos 80.

O ódio moldou casas e hábitos, com fachadas de poucas janelas e portas fechadas o dia inteiro. O medo pairava no ar. A luta de Gonzaga pela pacificação era antiga, vinha da década de 70, quando foi aceito como mediador graças à sua fama e o seu sucesso como cantor no sul-maravilha. E mais do que isso, porque não tinha sangue Sampaio nem era considerado um Alencar das duas primeiras castas – dos nobres e dos intermediários.

Gonzagão soltou o verbo, se emocionou ao contar que dois anos antes, em 1981, surpreendeu o ex-vice presidente Aureliano Chaves no saguão de um hotel em Belo Horizonte ao tocar a música boiadeiro. Chaves, que tinha fazenda em Minas, foi cumprimentá-lo e o sanfoneiro pediu apoio para acabar com a luta de famílias.

Ao que parece, Aureliano sensibilizou-se com a súplica do cantador e, pouco tempo depois do encontro, aproveitando um período que esteve no exercício da Presidência da República, decidiu decretar intervenção militar no município. Assim, por um ano e meio, a cidade teve um dos maiores efetivos policiais de Pernambuco.

Os bares não podiam funcionar depois das 22 horas e várias outras medidas de segurança foram tomadas. Para felicidade dos moradores, do mais popular dos exuenses e das próprias famílias envolvidas, que já demonstravam cansaço com o conflito insano, as medidas de segurança surtiram efeito e a cidade, finalmente, foi pacificada.

Um ano antes, a assinatura de um pacto de não-agressão, encomendado pelo cardeal arcebispo de Salvador, dom Avelar Brandão Vilela, não havia surtido o efeito desejado. “Foi com esta sanfona branca no peito e o chapéu de couro na cabeça que pedi a Aureliano uma intervenção federal no Exu”, recordou, ao longo da entrevista.

Marco Maciel, então governador de Pernambuco e antenado com Aureliano Chaves, atendeu o pedido e o major José Moura se encarregou de instaurar a tão sonhada trégua nas brigas. A intervenção durou até o início de 1983, quando José Peixoto de Alencar, que já havia sido eleito antes mesmo da intervenção, assumiu a Prefeitura.

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