A tabelinha do futebol e da política

As Copas do Mundo são momentos sempre especiais, e coincidem, no Brasil, com as eleições para Presidente. Em 2018, elas devem ter um componente inusitado: um certo “desinteresse” do brasileiro pelo campeonato.

Copa do Mundo do México, 1970: milhares recebem a Seleção Brasileira tricampeã, no eixo rodoviário de BrasíliaCopa do Mundo do México, 1970: milhares recebem a Seleção Brasileira tricampeã, no eixo rodoviário de Brasília - Foto: Roberto Stuckert/Arquivo Folhapress

Daqui a menos de um mês começa a Copa do Mundo Rússia 2018. A seleção brasileira estreia no dia 17 de junho, como uma das favoritas ao título, mas, ao contrário de outrora, o impacto do resultado no campeonato não deverá surtir efeito tangível na disputa ao Palácio do Planalto, que ocorre três meses depois do evento esportivo. Apesar de o futebol poder ser compreendido como uma metáfora da nova ordem mundial, vide suas complexas relações sociais, políticas, econômicas e sociais, alguns fatores domésticos corroboram para a “apatia” em relação ao megaevento e, consequentemente, diminuem os seus efeitos sobre a corrida eleitoral.

Com as conjunturas social e política confusas, não se observa o mesmo entusiasmo com a iminência do evento, como antes. Os dados da pesquisa CNT/MDA, divulgada na última semana, sobre o interesse na Copa do Mundo evidencia o desinteresse: 42% dos entrevistados disseram não estar interessados no evento; 30,7% disseram estar pouco interessado e apenas 27% se declararam muito interessados. Já 0,3% dos questionados afirmaram não saber responder.

O sociólogo Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), destaca alguns aspectos para justificar essa “apatia”, dentre eles, o “trauma cultural” sofrido pela derrota por 7 a 1 contra a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo Brasil 2014. Mas também o ônus por tudo o que envolveu a realização da última Copa, com desvios de recursos, protestos e até a abrir mão de algumas prerrogativas para a Federação Internacional de Futebol Associados (Fifa). “Tudo isso escancarou para o Brasil o que é uma Copa do Mundo e o custo de realizá-la em vários aspectos”, pondera Velho Barreto.

Contudo, outros fatores conjunturais, como Operação Lava Jato, a economia que ainda não decolou e a falta de confiança no governo atual, de Michel Temer (MDB), também colaboram para deixar “um clima para baixo” na sociedade. Diante disso, os candidatos postos na disputa eleitoral em sua maioria se colocam no centro do espectro político, alguns vendem um ideário nacionalista, mas nenhum deles possui liga com o discurso futebol-política. “Nenhum candidato tem qualquer identidade específica que possa formular uma estratégia para se apropriar, mesmo que inutilmente, de algum resultado da seleção”, destaca o publicitário José Nivaldo, sócio-diretor da Makplan.

Dos 20 pré-candidatos atualmente postos, apenas o presidente Michel Temer, o senador Álvaro Dias (Podemos) e o empresário João Amoêdo (Novo) se manifestaram, nas redes sociais, após a convocação dos 23 jogadores que vão representar o Brasil na Copa, no último dia 14. Os demais optaram pelo sintomático silêncio.

Velho Barreto avalia que, diante dos fatores, dificilmente um candidato conseguirá colar um discurso ao desempenho. Segundo o sociólogo, nem mesmo o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), com seu discurso de nacionalismo e patriotismo, ou Temer, que está no governo, conseguiriam capitalizar o resultado. “Os atores políticos têm mais a perder com a derrota do que a ganhar com a vitória”.

O cientista político Ítalo Fittipaldi, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), avalia que a Copa do Mundo não terá impacto nesta eleição. “Essa associação de Copa com desempenho político funcionou em regimes autoritários, mas, em regimes democráticos, não funciona”, afirma. Fittipaldi apresenta dois exemplos: “Basta ver que a última Copa que o Brasil ganhou, em 2002, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) era o presidente e quem ganhou foi a oposição (Luiz Inácio Lula da Silva)” e “em 2014, mesmo com o 7 a 1, o governo de plantão (Dilma Rousseff) foi reeleito”.

Democracia e ditadura
O futebol ganhou força e se profissionalizou no Brasil, a partir dos governos Getúlio Vargas, em meados da década de 1930. Ele foi o primeiro governante a compreender o poder simbólico do esporte e se apropriar dele como mecanismo de coesão social, como meio de aproximar regiões e culturas díspares. Como de praxe, o discurso nacionalista estava presente. A Copa do Mundo Brasil 1950 veio na esteira da ideia de modernização do País e a construção do Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, para o evento, é o maior símbolo disso.
 
Porém o caso mais emblemático da instrumentalização da Copa do Mundo pela ditadura brasileira ocorreu em 1970, quando o general Emílio Garrastazu Médici se apropriou do resultado da seleção brasileira, campeã no México, para aumentar o prestígio do País no exterior. À época, o regime militar tentava fazer as atenções em torno das torturas e repressões darem lugar ao progresso, com a ideia de “milagre econômico”. “Coincidiu com o dito progresso vendido com a vitória em 1970, através de slogans, propagandas e intervenção direta na seleção. Tudo em prol do sucesso da seleção”, disse o historiador Diogo Barreto, do Arquivo Público de Pernambuco.

A seleção brasileira de 1982 não venceu a Copa do Mundo Itália, mas até hoje é lembrada pelo futebol praticado. A presença de Sócrates, um dos ícones da democracia corinthiana, foi simbólico naquele período pré-redemocratização. Na década seguinte, a utilização política do futebol diminui, dando espaço ao crescimento do poder econômico privado no esporte. Após um hiato de 24 anos sem título, a seleção conquistou a Copa do Mundo Estados Unidos 1994. Meses depois, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi eleito presidente do Brasil e tentando surfar naquela vitória, nomeou Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, como ministro-extraordinário do Esporte, subordinado ao Ministério da Educação em 1995. Quatro anos depois, Brasil se candidata em 1999 para realizar a Copa do Mundo 2006, sem sucesso.

Eleito em 2002, meses após o último título brasileiro na Copa do Mundo Alemanha, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criou o Ministério do Esporte, utilizou a seleção brasileira no Jogo da Paz, como ficou conhecido o amistoso entre Haiti e Brasil em 2004, e articulou em 2007 a realização da Copa do Mundo Brasil 2014. À época, o País vivia um ambiente favorável econômica e socialmente. Não pode-se dizer o mesmo sobre o momento da realização do evento já no governo Dilma Rousseff (PT). Fittipaldi diferencia o resultado da seleção na Copa da realização do evento. “O governo Lula utilizou a ideia (de sediar a Copa) para capitalizar votos”, destaca. Apesar das críticas iniciais e do resultado vexatório em campo, Dilma foi reeleita meses depois.

Mundo
Instrumentalizar o futebol como ferramenta política não é exclusividade brasileira. Recentemente, um novo movimento político dos países emergentes, que formam o Brics – composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – merece destaque. Estes países vislumbraram nos eventos esportivos uma possibilidade de vender as imagens para o cenário internacional.

Primeiro, a China realizou as Olimpíadas Pequim, em 2008, e a Índia sediou os Jogos da Commonwealth em Dehli 2010. África do Sul em 2010, Brasil em 2014 e, agora, Rússia em 2018 mostram que Copa do Mundo é mais do que um torneio entre seleções futebolísticas, é um campo de batalha simbólica entre países, com interesses e identidades. O sociólogo Túlio Velho Barreto, da Fundaj, avalia que, para a Fifa, é mais fácil ditar regras e obter vantagens nestes países com democracias frágeis.

Organizadora da Copa do Mundo, a Fifa possui ampla capacidade de influência no cenário internacional, visto que possui mais países filiados – 211, ao todo – do que a Organização das Nações Unidas (ONU), com 105 membros, por exemplo. Esta amplitude de consolidou ao longo do tempo.

Mas a própria história das Copas já é arraigada de simbolismo político. A Copa do Uruguai 1930 surgiu na esteira do pós-Primeira Guerra Mundial, com a finalidade de reunir países adversários no conflito, em um território, em tese, neutro. Daí a América do Sul. O Uruguai foi escolhido por ter sido o vencedor do futebol nas Olimpíadas de 1928. A seleção ficou conhecida como Celeste Olímpica e ganhou o direito de sediar o evento . Pela distância, muitos países não participaram. Entretanto, a Copa nascia com o pano de fundo político.

Muitos momentos em mundiais foram marcados por questões políticas. Mas, especialmente, duas Copas são emblemáticas por se tornarem ferramenta política de regimes ditatoriais: a Itália fascista de Benito Mussolini, em 1934, e a Argentina, com a ditadura militar do general Rafael Videla, em 1978. Ambos realizaram os eventos futebolísticos para encobrir os problemas internos, vender a imagem de nações bem sucedidas e reforçar o nacionalismo. Não satisfeito, Mussolini mandou recado aos atletas italianos na Copa do Mundo França 1938: “Vencer ou morrer”. Ironicamente, a Itália fascista venceu.

A Copa do Mundo de 1994 marca um novo paradigma em relação ao evento. “A Copa do Mundo mais do que um esporte-espetáculo se torna uma mercadoria”, afirma Velho Barreto, em alusão à construção de arenas e às maneiras de se vender o esporte. Era o momento do poder econômico do esporte, em detrimento do político.

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