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"Acho perigoso chamar críticos de detratores", diz jornalista pernambucano citado em lista polêmica

Documento foi elaborado a partir de publicações feitas em redes sociais com citações à gestão federalDocumento foi elaborado a partir de publicações feitas em redes sociais com citações à gestão federal - Foto: Pixabay

“Eu estava trabalhando normalmente, fazendo matéria, quando vi alguém me marcar no Twitter. Nem dei tanta importância no momento, continuei o que estava fazendo. Mas aí começaram mais notificações, seguidamente. Concluí o que fazia e fui ver o que era. Já tinha várias pessoas falando comigo. Minha primeira reação foi tentar entender o que era aquilo.” 

Esse é o relato do jornalista pernambucano João de Andrade Neto, o número 11 entre os “detratores” da polêmica lista encomendada pelo Ministério da Economia e que acabou se tornando pública nesta terça-feira (1º).    

O levantamento, que custou R$ 2,7 milhões à pasta gerida pelo ministro Paulo Guedes e foi produzido pela empresa BR+ Comunicação, faz um detalhamento dos perfis de profissionais de comunicação, influenciadores, investidores e até professores universitários que tenham manifestado opiniões a respeito do atual governo. 

Denominado "Mapa de Influenciadores”, o documento pode ser compreendido como uma forma de o ministério fazer um apanhado das impressões sobre a gestão para controle interno. O que chama atenção, no entanto, são as categorias nas quais a lista foi dividida: Detratores, Neutros Informativos e Favoráveis. 

Cada pessoa, independente do bloco no qual tenha sido alocada, teve o perfil detalhado, inclusive com endereço de e-mail e número de telefone (dados que não se tornaram públicos). 

O histórico profissional e o posicionamento no que se refere a “assuntos sensíveis” também aparecem no relatório, que ainda dá ainda recomendações, a partir do monitoramento de cada conta, sobre como agir em relação àquele "formador de opinião". 

"Se o governo quiser fazer um monitoramento sobre o que pessoas influentes acham do governo é algo a se debater, mas a crítica vai para a forma como eles classificaram as pessoas. Acho perigoso o governo apontar o dedo para brasileiros e chamar de detratores só porque fazem críticas. Mostra a forma como o governo trata que pensa contrário a ele. Ele não quer dialogar, ele quer destruir quem pensa diferente”, opina o jornalista pernambucano. 

"Esse governo tem muito seguidor radical. Na hora em que você chama uma pessoa de detrator, você mira o dedo e os apoiadores se sentem autorizados a serem radicais. Não se pode achar que isso é uma coisa menor, porque a gente vê novas ‘atitudes pequenas' a cada dia e o parafuso vai apertando. Se a gente não se der conta, vai estar em estado de exceção”, completa.

O relatório cita, no perfil dele, o compartilhamento de um trecho da reunião ministerial em que Paulo Guedes fala que o governo só ganhará dinheiro se ajudar as grandes empresas com a seguinte legenda: "Amigo pequeno empresário, que segue apoiando esse governo genocida, o ministro da economia tem uma palavrinha pra você”. A publicação foi feita no mês de abril. 

“Uso o Twitter como forma de trabalho, mas também para dar opinião sobre tudo. E o governo Bolsonaro eu critico desde sempre, desde que ele era candidato. Se é para assumir, sou crítico desse governo, sempre fui e vou continuar sendo. Achei meio surreal o meu nome estar no meio dessa lista porque tem gente com muito mais seguidor que eu”, diz João de Andrade Neto, confessando ter ganho alguns seguidores após ter o nome publicado na tal lista. 

A lista tem um total de 50 nomes críticos da gestão. Entre os jornalistas, ainda aparecem, por exemplo, Xico Sá, Guga Chacra, Vera Magalhães e Rachel Sheherazade. Personalidades da internet, a exemplo do influenciador Felipe Neto, professores e escritores também foram relacionados. 

Os considerados neutro informativos são oito, incluindo os jornalistas Cristiana Lôbo, Mônica Bérgamo e Marcelo Lins. Os favoráveis, por sua vez, são 23, entre eles os jornalistas Rodrigo Constantino e Milton Neves e a youtuber Bárbara Zambaldi Destefani, além de alguns investidores.

 Vale ressaltar que ao menos três nomes aparecem tanto na categoria dos detratores quanto na dos favoráveis. São eles Pedro Meneses (colunista na Gazeta do Povo e no InfoMoney), Joel Pinheiro (economista, filósofo e youtuber - colunista da Folha e da Exame) e Matheus Hector (economista).

Repercussão
Nas redes sociais, o termo “detratores” é um dos mais utilizados, dada a repercussão do relatório. Muitos nomes listados no relatório, inclusive, se manifestaram sobre o assunto. 

Em sua página oficial no Instagram, a Federação Nacional dos Jornalistas disse que “muito embora o documento não recomende retaliações, merece atenção devido aos episódios de ataque do próprio Bolsonaro e outros membros do governo à imprensa e a influenciadores críticos”. 

A campanha Calar Jamais, do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação em Defesa da Liberdade de Expressão também se manifestou contra a divisão estabelecida no relatório. 

Defesa
O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse não ter "a menor ideia" de quem fez o relatório e adiantou que vai demitir quem encomendou o trabalho. "Sou um cara transparente, aberto. Nunca encomendaria algo para saber quem fala mal ou quem fala bem de mim."

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