Diplomacia

Após ataque de Bolsonaro, Pacheco defende 'relacionamento construtivo' a embaixador da China

A manifestação ocorre dois dias depois do presidente Bolsonaro sugerir que a Covid-19 faz parte de uma estratégia de guerra biológica do país asiático

Presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM-MG)Presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) - Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), defendeu o aprimoramento da parceria entre Brasil e China e reiterou "a importância do relacionamento mutuamente relevante e construtivo" entre os dois países, em uma mensagem enviada ao embaixador chinês Yang Wanming nesta sexta-feira (7).

A manifestação ocorre dois dias depois de o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sugerir que a Covid-19 faz parte de uma estratégia de guerra biológica do país asiático.

"Com o sentido de prioridade, entende o Senado Federal que, no momento em que o Brasil tem sido afetado de forma contundente pela proliferação de variantes do vírus, torna-se necessário, mais do que nunca, o aprimoramento da parceria de grande qualidade que tem caracterizado nossas relações bilaterais", escreveu Pacheco.

Em outro trecho da carta, ele afirma que o Senado tem o propósito de ampliar a colaboração bilateral brasileira em áreas como ciência, tecnologia, comércio, investimento e diz que esse esforço "requer diálogo ainda mais intenso e aprimoramento constante da coordenação política e diplomática".

Nesta quinta (6), Pequim afirmou que se opõe "a qualquer tentativa de politizar e estigmatizar o vírus".

A declaração foi dada pelo porta-voz do Ministério de Relações Exteriores chinês, Wang Wenbin, em resposta a uma pergunta de um repórter da agência de notícias AFP sobre a fala do presidente brasileiro.

"O vírus é o inimigo comum da humanidade. A tarefa mais urgente agora é que todos os países deem as mãos em uma cooperação contra a pandemia e lutem por uma vitória rápida e completa sobre a epidemia", respondeu ele durante sua entrevista coletiva semanal em Pequim.

Bolsonaro insinuou que a China teria se beneficiado economicamente da pandemia e afirmou que o novo coronavírus pode ter sido criado em laboratório –ecoando uma tese que não encontra respaldo em investigação da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre as possíveis origens do vírus.

"É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou por algum ser humano [que] ingeriu um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra?", disse o presidente em evento no Palácio do Planalto, em Brasília.

"Qual o país que mais cresceu seu PIB [Produto Interno Bruto]? Não vou dizer para vocês", afirmou. A China foi um dos países que registraram um dos maiores crescimento em 2020, mesmo durante a pandemia. O PIB do país asiático saltou 2,3% no ano passado.

Além do presidente, outras autoridades do governo do governo brasileiro já sugeriram que o vírus foi criado artificialmente pelos chineses. Em uma reunião, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que "o chinês inventou o vírus". Depois, ele pediu desculpas.

Em meio à crise diplomática, Guedes e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, tiveram nesta sexta-feira reunião virtual com Wanming, em Brasília.

Os ataques à China também estiveram no centro da pressão política que resultou na demissão do ex-chanceler Ernesto Araújo. A retórica anti-China do hoje ex-ministro foi apontada como um obstáculo para o Brasil conseguir a liberação de insumos de vacinas do país asiático, um dos principais fornecedores no mundo.

Carlos França, que substituiu Ernesto, tem tentado desfazer o mal-estar com os chineses, mas as recentes declarações de Bolsonaro e de Guedes têm potencial de renovar os atritos com Pequim.

Em audiência na Comissão de Relações Exteriores do Senado nesta quinta, França afirmou que não há problema político entre Brasil e o país asiático que possa atrapalhar a produção de vacinas contra a Covid-19.

Na carta desta sexta-feira, Pacheco convidou o embaixador chinês para visitar o Senado "quando favoráveis estiverem as circunstâncias".

O presidente do Senado reforçou a necessidade de se estabelecer um "diálogo ainda mais intenso e aprimoramento constante da coordenação política e diplomática" entre Brasil e China.

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