Áudios divulgados por Calero provocam mal estar

Conversa com auxiliar de Padilha deixa claro que governo tentou agir em favor de ex-ministro

Tribunal de Contas de PernambucoTribunal de Contas de Pernambuco - Foto: TCE-PE

Quatro áudios gravados pelo ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, revelados na última terça-feira (29) pela imprensa, despertaram mal-estar e deixaram no ar o temor de que algo mais grave possa vir à tona. Um deles, pode confirmar a denúncia de Calero de que foi pressionado pelo governo - e pelo presidente - para beneficiar o também ex-ministro Geddel Vieira Lima na liberação das obras do La Vue, prédio de luxo em Salvador.

Entre as quatro gravações, estão conversas de Calero com o próprio presidente, com o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e com o chefe de gabinete da Secretaria do Governo, Carlos Henrique Sobral. Todas elas, com exceção do diálogo com Temer, fazem alusão indireta ao episódio envolvendo Geddel.

Porém, a mais comprometedora, é a que se registrou com o secretário de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo Rocha. No diálogo, Rocha transmite a Calero um suposto recado do presidente Michel Temer para que ele entregue à Advocacia Geral da União (AGU) a decisão de liberar as obras do La Vue, onde Geddel tem um apartamento.

No aúdio, o auxiliar da Casa Civil diz que vai entrar com recurso no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que embargara as obras. Em seguida, o secretário reproduz conversa que teria dito com Temer antes de falar com Calero. As conversas gravadas foram enviadas ao Supremo Tribunal Federal (STF) pela Polícia Federal.
Segundo a gravação, Ro­cha diz ao ex-ministro da Cultura: “ É, e o que ele (Te­mer) me falou pra... pra falar era, “veja se ele encaminha, e num precisa fazer nada, encaminha pra AGU”. Falou isso comigo ontem, né? Aí eu falei “não, eu falo isso com ele”. E recebeu a seguinte resposta: “Bom... tá, eu vou... eu vou fazer uma reflexão aqui, Gustavo”, responde Calero.
Horas depois da conversa, Calero deixou o governo. Na nota que divulgou para tentar explicar a conversa, Gustavo Rocha acabou admitindo que recebeu um recurso de um advogado que queria anular a decisão do Iphan, que havia paralisado a obra do edifício La Vue, onde o ex-ministro Geddel Vieira Lima comprou um apartamento.
Temer
Na conversa com Temer não fica explícita a questão de Geddel, mas nela o presidente diz ter sido “inconveniente” com o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero ao insistir para que ele permanecesse no cargo. A transcrição da conversa entre Temer e Calero, que teria ocorrido no último dia 18, registra-se o seguinte diálogo. “Quero pedir mi­nha demissão e quero que o senhor aceite, por gentileza, porque eu não me vejo mais com condições e espaço de estar no governo”, disse Calero.

Na gravação, Temer retruca: “Se é sua decisão, tem que respeitar. Ontem, acho que até fui um pouco inconveniente, né? Insistindo muito para você... para você permanecer. Confesso que não vejo razão pra isso, mas você terá as suas razões.”
As conversas foram gravadas pelo próprio Calero e entregues à Polícia Federal. Temer reclamou publicamente sobre o fato de ter sido gravado. Em coletiva, usou as palavras "indigno" e "gravíssimo" para classificar o ato de registro de ligações. Na sua fala, não há menção direta ao caso do prédio embargado pelo Iphan.

 

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