Política

Auxiliares de Bolsonaro veem vitória de Biden como fim do alicerce da política externa do Brasil

As eleições americanas estão marcadas para 3 de novembro

Presidentes do Brasil e EUA (Bolsonaro e Trump, respectivamente)Presidentes do Brasil e EUA (Bolsonaro e Trump, respectivamente) - Foto: Jim Watson/AFP

Uma eventual vitória de Joe Biden nas eleições americanas de novembro se tornou o novo foco de preocupação do Palácio do Planalto, que vê numa possível vitória do candidato democrata à Casa Branca o fim do principal alicerce da atual política externa do Brasil e uma ameaça de isolamento internacional.

Na avaliação de auxiliares do presidente Jair Bolsonaro, que falaram à reportagem sob condição de anonimato, uma eleição de Biden submeteria o governo brasileiro a uma tensão inédita nas áreas de meio ambiente e de direitos humanos e tornaria insustentável a permanência de Ernesto Araújo no Itamaraty. A apreensão com o desfecho do pleito nos EUA é tão grande que assessores militares de Bolsonaro defendem que o mandatário reduza os elogios públicos ao presidente Donald Trump -conselho que o brasileiro tem ignorado até o momento.

A avaliação de que uma eventual derrota de Trump seria definidora para a política internacional de Bolsonaro é partilhada por especialistas consultados pela reportagem, que ressalvam, por outro lado, ao menos duas áreas da relação dos EUA com o Brasil em que pouco ou nada mudaria se Biden vencer a disputa: as pressões para conter a influência da China no país e a resistência à abertura do mercado americano para produtos agrícolas brasileiros.



As eleições americanas estão marcadas para 3 de novembro. Embora Biden apareça na liderança em pesquisas de opinião, analistas destacam que o jogo ainda está indefinido e que Trump tem tempo e condições para reverter o cenário. O consenso entre os interlocutores do governo ouvidos, porém, é que Ernesto comanda uma estratégia de afinidade ideológica com Trump que não contempla um plano B. Ou seja, a continuidade da linha implementada pelo chanceler desde janeiro de 2019 depende da reeleição do atual líder americano.

"Eles não consideram nenhuma possibilidade de vitória do Biden, segundo suas próprias declarações", diz Rubens Barbosa, embaixador do Brasil nos EUA entre 1999 e 2004. "[A eventual eleição do democrata] vai acarretar um maior isolamento do Brasil, porque não haverá mais o guarda-chuva americano."

Para Roberto Abdenur, também ex-embaixador do Brasil em Washington (2004-2007), Bolsonaro tomou, "dentro do erro estratégico de alinhamento quase automático com os EUA", uma segunda decisão que torna o panorama mais grave: uma irmanação com o republicano, chegando a dizer "Trump é meu irmão". "A situação das relações do Brasil com os EUA governados por Biden se complicaria ainda mais se o governo Bolsonaro continuar com uma vinculação ativa com a extrema direita americana, porque ela é inimiga do ideário dos democratas", acrescenta Abdenur.

Barbosa prevê como primeira consequência de uma possível vitória do ex-vice-presidente durante as gestões de Barack Obama o fim do que o Planalto alega ser uma relação pessoal e de amizade com o atual líder americano, o principal esteio da política externa do Itamaraty sob Ernesto. No entanto, ele pontua que as burocracias tanto do Departamento de Estado quanto do Itamaraty tendem a trabalhar internamente para fazer avançar suas respectivas agendas, qualquer que seja o resultado do pleito nos EUA.

Também destaca que Biden deve voltar a valorizar a ONU (Organização das Nações Unidas) e que, caso eleitos, os democratas sinalizam a adoção de uma linha parecida à da Europa no campo ambiental: pressão para que empresas considerem padrões de preservação ao decidir onde alocar investimentos. Os dois flancos têm potencial para trazer problemas para o Brasil de Bolsonaro. Ernesto é um crítico do sistema multilateral, e o país já enfrenta -mesmo sem a oposição do governo Trump- fortes pressões internacionais devido ao avanço dos índices de desmatamento na Amazônia.

Abdenur avalia que o Planalto só teria condições de estabelecer um diálogo menos traumático com um governo americano controlado pelos democratas caso ocorra uma guinada na atual política externa. "E isso não será possível enquanto Ernesto e Ricardo Salles [no Meio Ambiente] forem ministros, porque eles se comprometeram com posturas radicais", afirma. "Mesmo assim acho que o dano é irreversível. É improvável, praticamente impossível, que Bolsonaro proceda mudanças nas políticas ambiental e exterior suficientes para viabilizar uma relação construtiva e tranquila com um governo Biden."

O presidente tem sido pressionado por militares e integrantes da ala pragmática do governo a demitir Salles e Ernesto. O núcleo fardado gostaria de vê-los fora da Esplanada o quanto antes, mas interlocutores no Planalto ouvidos pontuam que a saída do chanceler antes das eleições americanas é algo delicado. A identificação com o trumpismo foi tão forte, dizem, que uma mudança por um perfil mais moderado pode ser interpretada pela Casa Branca de Trump como reavaliação da estratégia de alinhamento automático.

Se uma gestão Biden teria condições de colocar o Brasil sob forte estresse nas áreas de meio ambiente e de direitos humanos -ao ponto de alguns compararem o cenário à eleição do democrata Jimmy Carter em 1976 e a pressão exercida à época sobre o regime militar no Brasil-, há campos em que analistas esperam poucas mudanças. A disputa geopolítica entre EUA e China é o principal deles.

Hussein Kalout, ex-secretário de Assuntos Estratégicos no governo Michel Temer, opina que Biden dará seguimento aos esforços para conter o aumento da influência da China. Trata-se de um objetivo de longo prazo do establishment americano e que não depende de colorações partidárias, afirma o ex-secretário. No Brasil, o principal objetivo americano no momento é impedir que a empresa chinesa Huawei venda equipamentos para as redes de 5G.

Na visão de Kalout, caso Biden chegue à Casa Branca, o novo presidente terá menos paciência com as posturas radicais de Bolsonaro, o que pode deixar o Brasil em situação de desvantagem em negociações estratégicas, entre elas as que envolvem o próprio 5G. "O custo para não ser tratado como um pária pela maior potencial mundial vai ser considerável, porque Biden poderá exigir diversas concessões do Brasil".

O outro ponto que teria poucas mudanças são as barreiras para a abertura do mercado agrícola americano a produtos brasileiros, algo que transcende administrações republicanas ou democratas. "Os americanos são muito pragmáticos. A tendência é Biden ser ainda mais protecionista", avalia a consultora Vera Galante, que trabalhou por 19 anos como assessora cultural na embaixada dos EUA em Brasília.

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