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Alex Ribeiro
Alex RibeiroFoto: Divulgação Facebook

Por Alex Ribeiro, doutorando em História Política pela Universidade Federal da Bahia, cientista político pela UFPE, e jornalista.

O bolsonarismo tem como um dos seus maiores representantes o ex-juiz e agora superministro da Justiça, Sérgio Moro. O seu nome em prol do combate à corrupção era até maior que o do presidente Jair Bolsonaro. Era. Pois agora ele surge como um dos maiores responsáveis pela seletividade do Poder Judiciário, ao lado dos membros do Ministério Público Federal de Curitiba.

Uma das questões que servem de critica a Moro não é apenas pelos moldes da Operação Lava Jato revelados pelo vazamento do Intercept e reproduzido por outros jornais e portais de notícia, como Folha de São Paulo, Revista Veja, Portal Uol e o El País. A chamada “Vaza Jato” é o maior dos entraves, mas existe um grande calo no pé do magistrado. O “calo” atende pelo nome de Fabrício Queiroz.

Queiroz é acusado de ter envolvimento com a família Bolsonaro. Seja com a esposa do presidente, Michele Bolsonaro – no qual diz ter pago dez cheques na devolução de um suposto empréstimo- e também com o senador Flávio Bolsonaro, no qual atuou como assessor e motorista. A Coaf apontou movimentações financeiras de R$ 1,2 milhão feita por Queiroz quando trabalhava ao lado do filho do presidente Bolsonaro.

Queiroz estava “sumido” desde janeiro. Seu último paradeiro divulgado pela imprensa foi no Hospital Albert Einstein. Agora no fim de agosto, depois de quase oito meses, a Revista Veja conseguiu localizá-lo. Ele está morando no Morumbi, em São Paulo, perto do mesmo hospital, para cuidar de um câncer de colón. Vale lembrar que o Alberto Einstein é uma das instituições de saúde mais prestigiadas do país, e para ter acesso aos seus serviços é preciso ter uma renda considerável, algo suspeito para um simples ex-motorista de um parlamentar.

Moro não comenta sobre o caso. Disfarça, desconversa, muda de assunto ao ser entrevistado. Elabora respostas vazias dizendo que “a Polícia Federal atua nas investigações”. É preciso analisar e compreender o modus operandi da Justiça pela atuação de Moro. Ao ser alçado como uma das maiores figuras do governo a sua atuação se torna mais política do que jurídica. Esse é o principal ponto. Suas movimentações também são ideológicas e seguem totalmente aparelhadas com os discursos de Bolsonaro. Porém, para eles, os “ideológicos” são os outros, ou seja, a esquerda e seus aliados.

Moro atua juridicamente por exclusão, e não inclusão. Colocado como um ser imponente diante da classe política na Operação Lava Jato agora se submete aos caprichos do presidente. Desde o caso do confesso caixa 2 pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, na qual o próprio Moro manteve impune - onde é chamado de “meu amigo” nas redes sociais -, até nos casos de interferência de Bolsonaro na gestão de órgãos como a PF, Receita e a Coaf, teoricamente subordinados ao próprio ministro da Justiça.

A polarização da sociedade brasileira reflete na atuação de Moro. Ao não mostrar resultados, ou no mínimo interesse pelas investigações do caso Queiroz e do assassinato da ex-vereadora Marielle Franco, o ex-juiz iguala os episódios com sua indiferença. Ele, Moro, é o próprio reflexo dos protestos da extrema direita no país – caraterizados por pessoas de maioria branca e que possuem renda média ou alta. No qual bravejam sobre o projeto de lei de abuso de autoridade, mas silencia sobre causas progressistas como os incêndios criminosos ocorridos na Amazônia.

A indiferença de Moro alimenta um modelo de democracia exclusiva feita pelo bolsonarismo. A atuação jurídica do ministro se torna política porque ele não atua por e para todos. Levantando a ideia de que a democracia precisa ser reduzida para poucos para assim funcionar. Parafraseando o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo Christian Ingo Lenz Ducker: “a democracia se torna ambivalente, com perde de privilégios para alguns e conquista de direito para outros”.

Alex Ribeiro
Alex RibeiroFoto: Divulgação Facebook

Por Alex Ribeiro, doutorando em História Política pela Universidade Federal da Bahia,
cientista político pela UFPE, e jornalista.


O debate anti-pt tomou conta das discussões políticas. A criminalização da considerada esquerda e até a ascensão de figuras ligadas a extrema direita, como a eleição do presidente Jair Bolsonaro, são jogadas no colo do Partido dos Trabalhadores.

No entanto, é preciso ir além do senso comum e analisar a origem desse discurso. Como e onde as pessoas formaram opinião no atual cenário nacional? Quais são as redes de relações que foram reproduzidas e absolvidas por boa parte da população? Entre esses mecanismos podemos citar o crescimento dos evangélicos na política; a Operação Lava Jato; o papel dos militares; e a atuação das mídias sociais desde as manifestações de 2013 até as eleições de 2018.

O primeiro ponto é sobre a Bancada Evangélica que ganha cada vez mais protagonismo
no cenário político. Além de estar à frente de algumas Casas Legislativas e prefeituras espalhadas pelo país, o grupo conseguiu eleger 91 congressistas na eleição de 2018, 16 a mais que o pleito anterior, em 2014. O levantamento foi feito pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) com base nos dados disponíveis no portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Atores políticos evangélicos estão sempre presentes nas comunidades. Sem uma política
inclusiva estatal abrangente, os parlamentares deste segmento ingressam nesses locais
tentando resolver os problemas infra estruturais e sociais. Além disso, os eleitores deste
grupo são movidos pela motivação bíblica pregada, sobretudo, nos cultos e até “o medo
de desagradar a Deus” por não escolher um representante religioso. E a preferência dos
evangélicos por Bolsonaro ganhou força nesses espaços. Lideranças religiosas apontaram o atual presidente como um aliado de Deus, da preservação da família que
estava ameaçada por conta do “perigo do comunismo”.

O segundo ponto são os vazamentos de diálogos revelados pelo Intercept, a chamada
Vaza Jato, comprovando que a Operação Lava Jato tinha como principal alvo o PT. O
grupo foi responsável por mobilizar organizações como o Vem Pra Rua até contra o
Supremo Tribunal Federal. O VPR abrigou discursos de extrema direita. Os dois, Vem
Pra Rua e Lava Jato se tornaram aliados. E o principal líder desses magistrados, o então
juiz Sérgio Moro, virou ministro de Jair Bolsonaro. A soma e o resultado são simples de
entender.

O método da Lava Jato foi um dos principais fatores para o atual presidente ganhar mais
força e chegar ao Palácio do Planalto. A Vaza Jato mostra que a não apreensão do celular do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ator político responsável pela abertura do processo do impeachment de Dilma Rousseff (PT); os vazamentos seletivos do ex-ministro Antonio Palocci contra o PT, principalmente durante a eleição de 2018; o veto a entrevista do ex-presidente Lula, que se encontra preso em Curitiba, durante o mesmo pleito; e até da divulgação ilegal de conversa entre o próprio Lula e Dilma foram instrumentos imprescindíveis para a derrocada do Partido dos Trabalhadores e, por consequência, do sentimento de criminalização da esquerda.

Vale lembrar que a Vaza Jato não deve ser remetida apenas ao Intercept. Este possuí parceria com outros veículos como a Revista Veja, o El País, a Folha de São Paulo e o Portal UOL, o que enfraquecesse a narrativa de mensagens adulteradas dos diálogos no aplicativo Telegram entre os representantes da Lava Jato. Só se apostar que quase toda a imprensa atua a favor da corrupção, o que não é difícil diante da aversão duvidosa e sem critério aos meios de comunicação.

O terceiro ponto é a volta dos militares a cena política. Nos últimos anos este grupo saiu
dos quartéis para expor suas opiniões contra governantes como os ex-presidentes Michel Temer (PMDB), Dilma e Lula. A possibilidade de soltura moveu membros das Forças Armadas. Pelo discurso da ordem até contra os “comunistas”, este grupo esteve em evidência e com um certo apelo público. Tanto é que em alguns protestos ocorridos após as manifestações de 2013 o grito pelo retorno dos militares estava presente, mesmo que quase silenciosamente.

O maior exemplo ocorreu na greve dos caminhoneiros em 2018 quando não existia mais
o receio de levantar faixas em prol dos militares no poder. Isso refletiu na eleição do mesmo ano. Pessoas que se declaravam membros das Forças Armadas, sendo da ativa, reserva ou reformados, mais que dobraram sua participação no Congressos. O número em 2014 era de 10 membros, em 2018 chegou a 22. Sem contar, a presença deste grupo em outras Casas Legislativas do país. O apreço de parte da população fica evidente quando 45% dizem “confiar muito” nos militares, segundo pesquisa do instituto Datafolha, divulgada em abril de 2019.

O último ponto é sobre as redes sociais. Nestes espaços os ataques à esquerda são ainda
maiores. Apostando em notícias dúbias, duvidosas e teorias de conspiração sem sentido,
os argumentos são sempre de associar a corrupção a “esquerda”, colocando no mesmo
conjunto petistas, “socialistas” e “comunistas”. O argumento de “expulsar os vermelhos
do país” feito por Bolsonaro não foi à toa durante a campanha de 2018. Ainda neste mês
de agosto o presidente discursou afirmando que vai “varrer os comunistas do Brasil”.

Essa associação proposital vai ao ataque também de personagens que sequer são citados em investigações. Serve para qualquer um que for considerado de esquerda, seja Jean Wyllys, o deputado David Miranda, casado com o editor do Intercept Gleen Greenwald, e até a Marielle Franco, morta provavelmente por milicianos e repudiada por qualquer grupo e pessoas de extrema direita.

A guerra nas redes se tornou ódio de classes atingindo até professores que tecem críticas
ao governo. Essa prática de linchamento virtual ganhou força ainda em 2012 quando Jair Bolsonaro espalhou vídeos acusando falsamente professores considerados de esquerda de distribuir “kit gays” nas escolas para converter as crianças a homossexualidade. Com isso, o atual presidente descobriu o caminho para conseguir ter mais popularidade. As mídias são a causa do seu sucesso pelas suas declarações polêmicas, e que devem continuar por todo o seu mandato.

Essas reproduções do presidente Bolsonaro nas redes foram ajudadas por algoritmo do
Youtube. Segundo o jornal norte-americano New York Times, esta ferramenta foi a responsável pela disseminação da ideologia da extrema-direita no Brasil o que levou a
eleição do social-liberal. Nela surgiram grupos, como o Movimento Brasil Livre (MBL), que tinham como um dos seus objetivos deturpar fatos e de condenar pessoas e grupos ligados a esquerda.

As atitudes de Bolsonaro foram levadas aos meios televisivos ainda quando era deputado federal. Programas de caráter humorístico podem até ter tido a intenção de
trazer à tona um personagem jocoso, mas o atual presidente se tornou a saída para a moralização da política e o fortalecimento do discurso a favor da valorização dos costumes e do conservadorismo.

Esses exemplos podem ser considerados dispositivos que se configuram como consideráveis centros de produção de sentido. É aqui que as representações sociais de aversão a esquerda marcam o pensamento social e atingem boa parte da população. É só ligar os pontos: grupos da Lava Jato são ligados a grupos de direita, que vão as ruas desde 2013 e tiveram como principal alvo a presidente Dilma. E com a saída da petista, outros grupos ganharam protagonismo contra a corrupção como os militares e
evangélicos.

Foi a tempestade perfeita que ajudou no crescimento da extrema direita, na qual a
atuação do PT pode ter ajudado – com o petrolão, mensalão, e a política econômica
frágil -, mas diante da ordem do discurso não pode ser considerada protagonista, e
muito menos a vítima de todo o processo de construção que levou a extrema direita ao
poder.

Em todo caso associar o PT ao autoritarismo é negar que esses mecanismos citados não
ajudaram a eleger Bolsonaro. É como se os discursos políticos realizados pelo Partido dos Trabalhadores também não fizessem parte de outras legendas no decorrer da história da redemocratização do país. É como se outras siglas não tivessem personagens
investigados em casos de corrupção, como se tivesse num segundo grau de importância.

A responsabilidade do extremismo da direita é de diversos grupos sociais que utilizaram
estratégias para se tornarem os protagonistas na cena política. E agora a máquina de
ódio é a reprodução do poder do Brasil.

Hely Ferreira, professor e cientista político
Hely Ferreira, professor e cientista políticoFoto: Kleyvson Santos / Folha de Pernambuco

Hely Ferreira, cientista político.

Os fatos ocorridos na esfera do Governo Federal tornou-se algo desafiador aos que tentam entender (se é que é possível) a turbulência permanente, onde grande parte é causada pelo próprio líder. Embora ele afirme que à responsabilidade é da imprensa. Certo está Kierkegaard, ao afirmar que a maior fraqueza do homem é atribuir sua responsabilidade ao outro.

Com efeito, não precisa fazer esforço para perceber que a estratégia do atual governo é polemizar com o intuito de esconder a falta do projeto para governar o país. Segundo os relatos da imprensa, o governo substituiu as vagas que eram compostas por um médico e um jurista no Conselho Nacional de Política sobre Drogas (CONAD). Liberou a utilização de 262 agrotóxicos, onde 32% deles são proibidos na União Europeia. Disse que o relatório da Comissão Nacional da Verdade é uma balela.

Também afirmou que no Brasil, ninguém passa fome. Na verdade, como tudo é criação da imprensa “marronzista”, como diria Odorico Paraguaçu, nenhuma das afirmações são verdadeiras, ou seja: ele nunca disse. Portanto, é tudo mentira.

Nos últimos vinte anos, nunca se teve uma agenda tão democrática como a atual. É visível o respeito e a prioridade aos Direitos Humanos, a valorização e o respeito à ciência. Possui verdadeira aversão ao nepotismo e não tem medido esforços para nomear exclusivamente pelo critério da meritocracia e jamais por questões de cunho ideológico.

Nunca se viu na história de Pindorama uma agenda governamental tão voltada em defender os direitos dos ameríndios e a preservação de suas terras como no atual governo. O leitor sabe claramente que é tudo verdade.

Alex Ribeiro
Alex RibeiroFoto: Divulgação Facebook

Por Alex Ribeiro, doutorando em História Política pela Universidade Federal da Bahia, cientista político pela UFPE, e jornalista.

Aos 98 anos, Elzita Santa Cruz foi aplaudida de pé durante a sessão da Comissão Estadual de Memória e Verdade Dom Helder Câmara (CEMVDHC) realizada em agosto de 2012, no Recife.

O encontro era para discutir o caso do desaparecimento dos estudantes Fernando Santa Cruz, filho de Elzita, e Eduardo Collier, que foram militantes da Ação Popular (AP), organização de resistência armada ao regime militar. A ditadura, apreciada pelo presidente Jair Bolsonaro, ocorreu no Brasil entre os anos de 1964 e 1985.

O pernambucano Fernando Santa Cruz desapareceu no dia 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, um sábado de carnaval. Segundo o livro Direito à Memória e à Verdade, lançado pelo Governo Federal em 2007, ele foi preso, torturado e assassinado pelos membros da ditadura aos 25 anos recém-completados, deixando um filho de um ano e oito meses, o atual presidente da Ordem de Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz.

O ativista político tinha endereço e emprego fixo e, ao contrário de uma das versões da época, ele não atuava na clandestinidade. O Estado brasileiro não reconheceu a sua prisão no período e o caso nunca chegou a ser concluído. Elzita Santa Cruz acabou falecendo em 2019, aos 105  anos. Sua procura incessante sobre o filho rendeu o livro “Onde Está Meu Filho?”, lançado em 2011.

Diante das investigações que perduraram por quatro anos, a Comissão da verdade revelou, fortalecido pelo depoimento do ex-delegado Cláudio Guerra, que o corpo de Fernando foi incinerado na Usina Cambahyba, em Campo dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.

Para Jair Bolsonaro, a própria Ação Popular foi culpada pelo desaparecimento do filho de Elzita. Segundo ele, a esquerda executava aqueles que não tinham mais sua confiança. O presidente afirmou que colheu essas informações com militares da época. Detalhe: ele só tinha 18 anos quando Fernando Santa Cruz desapareceu.

Em contraponto as declarações de Bolsonaro, um relatório da Marinha de 1993 foi entregue ao então ministro da Justiça Maurício Corrêa confirmando que Fernando Santa Cruz estava sob custódia do Estado até o seu desaparecimento. Em outro documento, o relatório secreto RPB 655, do comando Costeiro da Aeronáutica, atesta que o estudante foi preso pelo regime militar em fevereiro de 1974.

Ou seja, Bolsonaro cria versões, narrativas, para defender o regime militar que sempre
exaltou. Para ele, a esquerda é tão culpada quanto os militares pelos assassinatos e
desaparecimentos que ocorreram no período. Usando o velho discurso de “terroristas contra o Brasil”, o presidente “esquece” que o Estado é que agia como terrorista ao censurar, prender, torturar e matar seus opositores, qualquer um que o seja, sendo comunista ou de qualquer tipo de movimento contra a ditadura.

Bolsonaro também ataca a credibilidade da Comissão da Verdade, atrelando a sua existência a ex- presidente Dilma Rousseff, uma das pessoas presas no período ditatorial. Sua tática agora é substituir membros da Comissão Especial sobre Mortes e Desaparecidos Políticos pelo Governo Federal. O colegiado que foi criado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1995, agora conta até com apreciadores do Coronel Alberto Brilhante Ustra, um dos principais responsáveis pela tortura e morte de opositores ao regime militar.

O método adotado por Bolsonaro, sendo proposital ou não, provoca e ataca seus opositores com provocações, atrelando a estes o “lado errado da história”. Palavras como terroristas, inimigos da nação e subversivos são utilizadas aos seus críticos. Os admirados do presidente compartilham sua opinião e acaba fortalecendo seu discurso. Para Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de “Como as democracias morrem”, essas afirmações polarizam a sociedade e criam um clima de desconfiança mútua.

Apesar das várias versões inventadas, a ciência escancara quem as tenta corromper. E
relativizar a ditadura, feito por alguns analistas e apreciadores do presidente, só confirma que o conhecimento histórico esclarece os erros da memória, principalmente diante daqueles que a querem deturpar.

Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre e tradutor.
Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre e tradutor.Foto: Divulgação

A democracia brasileira, flor frágil e largada aos ventos, flerta com o abismo. E no nosso abismo moram os regimes autoritários, com os quais já perdemos preciosos anos da nossa história.

A democracia, mas uma vez é preciso dizer isso, não se resume a eleições. Houve entre nós ditaduras com eleições, manietadas e limitadas é certo, e nem por isso podem receber outro nome, pois uma democracia exige outros elementos.

Um deles é a imprensa. E não, como querem alguns, uma imprensa que apenas divulgue fatos e acontecimentos, mas imprensa investigativa sobre os atos dos ocupantes dos diversos postos do Estado. Vejam só, com este tipo de imprensa nós no Brasil não estamos ainda acostumados, e os ocupantes que ora estão no poder recusam o que consideram ser intromissão em seus atos públicos por parte de uma certa imprensa mais ativa. A nossa democracia é imperfeita e por isso caminha na fina lâmina que nos separa do abismo.

Para demonstrar essa imperfeição, basta verificar que, entre nós, a seguinte pergunta procede: o que pretende um órgão de imprensa, como o Intercept, ao divulgar atos impróprios do então juiz que hoje se senta na cadeira de ministro da justiça? E ela não se origina apenas nas bocas do ministro e do presidente da República, mas ecoa em muitos órgãos de imprensa, que acusam o Intercept de divulgar mensagens ilegais obtidas de forma criminosa. Em países com democracias estáveis, não caberia esse tipo de argumento, pois nelas o papel da imprensa investigativa não é apenas indiscutível, mas é também essencial. Não é o nosso caso, entre nós ainda há vozes poderosas que contra ela se insurgem.

Voz do Presidente, que falou em “cana” para Glenn Greenwald, o diretor do Intercept; voz do próprio ministro da justiça, que não para de acusar o crime das mensagens divulgadas pelo Intercept. E aí está outro elemento que compõe as democracias modernas: a separação dos poderes. O executivo não se mete na justiça, a justiça não se mete na política. Não parece ser o nosso caso.

Em uma democracia acabada, um presidente da República não poderia estar dizendo nem a metade do que diz todos os dias, contrariando dados científicos do INPE, do IBGE, abrindo fogo contra a Academia, contra artistas, contra o cinema brasileiro, contra a comunidade LGBT, contra o NE do país, e querendo debelar de vez o que considera ser a erva daninha da esquerda, que chama de comunista.

Nesta segunda-feira, 29 de julho, ele acaba de lançar petardos contra a OAB, que defendia o advogado de Adélio Bispo contra intromissões do Estado – em uma democracia, as comunicações de um advogado são invioláveis, está aí outro elemento das democracias; e se há espaço para o Presidente se imiscuir nesse tipo de assunto, sem que a totalidade da imprensa e dos políticos condene, é porque ainda não chegamos ao patamar de uma democracia em pleno funcionamento.

Mais grave do que isso, o Presidente nessa coletiva falou em nome dos porões da ditadura, que desapareceram o pai do presidente da OAB.

Uma democracia é construída sobre o fundamento da pluralidade das vozes, mas parece que o Presidente e outros componentes de seu governo querem que apenas uma voz e uma verdade sejam ouvidas.

Ou será que todas essas declarações antirrepublicanas são apenas bombas que ele lança à democracia brasileira para sentir os espaços que esta dá, enquanto planeja atos mais nefastos? Da resposta a essa pergunta e da reação da democracia em não se lançar em abismos depende o nosso futuro.

Jorge Waquim
Filósofo por Paris Nanterre e Tradutor.
@jwaq

O poeta recifense Manuel Bandeira é considerado parte da geração do modernismo brasileiro de 1922
O poeta recifense Manuel Bandeira é considerado parte da geração do modernismo brasileiro de 1922Foto: Divulgação/ Facebook

Por Hely Ferreira, Cientista Político

O critério adotado para se exercer qualquer cargo, seja na esfera pública ou privada, deve ser a meritocracia. Mas infelizmente, principalmente no âmbito público nacional, o critério no Brasil, na maioria das vezes tem sido o QI, ou seja: quem indica. Atrelado à indicação, via de regra, passam pelo crivo da boa vizinhança, onde a capacidade (com exceções) passa bem distante.

Quando se elege alguém para exercer algum cargo público, o eleitor deve ter em mente que o elegeu com o intuito de ser diferente do anterior e não para comparar. Entretanto, é quase que impossível fugir das comparações. Como o atual chefe do Poder Executivo Federal é fascinado por comparações com governos anteriores, costuma dizer que em seu governo não existe práticas da velha política.

Recentemente, foi nomeado para o Tribunal Superior Eleitoral o jurisconsulto Carlos Velloso Filho. O mesmo foi o terceiro colocado da lista tríplice encaminhada ao governo. Coincidentemente, o seu genitor emitiu opinião através dos meios de comunicação, em defesa da Operação Lava Jato e também da conduta impávida do atual ministro da justiça.

Para não fugir da velha coincidência, no dia da votação em primeiro turno na Câmara Federal da Reforma da Previdência, o governo liberou verbas que já estavam previstas no orçamento. Ainda no campo da coincidência, na cessão de votação dos destaques da já referida reforma, enquanto os parlamentares varavam a madrugada, coincidentemente saiu uma edição extra do Diário Oficial da União, com mais verbas liberadas. Tudo mera coincidência.

Prefiro ficar com o poeta Manoel Bandeira, “Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do Rei”.

Presidente Jair Bolsonaro
Presidente Jair BolsonaroFoto: Mauro Pimentel / AFP

Por David Vilela, Mestre em Ciência Política e Assistente Consular

No final do mês passado, o Governo Bolsonaro completou seus primeiros seis meses de governo. Apesar de uma oposição inoperante e desarticulada foi um período bastante conturbado e com várias polêmicas. Quem não se lembra da pergunta: O que é um Golden Shower? Ou mesmo das trapalhadas do ex-Ministro Ricardo Velez num dos mais importantes ministérios que é o da Educação?

Podemos constatar que talvez nem o próprio Bolsonaro tivesse a exata idéia do quanto é complexo governar uma máquina executiva de um país como o Brasil. De fato muitas de suas promessas de campanha já vêm sendo cumpridas, como a nomeação de cargos de primeiro e segundo escalão sem o domínio da velha política do “toma lá da cá” tão usada nos governos anteriores. A nomeação do juiz Sergio Moro para o ministério da Justiça e Segurança Pública é um bom exemplo disso.

Porém, a própria falta de uma estratégia bem definida do Governo Bolsonaro fez com que uma parte da opinião pública e a própria oposição pudessem fazer duras críticas ao governo, tendo sua popularidade questionada. Nem mesmo o tão aclamado juiz Sergio Moro escapou, com as duvidosas denúncias através do site INTERCEPT.

Alguns especialistas dizem que é muito cedo para fazer qualquer análise do quanto o governo tem conseguido fazer pelo país, afinal, são apenas seis meses. Contudo, cabe a pergunta: Será que o governo poderia ter feito mais, caso não tivesse ele próprio criado seus monstros- polêmica? E a resposta é sim.

É inegável que o Governo Bolsonaro precisa criar para si uma agenda positiva, com programas e projetos nas mais diversas áreas que façam o Brasil avançar criando na opinião pública um confiança mais palpável. No meio de tantas polêmicas faltam ações em muitos setores essências para a população, não há qualquer grande ação divulgada pelo Governo na área da saúde, por exemplo.

De fato, algumas ações recentes puderam finalmente mostrar um Governo que avança em algumas áreas como o acordo entre o Mercosul e a União Européia, que estava estagnado já havia 20 anos. Não podemos deixar de considerar que o Governo Bolsonaro conseguiu o que nenhum dos governos anteriores tinha conseguido: Aprovar pelo menos até aqui em primeiro turno na Câmara a tão necessária reforma da previdência. Essa reforma aprovada na Camara não é a ideal, mas é consenso que algo precisava ser feito para não afundarmos num sistema previdenciário insustentável.

Vale salientar que estes eventos recentes criaram uma certa agenda positiva para o Governo, mas, apesar disso, ainda está longe de ter uma estratégia definida de medidas que possam causar um grande impacto nos diversos setores sociais e econômicos. A reforma da previdência e o acordo com a união européia tem esse potencial, mas apenas a longo prazo.

O Governo precisa entender que para atingir a tal mudança almejada mais ações precisam ser feitas sem polêmicas criadas pelo próprio governo, que apenas criam uma turva e resistente cortina de fumaça. O ministro Paulo Guedes e sua super equipe econômica ainda podem fazer o país decolar bem como o Ministro Sérgio Moro tem uma equipe de técnicos capacitados que podem e devem desenvolver políticas de segurança pública eficientes e de resultados a curto prazo.

Mas enquanto isso não acontece, parafraseando o recém demitido ex-ministro Santa Cruz vamos nos “divertindo com show de besteiras” que o Governo proporciona com suas medidas aparentemente impensadas. A mais recente delas é a possível nomeação do filho do presidente Bolsonaro para a Embaixada Americana em Washington, mas isso é assunto para um outro artigo.

Hely Ferreira, professor e cientista político
Hely Ferreira, professor e cientista políticoFoto: Kleyvson Santos / Folha de Pernambuco

Em tempos idos, ser cantor no Brasil tinha como pré-requisito o timbre de voz possante. Foi assim que surgiram cantores como Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e tantos outros. Com o advento da Bossa Nova, surge uma nova batida no violão e uma maneira inovadora de cantar. É assim que nasce o principal e primeiro cantor do maior movimento da Música Popular Brasileira. O inconfundível João Gilberto.

A voz aveludada era seu principal diferencial. Não sendo por acaso que Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e até Roberto Carlos iniciaram a carreira tendo o bom baiano como sua principal fonte de inspiração.

Muitos acreditam que João Gilberto esteve em Recife pela primeira vez para divulgar a canção Chega de Saudade. Vale salientar, que quando ainda era vocalista de um grupo musical, visitou a Veneza brasileira. Depois de anos fechado, em 2000, o teatro Santa Isabel ao reabrir suas portas comemorou o ocorrido com dois shows de João Gilberto, do qual tive o privilégio de comparecer no segundo dia e presenciar sua memorável apresentação.

Certa vez, o cantor Moraes Moreira afirmou que a composição feita em parceria com Pepeu Gomes cujo título é Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, é fruto de uma conversa entre ele e João Gilberto. Na oportunidade, estavam em Salvador quando de repente descia uma das ladeiras da capital baiana, uma mulata com uma lata d’água na cabeça. Foi aí que João Gilberto olhou para Moraes Moreira e disse o seguinte: “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”.

O seu falecimento deixa os amantes da boa música brasileira, órfãos. O um minuto de silêncio em sua homenagem na partida final da Copa América, era o mínimo que deveria ser feito, vez que, os falsos cantores que encerraram o evento esportivo, passam bem distante da qualidade do João Gilberto. Não é por acaso que se diz que, a verdadeira música brasileira encontra-se dividida em duas fases: antes de João Gilberto e depois de João Gilberto.

Hely Ferreira é cientista político.

Luciano Siqueira
Luciano SiqueiraFoto: Reprodução/Facebook

Por Luciano Siqueira

Num regime democrático, mesmo como o nosso — defeituoso, imaturo e instável —, o poder da maioria é exercido.

Não há como escapar.

A composição atual do Congresso — Câmara e Senado — é majoritariamente de centro-direita, em sintonia com a agenda ultraliberal que, de modo atabalhoado e incompetente, o governo Bolsonaro tenta viabilizar.

A proposta de reforma da Previdência, que possivelmente entrará em regime de votação no plenário da Câmara dos Deputados a partir de hoje, tem na sua essência o conflito de interesses entre o sistema financeiro versus trabalhadores ativos e aposentados.

Assim, por mais atuante e competente que venha sendo a oposição, que numericamente não chega a 2/5 dos parlamentares, não será fácil barrar a reforma agora.

O máximo que se conseguiu foi extirpar da proposta original alguns elementos de extrema crueldade, como a pretendida extinção do benefício de prestação continuada e da aposentadoria do trabalhador rural.

Para tanto, foi necessário contar com a adesão de parcela expressiva dos parlamentares situados ao centro.

Como vivemos numa fase da vida nacional marcada pela instabilidade e pela insegurança política, não se pode afirmar de antemão que o governo consiga aprovar a sua proposta com tranquilidade.

A oposição usará de todos os artifícios regimentais, além do debate de conteúdo e da abordagem respeitosa dos que ainda possam ser sensibilizados; e os movimentos sociais organizados farão a sua parte, na medida do possível.

Entretanto, mesmo aos trancos e barrancos, a principal tendência neste instante é que a reforma comece a ser aprovada, inicialmente na Câmara e posteriormente no Senado.

Mas um dado de ordem subjetiva pode ainda pesar na hora do voto, que é a consciência entre os parlamentares do ônus pesado com que terão que arcar mutilando a Previdência social pública. Será dura a cobrança nos embates eleitorais futuros.

Segundo registram os jornais, dos 25 deputados que formam a bancada de Pernambuco mais da metade parece comprometida com a proposta do governo. O que é lamentável e não corresponde à tradição de luta libertária do povo pernambucano.

Oportuno lembrar que no pleito de outubro passado pagaram muito caro alguns daqueles que, após o golpe do impeachment, foram com muita sede ao pote e se abraçaram com Michel Temer. O julgamento dos eleitores foi implacável.

Que cada um possa fazer a sua parte agora, nem que seja através das redes sociais.

Cientista político Alex Ribeiro
Cientista político Alex RibeiroFoto: Pedro Farias

Por Alex Ribeiro, doutorando em História Política pela Universidade Federal da Bahia (UFBA),cientista político pela UFPE, educador e jornalista

A tensão eterna que vive o governo Jair Bolsonaro vai desde a relação delicada com o Congresso até as declarações ofensivas contra os seus opositores como os partidos de esquerda, movimentos sociais e agora professores e membros da comunidade acadêmica. Somados a isso, a popularidade do presidente cai a cada pesquisa divulgada. Esses fatores levantam debates sobre um possível impeachment do majoritário. No entanto, essa medida pode fragilizar ainda mais a jovem democracia do Brasil.

Como Dilma Rousseff (PT) sofreu impeachment no ano de 2016, um novo processo de retirada de um presidente, no caso de Bolsonaro, ocorreria em um intervalo de menos de dez anos. Nesse caso a estabilidade democrática poderia sofrer algumas consequências: primeiro – o eleitor acreditaria menos no poder do voto; segundo - o cidadão brasileiro contestaria cada vez mais a legitimidade das instituições; terceiro - a aversão a participação política possivelmente aumentaria.

Com um novo impeachment, o Legislativo poderia se sobrepor ao Executivo e isso seria péssimo para a democracia de presidencialismo de coalizão. Mesmo com crítica da opiniãopública, o Congresso atua normalmente sem se preocupar com os impactos imediatos na sobrevivência do governo. E a maior independência do Parlamento traz um menor interesse do eleitorado.

Desde a implantação da República no Brasil apenas nove presidentes foram eleitos através do voto popular (em outros períodos do sistema republicano mulheres e analfabetos estavam proibidos de votar). Levando em conta que o governo Bolsonaro ainda está no primeiro ano, apenas quatro completaram todos os seus mandatos (Gaspar Dutra, Juscelino Kubistchek, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva).

Isso comprova que a democracia brasileira passa por muitos percalços e a desconfiança com as instituições prejudica não só o sistema político como também a economia – um dos grandes motivos para o não crescimento atual do país.

O papel da oposição é cobrar melhorias de interesse coletivo e esperar que o governo aceite a maioria das suas demandas em processos de negociação, como o “contingenciamento” nas universidades. E a função do presidente Bolsonaro e seus auxiliares é respeitar as instituições, os seus adversários, a população, e tentar discutir propostas com o Congresso - como a Reforma da Previdência e o projeto anticrime do ministro Sergio Moro - e diminuir os conflitos.

Uma maior aproximação enfraquece as tensões e consequentemente ajuda na economia e nas propostas de inclusão social. Se estas questões não prosperarem é necessário que as instituições funcionem em prol da manutenção da democracia, nem que seja através de um “parlamentarismo branco” – que parece ser o caso da realidade política brasileira, com um Congresso cada vez mais autônomo, com agenda própria, diante de um governo atrapalhado e paralisado. E que o presidente permaneça cumprindo com os ritos institucionais.

A não ser que cometa crime de responsabilidade, crime comum, ou até renúncia, é preciso fortalecer a democracia e fugir do radicalismo, de teorias de conspiração inspiradas em histórias fictícias. Respeitar o voto e estabilizar governos é um caminho para diminuir as chances de aventureiros políticos, a não ser que os partidos entrem no jogo político pensando apenas neles mesmos. Algo que não parece sair de moda do Brasil.

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