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Presidente Jair Bolsonaro
Presidente Jair BolsonaroFoto: EVARISTO SA / AFP

Por Jorge Waquim

Calma, leitora, calma, leitor, a racionalidade mencionada no título, claro, não faz referência ao ocupante da cadeira do Planalto, e, sim, à percepção que o público tem do atual governo. Essa racionalidade pode ser deduzida a partir da última pesquisa do Datafolha, divulgada ontem, domingo, 7 de abril, que indica a menor popularidade do presidente desde 1989, comparada aos cem dias dos outros presidentes. E, se essa pesquisa for comparada àquela anterior, do Ibope, de março, vê-se um movimento contínuo de queda na aprovação do governo, pela percepção racional da população sobre a falta de rumos do vencedor do pleito de 2018.

De quem é a culpa da queda? Ora, dele mesmo, do Presidente, quem nem precisa de oposição, pois nesses cem dias não parou de dar passos em falso: escreveu bobagens sem fim, dirigida provavelmente aos seus fanáticos correligionários; fez uma postagem pornográfica em uma de suas mídias sociais, veja, logo em um país reputadamente conservador e religioso; nomeou para pastas pessoas que demonstram claramente a total ausência de preparo, tanto técnica quanto política, para estarem onde estão, explícitas nas terríveis prestações dos senhores ministros em comissões da câmara; fez viagens internacionais que melhor seria se tivessem sido inúteis: aos EUA, onde tudo entregou sem nada receber, a Israel, onde ganhou inimigos que o Brasil nunca teve e vai gerar despesas para o erário com um desnecessário escritório comercial em Jerusalém, e ao Chile, onde ganhou repúdio de políticos e de manifestantes pela defesa que fez no passado a um sanguinário ditador chileno; tentou emplacar revisionismos históricos histriônicos, fazendo o governo inteiro cair no repúdio aqui no Brasil e no exterior, manchando até a imagem que tem o país lá fora.

No começo da tarde desta segunda-feira, 8 de abril, o presidente colocou um novo ministro da educação no MEC. Ao que parece, trata-se de mais um nome orientado pelo guru da Virgínia. Olhando um vídeo recente de uma palestra do novo ocupante da pasta, nele ele declara que sua maior preocupação é combater o “marxismo cultural”, essa suposta entidade que, como um verme, devora todas as mentes pensantes nas universidades. Será que a caça às bruxas continuará na Educação? O MEC, pasta tão importante para o Brasil, não continuará a ser fonte de batatadas, como foi com o ex-ministro, ou a aprovação do Presidente continuará a cair.

Comemorando os cem dias de trombadas consigo mesmo e com sua equipe, o Sr. Presidente, como querendo parecer uma pessoa comum, dá uma declaração de grande impacto: “não nasci para ser presidente”. Deviam ter dito ao ocupante da cadeira presidencial que tem coisas que em vida presidencial, ninguém diz. Para ser presidente, é preciso estofo, sugiro aqui como uma novidade, é preciso acordar e dormir presidente, é preciso que cada ação e cada palavra seja pesada, é preciso que cada mínimo gesto que o ocupante do cargo realize tenha como preocupação maior o país, como bem ensinou Maquiavel, em sua obra “O Príncipe”.

Entenda, cara leitora, caro leitor, a frase seguinte como uma provocação e como uma pergunta, porque ninguém sabe a quantas anda o governo: o Sr. Presidente parece que começa a entender que não foi eleito rei absoluto, mas presidente de um país democrático, onde há alguma imprensa investigativa, onde há uma população que, apesar do sofrimento cotidiano, ainda consegue olhar para as notícias que vêm do planalto central e repudiá-las. Claro está que a atual crise econômica não é culpa do governo atual, mas é muito provável que a insatisfação geral tenha a ver com uma demonstrada inaptidão, visível nesses cem dias, da equipe no poder de encaminhar uma solução qualquer.

O Presidente reclamou, disse que não iria perder tempo com o Datafolha, ontem, domingo, 7 de abril, em uma rápida entrevista concedida a repórteres postados em frente à casa de onde saía depois de um almoço. O fato de ele ter dado uma entrevista, mesmo que rápida, já demonstra que ele se preocupa, sim, com a queda indicada pela pesquisa. E parece que começa a entender que presidente não pode se esconder no casulo do Alvorada, tem de sair à Esplanada, tem de dar satisfação ao povo das suas ações, tem de mostrar a que veio.

Senão, vai provar que não nasceu mesmo para o cargo.


Jorge Waquim é filósofo por Paris Nanterre e Tradutor
Jorwaquim@gmail.com

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