Bolsonaro ataca jornalistas uma vez a cada 3 dias, aponta entidade de imprensa

Levantamento de ONG mostra que 32 ataques à imprensa foram realizados pelo presidente até o momento em 2020

Jair BolsonaroJair Bolsonaro - Foto: Isac Nóbrega/PR

O presidente Jair Bolsonaro foi responsável por 32 ataques verbais ou ofensas à imprensa nos três primeiros meses deste ano, uma média de 1 a cada 3 dias.

É o que aponta levantamento da organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras no primeiro de uma série de relatórios trimestrais sobre violações à liberdade de imprensa no Brasil.

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Segundo a entidade, o presidente realizou 15 ataques diretos a jornalistas nesse período, sendo cinco deles destinados a mulheres.

Entre os casos citados está o da repórter da Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello, "um dos alvos favoritos do que alguns chamam de 'sistema Bolsonaro'", afirma o relatório.

Em fevereiro deste ano, o presidente insultou Mello com uma insinuação sexual, em referência ao depoimento de um ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp, dado à CPMI das Fake News no Congresso.

"Ela [repórter] queria um furo. Ela queria dar o furo [risos dele e dos demais]", disse Bolsonaro, em entrevista diante de um grupo de simpatizantes em frente ao Palácio da Alvorada.

O depoimento foi de Hans River do Rio Nascimento, que trabalhou para a Yacows, empresa especializada em marketing digital, durante a campanha eleitoral de 2018.

Em dezembro daquele ano, reportagem da Folha de S.Paulo, baseada em documentos da Justiça do Trabalho e em relatos do depoente Hans, mostrou que uma rede de empresas, entre elas a Yacows, recorreu ao uso fraudulento de nome e CPFs de idosos para registrar chips de celular e garantir disparo de lotes de mensagens em benefício de políticos.

Já na CPMI, diante de deputados e senadores, Hans deu informações falsas e insultou Patrícia, uma das autoras da reportagem.

O relatório do Repórteres Sem Fronteiras também citou o episódio envolvendo a jornalista Vera Magalhães.

A colunista do jornal O Estado de S. Paulo e apresentadora do programa Roda Viva,
da TV Cultura, foi atacada em fevereiro após publicar que Bolsonaro havia compartilhado no WhatsApp um vídeo de apoio ao protesto de 15 de março contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, e a favor do governo.

"Os casos de Mello e Magalhães são típicos do machismo cru que caracteriza o comportamento do presidente e seus apoiadores", afirma o levantamento.

O relatório classifica como "cena surreal" o momento em que Bolsonaro convidou o humorista Márvio Lúcio dos Santos Lourenço para ironizar jornalistas presentes na porta do Palácio da Alvorada, em março.

Questionado por repórteres sobre o aumento de 1,1% no PIB brasileiro em 2019, terceiro ano seguido de fraco crescimento, Bolsonaro não respondeu e pediu que o comediante se dirigisse à imprensa.

"Apesar de eles assumirem muitas formas, esses ataques sistemáticos à imprensa obedecem a uma estratégia clara e cada vez mais bem delineada: incentivar uma desconfiança duradoura dos jornalistas alvo, destruir sua credibilidade e gradualmente construir um inimigo comum", conclui o relatório do Repórteres Sem Fronteiras.

O documento lembra que o Brasil, no ano passado, ocupou a 105ª posição entre 180 países no ranking mundial de liberdade de imprensa compilado pela entidade. 

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