Bolsonaro x Moro no combate à corrupção e a PF no meio

"Bolsonaro não vai querer perder essa bandeira para Moro"

Jair Bolsonaro e Sergio MoroJair Bolsonaro e Sergio Moro - Foto: (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Ao ingressar no governo Jair Bolsonaro, o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, foi apontado como o auxiliar que o presidente não poderia demitir, sob pena de arriscar sua bandeira de combate à corrupção. Exatamente um mês após deixar o Governo Federal, Sérgio Moro, em entrevista ao Fantástico, disse que faltou empenho do presidente no combate à corrupção. Chamou isso de "verdade incoveniente" para destacar: "Essa agenda anticorrupção não teve um impulso por parte do presidente da República pra que nós implementássemos". Ontem, a deputada federal Carla Zambelli, ao comentar a Operação Placebo, deflagrada pela Polícia Federal, que teve o governador Wilson Witzel (RJ) entre os alvos, atribuiu a atividade da PF à saída de Moro do Ministério da Justiça. Zambelli sugeriu: "É muito estranho que o ministro tenha dito isso, porque, logo depois que ele saiu, começaram operações da Polícia Federal contra corrupção em diversos lugares. Dia 19 a PGR pediu investigação em cima de alguns governadores como Witzel, Doria, o governador doa Amazonas".

Anteontem, na véspera de a PF cumprir mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Witzel, Zambelli, em entrevista à Rádio Gaúcha, sobre operações futuras mirando governadores, vaticinou: “A gente deve ter, nos próximos meses, o que a gente vai chamar, talvez, de Covidão”. Indagada sobre eventual vazamento dos dados da PF, Zambelli disse que deu aquela entrevista para comentar a falha no combate à corrupção apontada por Moro. Numa linha semelhante a de Zambelli, em uma roda de conversa reservada, um deputado observava: "Moro saiu com o discurso de que o presidente não priorizou o combate à corrupção. Bolsonaro não vai querer perder essa bandeira para Moro". Por essa lógica, o governo não pouparia esforços para jogar no colo do ex-ministro a pecha de que, sob a gestão dele, as operações da PF pararam. A movimentação recente mais intensa da PF, na definição de parlamentares, passou a ser chamada de "efeito Moro".

O capítulo Witzel x Bolsonaro
Na mesma reunião ministerial em que reclamou das forças de inteligência, Bolsonaro afirmou que ia "interferir e ponto final". Também na ocasião, chamou Witzel de "estrume". Ainda em 2019, o presidente chegou a afirmar que Witzel "botou na cabeça destruir a reputação da família Bolsonaro" e disse ele estaria usando a Polícia Civil para atingi-lo. Witzel reagiu, dizendo que processaria Bolsonaro por acusações de manipulação. Agora, tem uma pandemia no meio.
Fôlego > Parlamentares anotavam, ontem, que era importante investigar com rigor as suspeitas de desvios na Saúde do Rio de Janeiro relacionadas à pandemia. Mas acenderam sinal amarelo frente às declarações de Carla Zambelli na véspera e registraram que um dia antes a Prefeitura de Fortaleza também foi alvo da Operação Dispneia para investigar superfaturamento de respiradores.
Onipresente > O deputado Danilo Cabral, observando as movimentações, anota que Carla Zambelli virou porta-voz informal do governo Jair Bolsonaro: "Se meteu em confusão de Moro, com Regina Duarte e, agora, com a Polícia Federal. É onipresente!".
Exportação > Do deputado Tadeu Alencar: "Jair Bolsonaro prossegue levando o nome do Brasil de forma negativa ao cenário internacional". Vice-líder da Oposição, Tadeu se refere à matéria do The Telegraph, de Londres. Assinado pelo analista Oliver Stuenkel, sob o título “O homem que quebrou o Brasil”, o texto responsabiliza o presidente pela “implosão política e pelo coronavírus fora de controle". “É o legado devastador do bolsonarismo”, diz Tadeu.

 

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