Brasil demorou a agir e negociar após tarifaço, aponta ex-presidente da CNI
O mineiro Robson Andrade é o entrevistado da semana no podcast "Direto de Brasília", apresentado pelo jornalista Magno Martins
O governo brasileiro teria demorado a agir e abrir negociações após o tarifaço imposto pelos Estados Unidos no início do ano. Essa é a avaliação do mineiro Robson Andrade, ex-presidente da poderosa Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em entrevista ao podcast "Direto de Brasília", o empresário e uma das principais lideranças do segmento defendeu a negociação, pois os argumentos brasileiros são favoráveis a um entendimento com o presidente americano Donald Trump, e criticou a estratégia do governo brasileiro de utilizar a Lei da Reciprocidade.
“Eu sou a favor da negociação. Acho que é o único caminho que temos para realmente resolver essa questão do tarifaço, que foi decidida de maneira unilateral e baseada em levantamentos ou informações que não são corretas. E como as informações deles não são corretas, o Brasil tem um grande espaço para abrir essa negociação. Agora, acho que estamos agindo tarde, já devíamos ter agido desde antes, quando havia uma ameaça concreta. Não era uma ameaça que a gente poderia relegar. O Brasil tinha que ter começado e aberto essas negociações antes. Acho que retardamos, e agora estamos correndo atrás do prejuízo”, afirmou Robson.
“Nós podíamos ter, de uma maneira bem prática e pragmática, sentado à mesa e levado nossas argumentações, e iríamos saber quais eram as questões levantadas pelo governo americano. Essas questões poderiam ter sido refutadas de maneira elegante e concreta, e a gente poderia hoje estar numa situação em que não teríamos um tarifaço de 25% e depois outro de 12,5% impostos pelo governo americano”, completou.
Robson reforçou que o Brasil é democrático e soberano, mas precisa “fazer o dever de casa”. “A gente tem que ir lá, discutir, negociar. Não temos que ter receio dessa negociação. Temos que chegar, colocar na mesa o que podemos ceder e o que nós queremos em troca”, afirmou o ex-presidente da CNI.
Reforçando a necessidade de negociar, ele se mostrou refratário à estratégia do governo brasileiro de utilizar a Lei da Reciprocidade como instrumento de pressão contra os Estados Unidos. Segundo Robson, a iniciativa “não trará nenhum benefício” ao país.
“Não sou a favor de adotar a Lei da Reciprocidade, porque não vai nos levar a absolutamente nada. Não vai trazer nenhum benefício para a economia brasileira. E isso não é adotar uma postura passiva, é ser realista. Temos que adotar uma postura de negociar. Os motivos alegados pelo governo americano para esse tarifaço são frágeis, não são consistentes, podem ser rebatidos, demonstrados, discutidos. Quando você entra numa negociação, você está disposto a levar suas ideias, mas também a aceitar algumas colocações. Então essa negociação é importante”, afirmou.
A Lei da Reciprocidade foi aprovada pelo Congresso Nacional em abril de 2025 e regulamentada por decreto. Ela permite ao Brasil adotar contramedidas comerciais e diplomáticas a países ou blocos econômicos que imponham barreiras, restrições ou tarifas alfandegárias unilaterais e injustificáveis aos produtos nacionais. O uso da medida foi anunciado pelo Governo Lula como resposta ao novo tarifaço de 12,5% sobre os produtos brasileiros, comunicado por Trump no mês passado. Todavia, o Brasil também informou que não deixaria a mesa de negociações com o governo americano.
“Temos que chegar lá e mostrar para eles a realidade econômica brasileira. Agora, tem que negociar, e negociar quer dizer dar alguma coisa e receber outra coisa. Me parece que o governo do presidente Trump quer negociar. Isso depende de nós também termos essa intenção e partirmos para essa discussão”, finalizou Robson.

