guerra no oriente médio

"Brasil e Israel precisam resolver essa questão", diz chanceler da Noruega

No G20, Espen Barth Eide ainda defendeu a necessidade de reformas na ONU, sobretudo no que diz respeito ao poder de veto no Conselho de Segurança, o que é uma bandeira tradicional da política externa brasileira

O ministro de Relações Exteriores da Noruega, Espen Barth Eide, no Rio de Janeiro para a reunião de chanceleres do G20O ministro de Relações Exteriores da Noruega, Espen Barth Eide, no Rio de Janeiro para a reunião de chanceleres do G20 - Foto: Reprodução

No Rio de Janeiro para a reunião de chanceleres do G20, o ministro das Relações Exteriores da Noruega, Espen Barth Eide, defendeu a necessidade de reformas na Organização das Nações Unidas (ONU), sobretudo no que diz respeito ao poder de veto no Conselho de Segurança. A reformulação de organismos internacionais é uma bandeira tradicional da política externa brasileira e principal pauta da presidência do Brasil no G20, que encerra nesta quinta-feira (22) a primeira reunião do grupo em âmbito ministerial.

Eide conversou com o Valor nesta quarta-feira (21), um dia após os Estados Unidos vetarem uma nova resolução de cessar-fogo na Faixa de Gaza. A Noruega não integra o grupo composto por 19 países e dois blocos econômicos, mas é uma das oito nações convidadas pelo Brasil para participar das discussões.

O chanceler destacou que a Noruega tem uma das posições mais críticas em relação a Israel no conflito com o Hamas, mas rechaçou as recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Lula abriu uma crise diplomática com Israel ao comparar a emergência em Gaza ao Holocausto de judeus na Segunda Guerra.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

A Noruega foi um dos países convidados pela presidência rotativa do Brasil para integrar as discussões. Como vê a participação?

Espen Barth Eide: Estamos muito agradecidos porque é um prestígio para um país ser convidado. E eu não poderia pensar em um ano e uma presidência melhores porque estamos em um contexto internacional muito complicado. A Noruega é um país do Norte, mas ouso dizer que somos mais engajados nas questões globais do que alguns de nossos colegas no Ocidente. E nós vamos tentar usar isso como um ponto de entrada, para ser um bom parceiro, contribuir com as discussões e nos aproximarmos, o que é muito similar ao que deseja a presidência brasileira.

O que o país pretende apresentar ao grupo?

Eide: Um tema consistente da Noruega será apoiar a reforma de instituições de governança global, o que é bom para o Brasil e países como Índia, África do Sul e Indonésia. Os países não ocidentais têm alguns parceiros no Norte Global e tentaremos ajudar nesse aspecto.

Há uma agenda comum entre a Noruega e demais países convidados?

Eide: Os outros países têm opiniões políticas bastante semelhantes, mas isso é mais uma coincidência, não é como se fôssemos um grupo. Minha impressão é que o Brasil nos convidou com base na parceria de longa data na Amazônia e em outras questões climáticas desde o primeiro governo Lula. Mas também porque tomamos posições mais independentes sobre a situação na Faixa de Gaza, sendo muito mais críticos em relação ao comportamento de Israel do que outros países ocidentais. E, depois, há um tema central na agenda econômica que é a ideia de uma convenção fiscal global, para termos princípios mais unificados sobre como garantir que o dinheiro gerado em um país não vá para paraísos fiscais e escape da tributação. Tem sido feito um trabalho na OCDE, mas também queremos ver isso acontecer em nível global por meio da ONU. A reunião dos ministros financeiros, na semana que vem, deve trazer mais detalhes sobre isso.

A Noruega é um parceiro de longa data do Brasil na agenda ambiental. O que esperar do G20 sob presidência brasileira?

Eide: Lula foi reeleito com papel muito mais visível no cenário global e há clara demonstração de um novo entendimento sobre a importância de cuidar da natureza e de envolver comunidades indígenas quando ele traz pessoas como Marina Silva e Sônia Guajajara. Ele não tem a mesma base parlamentar de quando foi presidente pela primeira vez, o que ocasiona algumas resistências, mas me parece que o governo está seriamente comprometido em fazer mudanças e contribuir com soluções para uma ordem global mais justa. Exemplo disso foi a Cúpula da Amazônia, que não acontecia há 14 anos, e reuniu oito dos principais países amazônicos. Nós esperamos a expansão do diálogo para outros países com florestas tropicais, como Indonésia e Congo.

A principal pauta brasileira no encontro de chanceleres é a reforma de organismos multilaterais, como a ONU. A Noruega está alinhada com a visão brasileira?

Eide: Quando ocupamos uma cadeira rotativa no Conselho de Segurança [a eleição mais recente da Noruega foi para o período 2021-2022], fomos muito claros sobre a necessidade de reformas no colegiado. A nossa posição é similar à do Brasil no que diz respeito à necessidade de se ter mais membros permanentes no Conselho de Segurança. A composição tem que refletir melhor o mundo de hoje pois o formato atual é de 1945, quando a ONU foi criada. Mas eu diria que mais importante que isso, é o que fazer sobre o poder de veto. Atualmente, o veto permite que um só país bloqueie o que todos os demais desejam. Talvez existam formas de suavizá-lo, como determinar que um país não pode usar o veto se for diretamente afetado por uma questão, ou estabelecer que é necessário justificar seu uso na Assembleia Geral da ONU. Há conversas sobre como tornar o veto menos destrutivo e nós talvez precisemos de novas ideias sobre isso. Mas é algo que o Brasil quer discutir e eu estou feliz de fazer parte da discussão.

A diplomacia brasileira reconhece que não há consenso sobre isso nem mesmo entre os países do G20. Além disso, o grupo não tem caráter decisório...

Eide: As vinte economias não tomam decisões, mas isso também é uma vantagem no sentido de que pode haver conversas mais abertas e, se houver consenso, encaminhá-lo à Assembleia Geral da ONU ou outros organismos internacionais, como o Banco Mundial. O secretário geral da ONU, Antonio Gutierrez, convocou um encontro em setembro para discutir o futuro e as agendas de reforma. Então essa primeira reunião ministerial sob presidência do Brasil no G20 pode ser um ponto de partida para encaminhar algumas ideias até lá.

As declarações de Lula ao comparar a situação em Gaza ao Holocausto, que geraram tensão com Israel, podem ofuscar as primeiras discussões do G20?

Eide: Espero que possamos discutir Gaza, que vive terrível catástrofe, uma horrível situação humanitária e onde precisamos de um cesar-fogo e de esforços humanitários mais fortes. A Noruega tem sido muito clara em criticar os ataques do Hamas, mas também o uso excessivo da força por Israel. Acreditamos que por mais que você tenha direito de se defender contra o terrorismo, eles ultrapassaram enormemente os limites, com bombardeio massivo de áreas civis, inclusive com crianças. Existem indicações claras de violações do direito humanitário internacional e de regras da guerra. Apesar disso, discordo em comparar a situação ao Holocausto. O Holocausto foi a experiência singular na história onde um esforço industrial sistemático foi montado para exterminar um povo inteiro. A comparação é problemática e prejudica o bom diálogo com Israel.

A crise diplomática compromete a legitimidade brasileira de atuar como mediador de conflitos internacionais?

Eide: Eu penso que Brasil e Israel precisam resolver essa questão particular para poder seguir adiante com o que, na minha visão, é mais importante, que é trabalhar na real solução do conflito.

Ex-embaixadores e pesquisadores dizem que as falas pessoais de Lula sobre conflitos internacionais causam confusão sobre a real política externa brasileira ao divergirem do trabalho oficial dos diplomatas. O senhor concorda?

Eide: A posição elaborada de um governo normalmente está no que ele diz em arenas internacionais, como a Assembleia Geral da ONU ou o Conselho de Segurança. O que acontece em muitos países é que em campanhas [eleitorais] ou agendas públicas, isso pode ser um pouco diferente. Nós, que somos bastante ativos em vários conflitos, tentamos ser firmes, precisos e honestos no que dizemos, mas também ter muito cuidado nas palavras que usamos. Porque se você se desviar um pouco, pode acabar prejudicando o esforço que pretende ajudar. No caso de Israel, somos um dos países mais críticos do Ocidente, mas refletimos bem sobre as palavras que usamos porque, para se chegar a uma solução, precisamos ser capazes de dialogar com os dois lados.

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