Com crise, influência do mercado não pode ser ignorada pelos presidenciáveis

Um lado prioriza o combate à desigualdade com políticas sociais e o outro aposta que, se a economia se desenvolver, as pessoas não precisam de incentivos do Estado; caminhos distintos para combater a desigualdade

Henrique Meirelles e Ciro Gomes, presidenciáveisHenrique Meirelles e Ciro Gomes, presidenciáveis - Foto: AFP

Diante da repercussão que a “crise dos combustíveis” ganha, espera-se para a eleição deste ano uma influência considerável da pauta econômica na corrida pela Presidência da República. Ex-ministro da Fazenda do Governo Temer e ex-presidente do Banco Central do Governo Lula, o presidenciável Henrique Meirelles (MDB) - no olho do furacão dos maiores problemas que o País enfrenta - reflete o perfil do grupo de candidatos que posiciona a gestão econômica como prioridade.

Além de Meirelles, nomes como Geraldo Alckmin (PSDB), Rodrigo Maia (DEM) e João Amoêdo (Novo) trabalham na perspectiva de uma agenda de centro-direita alinhada ao mercado. Contudo, há o caso do ex-presidente Lula (PT), que mesmo com políticas de esquerda, conseguiu conciliar a aprovação popular e do mercado durante a sua gestão. 

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Ciro Gomes
(PDT) busca seguir no mesmo caminho, na tentativa de ter apoio dos dois lados. O cientista político Glauco Peres (USP) aponta as diferenças: um lado prioriza o combate à desigualdade com políticas sociais e o outro aposta que, se a economia se desenvolver, as pessoas não precisam de incentivos do Estado. Caminhos distintos para combater a desigualdade.

Segundo analistas, o índice de 13,7 milhões de desempregados pesa sensivelmente na balança de qualquer presidente, algo que puxa a popularidade do presidente Michel Temer (MDB) para baixo. O índice também foi um dos fatores determinantes para a queda da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que teve a sua avaliação derrubada pelo fraco desempenho econômico da sua gestão. “O que a gente vê em termos de popularidade é inflação baixa, poder de compra alto e desemprego baixo. O que impulsiona, de fato, um governante são essas três coisas”, avalia o professor de Economia Clemens Nunes, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O economista Guilherme Mello (Unicamp) propõe uma divisão entre ideologias pró-mercado e pró-Estado como a melhor forma de entender o debate econômico na eleição. "A característica mais forte da ideologia do mercado é que o Estado atrapalha e o mercado resolve. Você tem o setor privado cheio de qualidades e o setor público cheio de defeitos. Mas, se você olhar todos os países que se desenvolveram recentemente, há uma presença marcante do Estado. Não é possível uma dicotomia entre um ou outro."

O cientista político Frederico Almeida (Unicamp), por sua vez, considera que o governante trabalha com três humores conflitantes: o capital especulativo ou financeiro, o capital industrial (empresariado) e a sociedade civil. O que funciona bem pra um, pode desagradar o outro. Frederico aponta que a sinalização que Lula deu ao mercado, em 2002, com a Carta aos Brasileiros, foi importante pra que ele conseguisse governar. "Meirelles dentro do Governo Lula foi um sinal pra o mercado financeiro", avaliou, lembrando que o preço das commodities e a estruturação da política macroeconômica foram fatores de sorte que ajudaram o petista.

Há problemas sérios que se acumulam para a administração pública do País, afirma Clemens Nunes, como a infraestrutura, a carga tributária, a questão fiscal, a regulação da economia, do investimento, pontos que precisam ser enfrentados. "O que acontece é que o debate sobre eleições no Brasil passa muito longe dos problemas. Nenhum candidato quer dar notícia ruim e fica um certo concurso de animação, quem consegue enganar melhor a audiência", pondera. "A solução será sacrifício. Quem assumir em 2019 precisa lidar com problemas e quem tem mais, vai se sacrificar mais, cada um carrega o peso que pode", adverte.

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