Confira os principais trechos da gravação dos delatores da JBS

Nos grampos, os executivos da empresa falam ainda sobre o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, além de citações a três ministros do STF

JBS, uma das empresas do grupo J&FJBS, uma das empresas do grupo J&F - Foto: Divulgação

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, abriu investigação de indícios de omissão de informações sobre crimes no acordo de executivos da JBS. O problema surgiu, segundo Janot, após delatores da JBS entregarem à PGR (Procuradoria-Geral da República), na semana passada, novas gravações de áudio.

O pivô da crise é o ex-procurador da República Marcello Miller. A JBS o convidou, em fevereiro deste ano, para ocupar o cargo de diretor global de compliance (departamento anticorrupção) da companhia, setor que estava sendo criado como resposta às descobertas de ilícitos praticados pelo grupo.

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Na ocasião, Miller ainda fazia parte dos quadros do Ministério Público Federal. Ele só saiu da Procuradoria no dia 5 de abril. Miller é citado por Joesley Batista, dono da JBS, e o diretor de relações institucionais da empresa, Ricardo Saud. Na conversa gravada, eles disseram que ele os ajudou enquanto negociavam acordo de delação premiada na Lava Jato. Miller nega.

Nos grampos, os executivos da empresa falam ainda sobre o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, além de citações a três ministros do STF: Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes.

MARCELLO MILLER

Ricardo Saud, executivo da J&F, questiona Joesley Batista sobre a Operação Carne Fraca, deflagrada naquele mesmo dia, em 17 de março. Saud não entende por que, mesmo após manter conversas com o procurador Marcello Miller a respeito do acordo de delação premiada que estava sendo preparado, o Ministério Público Federal continua tendo a JBS como alvo de operações.

Joesley Batista procura acalmar Saud, dizendo que seria natural que a operação ocorresse, para manter a JBS sob pressão até a delação. No geral, diz Joesley, o mais importante não ocorreu, que era a prisão dos executivos. Na gravação, Saud conta que Miller está ajudando os executivos da JBS a formatarem o acordo de delação

Joesley: Acho que eles não estão fazendo isso orquestradamente. Acho que eles estão fazendo isso achando que nós não estamos estendendo, mas eu estou entendendo. Quem não está entendendo, está em pânico, eu não estou em pânico. O Wesley não entende isso, ninguém entende isso. Eu, Joesley, posso estar completamente num [filme musical] 'La La Land', [mas] eu estou em paz. Está tudo certinho. [...] Seria a reação natural. Pensa você no lugar do Janot, senta na cadeira do Janot.

>>> Irmão de Joesley e sócio da JBS, também se tornou delator

Saud: [inaudível]
Joesley: O Janot sabe tudo, a turma já falou pro Janot.
Saud: Você acha que o Marcello está levando tudo para ele?

>>>> Marcello Miller, procurador da República que havia trabalhado na PGR (Procuradoria- Geral da República) e estava ajudando os delatores da JBS a formatar o acordo de delação premiada dos executivos da JBS

Joesley: Não é o Marcello, nós falamos pro Anselmo, que falou pro Pelella,que falou pro não sei que lá, que falou para o Janot, o Janot está sabendo. Aí o Janot, espertão, o que o Janot falou? 'Bota pra foder, bota pra foder, põe pressão neles para eles entregar tudo'. Mas não mexe com eles. 'Bota pra foder, dá pânico neles. Mas não mexe com eles.'

>>>> Anselmo é o procurador da República no DF que investigou a JBS na Operação Greenfield.

>>>> Pelella é o procurador da República Eduardo Pelela, chefe de gabinete do procurador-geral Rodrigo Janot

Saud: [inaudível] Nós já tamos combinado, por que que isso não foi combinado pra gente? [inaudível]
Joesley: Porque não pode ser combinado. Você não pode entender isso. Eu entendo, eu não devia estar entendendo.
Saud: Tudo que o Marcello queria... [inaudível]
Joesley: Por isso que estou dizendo, eu tenho a pretensão que eu acho, e posso estar completamente errado, de achar que eu estou entendendo. [...] Em condição normal de temperatura e pressão, eles estão fazendo o que era previsível de fazer. [...]
Saud: Os caras me fuderam hoje. Eu posso passar para o Marcello o que eu tenho?
Joesley: Não pode passar nada.
Saud: O que eu fiz, não passei porra nenhuma.
Joesley: Ô Ricardo, só [passe] o oficial.
[...]
Saud: Deixa eu te fazer uma pergunta. O Marcello deu uma tarefa para nós [inaudível]. É muito fácil, ele quer mais, é isso? E já contou para o Janot que a gente tem muito mais para entregar? O top era o Temer. [inaudível]

>>>> Dez dias antes, Joesley havia gravado uma conversa com o presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu e iniciado os contatos para fazer pagamentos a um assessor de Temer, o ex-deputado federal Rocha Loures (PMDB-PR)

Joesley: Vamos lá, vamos dar um passo atrás, assim, na minha cabeça. Marcello é do MPF, ponto. O Marcello tem linha direta com o Janot. Quando eu falo Janot, é Janot, Pellela tudo a mesma coisa. Tudo MPF. É Janot, Pellela. Qual o nome daquele outro? Ca, ca... E o outro lá. Ricardo, nós somos joia da coroa deles. O Marcello já descobriu e já falou para o Janot: 'Ô, Janot, nós temos o cara, nós temos o pessoal que vai dar todas as provas que nós estamos precisando'. Ele já entendeu isso. A Fernanda surtou porque a Fernanda entendeu que nós somos muito mais e nós podemos muito mais. Aí até a Fernanda perdeu o controle, 'Nossa Senhora, peraí, calma, Supremo não, vai fuder meus amigos'. Só para... Ricardinho, eu não vou conseguir te explicar e falar assim... Ricardinho, confia em mim. É o seguinte: vamos conversando tudo, nós vamos tocar esse negócio, nós vamos sair lá na frente, nós vamos sair amigo de todo mundo e nós não vamos ser presos, pronto. E vamos salvar a empresa.

>>>> Eduardo Pelella, chefe de gabinete de Janot

>>>> Tórtima, advogada da JBS que aparentemente era contrária ao acordo de delação premiada

[...]
Saud: Como que o Marcello está tão afinado com a gente, o cara mandou escrever tudo hoje [anexos da delação], acabou, quarta-feira nós vamos entregar tudo cem por cento. Eu me pergunto o seguinte: por que a Fernanda não fecha com a gente?
Joesley: Ela fecha, ela fecha. A maior agonia de todo mundo é porque é o seguinte, nós vamos chegar lá.

Saud: Tem quatro semanas que nós apanhamos toda semana.
[...]
Saud: Pô, fiquei lá o dia inteiro. Vou mandar o Marcello à merda, 'vocês não precisam dessa porra, está tudo acertado'. Eu redigi tudo, fiz onze páginas com todos os partidos e tudo. Ele fala 'pode ficar tranquilo que isso faz parte'.
Agora você fala em acordo, pô será que eu tô fazendo papel de bobo?

>>>> Referência à deflagração da Carne Fraca

Joesley: [dando risada]
Saud: Não, sério... Pôs, eles rindo de lá e você rindo daqui. Não, tem que falar com a gente, tá tudo acertado?
Joesley: Desculpa, eu tô rindo aqui. Ô meu Deus do céu, deixa eu parar de rir... Não, não tem nada acertado.
Saud: Sou seu amigo, vou até o fim do mundo com você. Me faz passar esse sufoco... Se tá tudo acertado é só avisar.
[...]
Joesley: Não tem nada acertado, certo? Ponto.

Saud: E por que você está tão tranquilo assim?

Joesley: Ricardo, dentro do contexto do que nós somos, o que temos para falar, o que a gente representa, tudo. Dentro do jogo vai, do MP com não sei o quê... É um carteado, né, é uma aposta. Eu posso estar enganado. Ricardo, eu duvido que esse Janot não queira nossa delação. Mas eu duvido assim... Eu aposto cem para um. Não é dez para um, não, é cem para um. Aí eu fico vendo toda essa confusão... Pensa o que eles fizeram hoje. Uma operação idiota, enfiando nós [no meio]. Isso é de dar risada. Ricardo, o que eles fizeram hoje é de dar risada. Eu queria estar em frente do Janot, falar: 'Janot, para, isso é coisa de menino. Uma operação idiota dessa, você bota 1 mil e cem homens na rua, em troca de nada, achando que vai me amedrontar. Pára. Você tá louco?'.

Saud: Então por que... [inaudível]

Joesley: É porque ele não sabe com quem ele está lidando. Ele acha que está lidando com um menino amarelo. E aí eu vou chegar lá e dizer: 'Janot, nessa escola sua, eu sou professor. Você tá tendo aula, eu sou professor. Pára, que brincadeira, eu tô achando até engraçado isso, tá ridículo isso. Pára'. Ricardinho, ele na cadeira dele, conosco, ele não... Na escola que eles estudam, nós é professor. Pára.
[...]
Saud: Porra, se nós tem um acordo com o cara, por que estamos apanhando quatro semanas seguidas?

Joesley: Não tamos apanhando nada.
[...]

Saud: Se nós tivesse delatado lá atrás, nós tinha delatado os fiscais federais. Agora até o Eduardo Cunha eles aceita delação do Eduardo Cunha. O Marcello me contou que eles estão pressionando o Lúcio [Funaro] a fazer delação de todo o jeito. [...] Eu acho que o caminho pra chegar no Janot não é a Fernanda
Joesley: É ele [Miller]

*

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

Saud diz que o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo afirmou que tinha proximidade com cinco ministros do Supremo Tribunal Federal, tem "os cinco na mão", sem esclarecer o que seria isso. Ao ouvir o relato sobre a reunião e ouvir uma gravação que teria documentado o encontro, o procurador da República Marcello Miller orientou Saud a não incluir a gravação em acordo de delação premiada que começava a e negociado com o Ministério Público Federal. A reunião, segundo Saud, foi gravada, mas nenhum áudio com esse registro foi entregue pelos delatores à PGR.

Eles comentam que Miller se interessava por pontos da investigação, incluindo ministros do STF

Saud: Esses caras [da PGR] são tarado, esses caras, são tarado [no sentido de quererem saber de irregularidades]. Tem jeito de ganhar deles nunca.
Joesley: Nunca. Não, vamos fazer assim, nós vamos combinar com eles assim. Quando terminar o nosso serviço, o último, nós vai te chamar. Porque aí se der merda...
Saud: [inaudível]

Joesley: O Renan, o Zé Eduardo. Ele [Marcello Miller] ficou enlouquecido com o Zé Eduardo.

>>>> Ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo (PT-SP)

Saud: Ele [Miller] acha que o [ex-ministro da Justiça] Zé Eduardo [Cardozo] é o melhor caminho para chegar no Supremo.
Joesley: Ele te falou isso? O que que ele te falou?
Saud: Não, eu contando lá, do [inaudível], das coisas, e tal, aí nós ouvindo a fita e tal.
Joesley: Não, o que você falou para ele?
Saud: Não, eu falei para ele, 'Ó, a conversa lá foi assim, assim, assim [conversa entre Joesley, Saud e Cardozo]'.
Joesley: Assim o quê, me fala.

Saud: Não, contando. Nós chegamos lá, começamos a conversar, o Joesley falando com ele, como é que estavam as coisas, que que tinha feito. Aí ele falou da lei. Eu não sabia da lei. [inaudível] Tanto que ele riu na hora da lei. Falou que em outubro foi aprovado uma lei assim, negócio de narcotráfico, mudaram a lei lá, passou para outra coisa. [...] [Miller indagou] 'Ah, ele falou dessa lei?' O filho da puta ainda me gozou. 'Mas essa lei é de narcotráfico, não tem nada a ver com nada, não'. Eu falei. 'Ah, aí não sei, o Joesley tentou me explicar lá, eu não sei, eu vou ler depois'. Nós falamos, eu falei, inclusive lá nós conversamos: 'Porra, velho, o cara falou que tem cinco...'
Joesley: Ministros.
Saud: '...Cinco do Supremo na mão dele. Inclusive muitos conversados e outros não é só palavreado, não, [é por] escrito, tal'. Ele falou: 'Cinco ele não tem, não. Só se eles contam o Lewandowski até hoje'.
'Ah, isso aí eu não sei'. Deu nome lá. 'Se contar o Lewandowski acho que têm cinco'. 'Mas ele tinha essa intimidade com a Dilma?'. [Saud respondeu] 'Intimidade? Eu vou te contar: eu achei que os três estava fazendo suruba'. Porque ele falou da Cármen Lúcia, eu comecei a contar da Cármen Lúcia. 'Que vai lá falar de sexo com a Dilma, tá os três juntos, tal tal, tal'. 'Ah, ele tem mesmo essa intimidade? Então ele entrevistou os caras, então não é mentira não'. 'Foi, eu tô falando'. Eu contei para ele do escritório...

>>>> Ministro do STF Ricardo Lewandowski

>>>> Presidente do STF Cármen Lúcia

Joesley: Que escritório?
Saud: Do [advogado] Marco Aurélio, que estava lá, ajudava. 'Falou do dinheiro, falou do dinheiro?' 'Não'. Aí voltou pro Supremo. 'Mas o que a Dilma falou?' [inaudível] 'Não, não falou nada disso, recebeu a Cármen Lúcia lá e tal, na última indicação'. Aí eu contei para ele do se..., aí ele mudou de assunto. 'Sexo? Elas falaram disso?' [Saud disse]: 'É suruba dos três, rap...'. 'Não, isso eu quero ouvir'. Menino, o cara me empurrava lá na frente [inaudível] putaria... [Miller disse] 'Esse cara é louco?'
Joesley: Aí você mostrou a fita?
Saud: Não, fui mostrando.
Joesley: Isso.
Saud: Ele falou: 'Isso dá cadeia! Isso prende o Zé Eduardo amanhã, isso prende ele amanhã. Melhor não, melhor não. Se a Cármen Lúcia [inaudível], prende amanhã'.
Joesley: Eles, o Supremo.
Saud: É. Aí ele: 'Deixa eu ver de novo. E prende você também. Está falando de suruba aí, você não fala isso mais não. Eu vou te orientar, você não fala isso mais nunca. Falar que a presidente da República, a presidente do Supremo e ele tá fazendo suruba? Você tem noção do que você falou?'. Ele [Miller] me deu uma dura tão grande. 'Você tem noção do que você falou? Presidente do Brasil, presidente do Supremo e ministro da Justiça fazendo suruba? [inaudível] Aí não pode botar lá, isso aí não pode. Nós temo que tirar. Tem que usar isso contra o Zé Eduardo. Bora pressionar o Zé Eduardo, tem que contar quem é esse cara do Supremo. Pode isso? Ficamos conversando [...] 'Então vamos esquecer aquele trem da briga do Gilmar e vamos [inaudível] desses três aí do Supremo'. [risos]

>>>> Ministro do STF Gilmar Mendes

Joesley: Como? Esquecer a briga?
Saud: Não teve o Gilmar? Que virou briga entre ele [e Janot]? Ele falou, 'vamos esquecer isso e vamos pegar os três'. Eu falei 'mas você é inteligente demais, você ta largando [inaudíve] e quer três?' 'Não, não é isso' [risos]. Agora, ele é velhaco, ele tá ficando meu amigo e tal achando que nós vai entregar esse depoimento [inaudível]. [Ele disse] 'Você pode escrever o que você quiser aí que eu *conserto depois*'. Eu tô metendo o cacete, escrevendo tudo o que eu estou pensando.

>>>> Saud diz que Miller vai corrigir os textos dos anexos da delação premiada que deverão ser entregues à PGR

Joesley: Ele é muito ativo
[...]
Joesley: Eu falei pro Marcelo, falei: 'Marcelo, você quer pegar o Supremo?'; 'Quer'. Eu falei: 'Pega o Zé. O seguinte, guarda o Zé, o Zé entrega o Supremo.

>>>> Ex-ministro José Cardozo

Saud: Ele não aguenta cana igual o Palocci.
Joesley: Não, que isso, não aguenta meia hora.

*

ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA E RODRIGO JANOT

Ricardo Saud diz a Joesley que ouviu falar que Janot teria um plano de, ao sair da PGR, juntar-se a um escritório de advocacia no qual também trabalharia Marcello Miller. Em nota nesta terça-feira (6), a PGR negou qualquer plano de Janot nesse sentido.

Saud: [Relata suposto diálogo com Miller:] 'Você [Miller] passa pro Janot o que tá acontecendo aqui?'. 'Não vou mentir, eu não passo, não. Um amigo meu [em] comum. É um amigo meu comum que eu passo. Comum do Janot'. Eu falei 'Você passa tudo pro Janot?'. Ele falou 'Não, é um amigo meu comum'.
Joesley: Que ele passa?
Saud: Ele passa pro Janot.
Joesley: Mas ele falou que passa?
Saud: Falou que passa, 'Um amigo comum tá nos ajudando, comum entre eu e Janot'. 'Quem que é amigo comum?'.
Joesley: Então ele falou que passa [] Você nunca me falou isso [...]
Saud: Um amigo comum. [...]
Joesley: [] Então isso só corrobora o que eu penso
Saud: Eu falei pra ele, 'Marcello, você conta pro Janot?' Ele disse 'te prometo que não é. Depois de segunda-feira nós falamos porque somos parceiros. É um amigo comum nosso.' 'comum nosso?' 'Não, comum meu, dele e do Janot' Ele falou assim: 'Esse cara tá nos ajudando, esse cara faz parte do meu escritório'. Eu falei 'mas como faz parte do seu escritório?' [inaudível] 'Tá, mas eu descobri que você passa pro Janot diretamente'. 'Não, é o seguinte: o Janot não vai concorrer mais ao cargo, e ele faz parte do nosso escritório'. Ele me contou que o Janot vai sair e vai advogar com eles no mesmo escritório dele, no mesmo escritório que ele tá hoje. Você não sabia disso?
Joesley: Não
Saud: Que o Janot vai sair e ficar com o Marcello no escritório?
Joesley: Então você tá confirmando minha tese que ele [Miller] vai no banheiro e conta para alguém.
Saud: Mas a gente achava que era o Janot, aí ele falou é um amigo comum.
Joesley: É alguém que fala pro Janot.
Saud: É um amigo comum, que é dono desse escritório que é onde o Janot vai trabalhar depois junto. Eu já entendi agora, o Marcello saiu antes, tem um outro saindo que ele me contou, Christian?, e o Janot não vai concorrer, vai sair, e vai vir advogar junto com ele e esse Christian nesse escritório
[...]
Joesley: É tudo malandro, viu, esses advogado de... Ricardinho, eu conheci o advogado do Lúcio.
O Lúcio preso na Papuda, eu fui conhecer o advogado do Lúcio. Advogado dizendo 'não, nós vamos soltar ele, ele vai sair, vamos pedir um HC'. O cabra numa animação, e ficou aquilo na minha cabeça. [...] Eles [os advogados em geral] quer que eu vou preso. Aí lá na cadeia eles vai pegar um milhão pra eu não ir algemado, ir com a mão pra trás. Aí mais um milhão pra mim não dormir na cela com oito, dormir só com quatro. Aí mais milhão pra mim ter um pão com manteiga, não um pão sem manteiga.
Essa turma aí já tem a solução. O MP já tem a anistia, sabia? A anistia que nós tamo atrás o MP já tem, é a delação.

>>>> Corretor de valores Lúcio Funaro, preso em 2016 em decorrência da Lava Jato, também viria a fechar um acordo de delação premiada

*

SENADOR CIRO NOGUEIRA (PP-PI)

Saud conta a Joesley como entregou R$ 500 mil em espécie para o senador Ciro Nogueira (PP-PI). O parlamentar teria falado, no encontro, sobre uma proposta de suborno que recebeu da construtora Odebrecht.

Saud: Não, o que eu conversei com ele ali [Ciro Nogueira] é muito sério, acabou, morreu, derrubou tudo. [...] Pegou a mala, já marcou de 15 em 15 dias, que ele vai marcar uma putaria para nós, só... [...] Só 'triple A', só sem nível... tal. Ou ele ou o irmão, mas ele mesmo preferi vir e tal. 'Ninguém foi tão correto quanto você e tal'. Ah, não faz isso comigo, não [reclamando do gravador].
Joesley: Não é de 15 em 15 dias?
Saud: [...] Conversou ali em cima que você precisa de ver, você não acredita. Que a Odebrecht queria dar pra ele... Precisa me ajudar a defender isso, cara. 'A Odebrecht queria me dar'. Eu falei para ele: 'Ciro, tenta receber da gente aqui'. A Odebrecht queria dar para ele 40 milhões lá fora. Fez toda a papelada, tal, a Odebrecht achando que ele iria roubar, ele não roubou, ele não aceitou, tal. Pegou a mala, fui lá, pus, eu falei: 'Ó, leva aí a roupa da minha irmã'. 'Muito obrigado, e tal'. [inaudível] Passar o final de semana.
[...]
Saud: Eu fiz um serviço tão bem feito ali com ele. [...] Ele não queria levar o dinheiro.
Joesley: Por quê?
Saud: [Ele disse] 'Não, deixa aí com vocês, eu prefiro tal'. Eu falei: 'Olha, Ciro, agora você leva. Tá aqui os 500, você leva, e dali a gente se encontra, faz essa parte [inaudível] e você pega'. [...] Ele falou 'não, acertei com [inaudível] uma conta corrente. Deixa aí'. Eu falei: 'Não, ué'. 'Esse carro é meu'. 'Então põe aí'. Eu pus. E ele falou: 'Vou te apresentar meu irmão, Ricardo, que só você que é da minha confiança e meu irmão. Pronto, vocês dois. De 15 em 15 dias?' Pode. Eu falei: 'Não, vamos fazer o seguinte, vamos fazer nós dois mesmos que nós vamos para a putaria e tal'. Então vamos nós dois mesmo.
Joesley: Eu sempre digo isso [interrupção].
Saud: Falou da Odebrecht, que a Odebrecht queria que ele roubasse um dinheiro. 'Nós vamos ter que... aquele negócio do Cade lá de novo. A gente tem que te pagar alguma coisa'. [Ele respondeu] 'Não'. 'Esse negócio é meu e do Joesley, nós fizemos um negócio aí por fora, tal, não preocupa com isso, não, isso aí não vou cobrar de jeito nenhum. Ó, você sabe que a gente nunca deixou de te pagar nada'. [Falando para Joesley] Cara, nós temos que fazer isso, [interrupção] conversar com o Janot rápido essa reunião para ver [interrupção] o Ministério Público vai continuar a desconfiar de nós.
[...]

*

AÉCIO E TEMER

Joesley: Cara, vou te contar um negócio. Sério mesmo. Nós somos do serviço, né. Nós vai acabar virando amigo desse Ministério Público, você vai ver. Nós vai virar amigo desse Janot, nós vai virar funcionário desse Janot [risos]. Nós vai falar a língua deles. Cê quer conquistar o Marcello? Cê já achou o jeito, é só começar a chamar esse povo de bandido, esses vagabundos bandido. (...) fala esse é do nosso lado.
Saud: Devastado é a palavra que ele falou, além de ladrão, devastado. (...) Ele [dizia que] nunca achou na vida uma putaria entre presidente da República, ministro da Justiça e presidente do Supremo, ele falou, isso por si só derruba todo mundo.
Joesley: [risos]
Saud: Ele ficou indignado. Não viu a cara dele. Joesley, ele não acreditava, [ele falava] nunca imaginei na minha vida que eu escutaria isso. (...)
Joesley: [risos] Aiai.
Saud: Veio outro aqui hoje achando que... 'Quero nada, não, só quero o presidente da Vale. O Bradesco quer fazer junto.' Sabe o que eu ia falar agora? Ué, coincidência, o Trabuco ligou aqui e não teve coragem de fazer isso com o Joesley. Ia colocar no contexto, será que ele queria falar esse negócio aí? Ele ia cair igual um patinho. Cê acha que ele ia perder essa oportunidade?
Saud: Tenho medo de.. esse povo não vai deixar nós ir embora.
Joesley: Não! Não tem nenhum chance. Se não deixar, nós não entrega.
Saud: Se não deixar nós embora...
Joesley: Não, nenhuma chance. Tudo o que nós está fazendo é só para nós. Estamos fazendo sabe o quê? Guardando munição, só isso. E nós não vai precisar usar nenhuma, tomara, vamos dizer assim, né.
[...]
Saud: Falei para ele: 'Aí, Zé, fiquei sabendo que você é a pessoa mais importante do mundo. Você comeu a presidente do Supremo e comeu a presidente da República e ainda come. Você vai para o Guinness. Ele 'não, não é isso, não...' Galã, né.
Saud: Você vai ver minha fita hoje com o Marco Aurélio.
Joesley: Então vai ser você com o Zé e eu com o Temer.
Saud: Nós vai pegar o Aécio também. É cachaceiro.
Joesley: Aí ele ficou pequenininho [risos]. Não, nós vamos, só porque ele é bandidão, mesmo. Cê sabe que esse aqui, os outros, vai ficar pequenas causas, não vai precisar. (...) Eu gosto desse menino.
Saud: E ele é seu fã.
Joesley: Esse é o tipo que não ajuda muito nós e fode ele.

*

PAGAMENTOS A PARTIDOS

Saud e Joesley conversam sobre valores repassados a partidos, como PT e PRB. Comentam a delação do Sérgio Machado e a repercussão, como a crítica de Rena Calheiros. E a postura do corretor de valores Lúcio Funaro, de até então não ter falado nada.

Joesley: Você falou que eu te devo uma? [perguntando a Saud]
Saud: Ah é. Hoje eu tava fazendo a soma toda lá no Guarujá, sabendo que ocê tava pagando dinheiro pro PT. Você viu quanto eu economizei pro cê, seu..?
Joesley: Eu vi. Eu vi.
Saud: tá novinho, né?
[...]
Joesley: Agora que cê entendeu o que rolava, né?
Saud: O povo falava pra mim, eu até imaginava, mas não queria entender porque senão os caras...
Joesley: É. É melhor não entender.
Saud: Os caras metiam a faca em mim, eu dizia: Não, não quero falar com ele, não. 'Não mandaram procurar o Joesley, mandaram te procurar, problema nenhum. Esse dinheiro não é seu não, Ricardo, para de segurar isso, não é seu não. Você está nos roubando, esse dinheiro é *do PT*'.... E hoje eu estava fazendo as contas lá. Então quer dizer que 39 milhões, lá? Eu mereço pelo menos 10%, né?

>>>>Saud disse em delalação que pagou propina a 1.829 candidatos eleitos, entre eles três governadores do PT, além de dinheiro para Lula e para a campanha de Dilma. O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega atuaria como intermediário.

Joesley: Que que é esses 39?
Saud: Eu ficava puto com os caras, me roubavam, esses caras. Estão roubando todo mundo. Nesse dia o 'coisa' escreveu lá: '15 milhões do PRB, tal, tal, tal'. Tá bom. A hora que eu dei pra ele, ele falou: 'Oh, cara, só tem 3 milhões. Quer dizer: 'Acho que digitei errado'. Falei: 'Espera aí, deixa eu pensar aqui'. Aí vem lá no outro: '*Kassab*, tal, tal, tal, 40 e tantos. Uai Ricardo, está faltando 7 milhões. Não, desculpa, eu estou fazendo confusão'. Chegou no terceiro, ele falou assim: 'Ricardo, acho que aquilo que o Joesley falou é verdade, você não sabia de porra nenhuma, você ficava puto de dar dinheiro pra esses caras e você [...] para ajudar a empresa'.

>>>>PRB - Joesley disse que pagou a Marcos Pereira, do PRB, propina de R$ 6 milhões referentes à liberação de um empréstimo de R$ 2,7 bi na Caixa. O PRB havia indicado um vice-presidente do banco, e ficaram programados pagamentos mensais no valor de R$ 500 mil no início de 2016.

>>>>Kassab - Wesley disse que pagou mensalmente R$ 350 mil desde 2010 a uma empresa ligada a Kassab por contratos superfaturados de aluguel de caminhões. O valor totalizaria quase R$ 30 milhões.

Joesley: É isso. É isso. E cê sabe
Saud: Somando, você sabe quanto deu? 39 milhões. Deve ter ficado puto, deve ter ficado p
Joesley: E cê sabe que, de repente, se der pa classificar ocê como leniente, ué, também melhor ainda.
Saud: Quem, eu?
Joesley: É, ué. De dizer que você não sabia da transa.
Saud: Não tem como. Não tô ligando para essa porra, não.
Joesley: Não, eu tô dizendo o seguinte: no contexto, entendeu? No contexto
Saud: Eu não tenho chance. Todo mundo vai me delatar. A hora que a coisa começar a cair (risos). Nós fizemos a conta lá, são 172, eu e o Marcello fizemos a conta lá. Será quantos vão falar de mim?
Joesley: Esse que é o ponto, é melhor falar
Saud: Agora, nós entregarmos
Joesley: Igual esse negócio do SIF (Serviço de Inspeção Federal). Ninguém queria falar, ninguém, ninguém Ainda bem que nós falamos... Tá vendo, como é que é?

>>>>Wesley afirmou em delação a companhia fez durante anos pagamentos mensais a auditores agropecuários encarregados de fiscalizar suas unidades de produção. Os fiscais recebiam entre R$ 1.000 e R$ 20 mil para trabalharem fora de seu expediente normal e atendiam pedidos para "flexibilizar" a aplicação das normas sanitárias.

Saud: Velho, te juro, aquilo ali deu segurança pra esse caso aí. Eu não quis falar isso pro Marcello pelo telefone. Não falei, não, aquilo ali deu segurança: 'Marquinho, amanhã, quando o doutor chegar aí, cê cuida dele, viu? Ele gosta de massagem'.
[...]
Joesley: Pega o Sérgio Machado, o Renan esbraveja, todo mundo esbraveja, mas cê acha que alguém tem genuinamente raiva dele [Sérgio Machado]? Não tem. Porque o que ele falou foi verdade.

>>>>Em seu acordo de delação, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado mais de 20 políticos dos principais partidos brasileiros de receber propinas provenientes de desvios na subsidiária da Petrobras, como PMDB, PT, PP, DEM, PSDB e PSB. Entre eles, o presidente do Senado Renan Calheiros.

Joesley: Mesma coisa do Lúcio [Funaro]. O Lúcio tá preso lá. Por que ele nunca delatou? Porque ele sabe o ele fez.

>>>>Lúcio Funaro seria o intermediário de Eduardo Cunha, no caso do FGTS, da Caixa

Joesley: "É bíblico, a verdade te liberta. Eu tô dormino mais agora do que antes".

*

PRISÃO E VIRA-CASACA

Joesley: Deixa eu deixar claro aqui: eu não vou ser preso, ninguém vai ser preso. Pronto. Já barbariza assim. Não, mas não tamos falando disso não. Se eles não tão falando, eu tô falando. É o seguinte: não tem, não é, não vamos. Não tem nenhuma chance de isso acontecer. Nenhuma chance de isso acontecer.

>>>>Os executivos da JBS tiveram como "premiação", nos termos da PGR, o "não oferecimento de denúncia" contra eles. Nenhum dos colaboradores foi condenado pelos crimes que narraram.

Saud: (Inaudível)...Eu tô pronto, aqui, alguém...
Joesley: E amanhã, a hora que nós destampar, pei. De manhã, tem que chamar a família: "Ô, gente, é o seguinte. O sistema, o país, fomos obedientes. O sistema era um, nós era um. O sistema era outro, mudamos de lado. Não pactuamos com isso, não gostamos. Queremos contribuir e era isso aí. Viramos de lado. Essa turma tem que se foder, mesmo.
Saud: Eu sou responsável por meus atos (...) Vou assumir tudo o que fiz. (...) Vou falar "o, nao deu, esses caras sao vagabundos, então vamos consertar o pais
Joesley: Pronto, uma hora acerta.
Saud: Vou levar os dois mais novos comigo embora, e o vou ficar aí (...)
Joesley: Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Nós somos obedientes.

*

PODER JUDICIÁRIO


Saud: Tomar o poder (...) Vai ser a Cármen Lúcia que vai ser presidente (...)

>>>>Em referência à possibilidade de o presidente Temer cair

Joesley: Não, vai ser o Janot. Vai ser o Ministério Público. Ricardinho, eles vão dissolver o Supremo.

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