'Corrupção é efeito de um povo apático', diz Paulo Roberto Cannizzaro

Nesta entrevista à Folha de Pernambuco, o autor faz uma análise sobre o cenário político brasileiro e sobre o tema de sua obra: a corrupção

Escritor mineiro Paulo Roberto CannizzaroEscritor mineiro Paulo Roberto Cannizzaro - Foto: Julya Caminha/Folha de Pernambuco

Escritor mineiro, Paulo Roberto Cannizzaro lançou, na semana passada, o livro "O Poder da Corrupção nas Democracias Contemporâneas", segundo volume de uma trilogia iniciada no ano passado, com a obra "Uma República adiada", que conta a história da nossa República desde a queda do Império Português. Nesta entrevista à Folha de Pernambuco, o autor faz uma análise sobre o cenário político brasileiro e sobre o tema de sua obra: a corrupção, que, para ele, é “o efeito de um Estado desorganizado e de um povo apático”.

A corrupção no Brasil - endêmica e antidemocrática - tem razões específicas na história nacional para seu enraizamento? Seria algo diferente da realidade de outros países?

Parcela dos historiados acusam nossa colonização, a tendência patrimonialista, como causas indutoras dessas práticas, mas entendo que existe uma corrupção nova, em rede, com hierarquia, com times, com estratégias que é mais nova, é estrutural e que aprisiona o Estado. Mais isso não é uma originalidade tipicamente brasileira. O mundo está mais corrupto. Há uma mundialização da corrupção. Todas as nações convivem com isso. A corrupção é um marco das civilizações, todas elas foram vitimadas por essa chaga. A corrupção é o efeito de um Estado desorganizado, de um povo apático, anêmico politicamente, que acompanha pouco as instituições. Os Estados Unidos sempre foi o campeão de corrupção. É preciso que o povo brasileiro deixe de se tratar como sendo um povo formado somente por um bando de depravados e corruptos. Esta não é nossa identidade originária. Somos uma nação linda. Estamos passando por um processo de tratamento da corrupção.

Na sua visão, de que forma o Brasil se insere nessa crise da democracia liberal que perpassa países como EUA, Turquia e Reino Unido?

Estado e democracia são partes integrantes de duas macrotendências e, a força de ignorá-las, estão se descaracterizando, perdendo toda o poder de controlálas. Também não é uma exclusividade que o Brasil seja a única nação colapsada em sua democracia. Todas as democracias estão em choque, evidentemente umas mais e outras menos. É a própria democracia representativa que está agonizando, doente e ferida pela manifesta infidelidade aos mandatos que recebe. Não é meramente teórica a urgência de uma substituição idônea desse modelo público de democracia, com poder suficiente para torna-la efetivamente participativa. O Brasil se insere neste mesmo cenário de crise, como tantas nações. Alguns chegam a sugerir que até as monarquias estejam menos colapsadas, coincidência ou não, tal é a crise dos regimes democráticos, mas a verdade que há um comum traço de crise nas principais democracias representativas. Talvez esteja na hora de profanar mesmo esta atual democracia tão formal e incapaz, a ser urgida para uma mudança na direção de uma democracia de verdade, participativa, efetivamente fiel ao seu povo.

A visão de corrupção que nós temos está muito atrelada a um certo "toma lá, dá cá" - que é o cerne do atual modelo de presidencialismo de coalizão. O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) alcançou popularidade justamente prometendo romper com essas práticas. Como o senhor imagina que se dará essa mudança de paradigma?

Este modelo está saturado e completamente esgotado. Mudam governantes, mudam pessoas, mais a verdade é que o modelo político precisa ser alterado profundamente. O momento político exige um olhar que vá além da nossa Constituição escrita e que revela as tensões que permeiam nossa “constituição real” - aquilo que F. Lassalle definia como “fatores reais de poder”. O regime político hoje em vigor no Brasil tem sido descrito como emprego da expressão “presidencialismo de coalizão”.

O problema é que para que as maiorias sejam formadas, o elemento ideológico tem uma importância relativa. Apenas parte da coalizão constitui-se naturalmente em decorrência da afinidade programática entre partidos. Para completar a coalizão, é necessário agregar outros partidos que não possuem identidade programática marcada, seja por serem integrados por pessoas de orientação ideológica heterogênea, seja por abrigarem políticos interessados apenas no exercício do poder, sem concebê-lo como meio para a realização de finalidades. Se não mudar essa equação o novo Presidente vai ser vítima das mesmas práticas.

Por mais que se ressalte e enalteça os louros da Operação Lava Jato, há quem critique o impacto político e econômico deixado no País. Qual é o verdadeiro saldo dessa operação?

Precisamos passar por isso, mas não há que comemorar por uma experiência tão traumática como essa. A crise atual tem diversos componentes, seja por equações econômicas desajeitadas, pelo aceleramento da dívida pública, por déficits públicos recorrentes, pela crise do Estado nacional, mas a Lava Jato também é um personagem importante do desarranjo de nossa economia. Empresas nacionais importantes estão sendo quebradas. O setor de construção foi dizimado, algumas empresas perderam expertises, executivos que foram aposentados com larga experiência. Repete-se a experiência italiana, que empurrou a Itália por anos numa profunda anemia econômica. Nenhum país que passou por isso deixou de sofrer muito, principalmente com desemprego, com viés econômico de depressão. O processo de higienização da corrupção precisa ter um tempo a ser cumprido, mas não pode deixar que instituições empresariais venham sucumbir. Deveriam prender pessoas, mas nunca matar instituições. As nossas empresas nacionais representam ativos nacionais. Elas é que fazem a roda da economia girar, e nesse sentido não houve nenhuma preocupação de cuidar dessas empresas. O grande interessado na destruição da empresa brasileira é o capital externo. Chega de Lava Jato. O importante agora é colocar o país no trilho novamente.

Veja também

Prefeito do Recife, João Campos, testa positivo para Covid-19
Coronavírus

Prefeito do Recife, João Campos, testa positivo para Covid-19

Tribunal abre brecha para reduzir pena tricentenária de Sérgio Cabral
Política

Tribunal abre brecha para reduzir pena tricentenária de Sérgio Cabral