De um 'gestão Mandetta acabou' ao 'estamos cansados' no plural

Deputados avaliam que ministro não deveria ter dado motivo

Secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson OliveiraSecretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira - Foto: José Dias/PR

No início do dia ontem, as palavras de Wanderson de Oliveira, braço direito do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que ecoavam eram: "A gestão Mandetta acabou". Ele as registrou em uma carta dirigida à equipe. O texto começava assim: "Finalmente, chegou o momento da despedida". O tom sinaliza para um tipo de agonia aliviada. Há 10 dias, o ministro chegou a registrar que "teve gente limpando gaveta, até as minhas gavetas". Naquele dia, Mandetta avisou que ficava à frente da pasta, pediu "paz" e apontou "solavancos". No último domingo, em entrevista ao Fantástico, indagado sobre esses "solavancos" e sobre a relação com o presidente Jair Bolsonaro, deu um recado: "Brasileiro não sabe se escuta o ministro da saúde, se ele escuta o presidente". Essa incerteza já vinha se reproduzindo há algum tempo.

Na tarde de ontem, Mandetta apareceu na coletiva acompanhado do mesmo Wanderson que assinara a carta de despedida mais cedo. Mandetta explicou que não aceitou a demissão. Wanderson disse que, na realidade, não pediu demissão "diretamente ao ministro". E indagado por que pediu demissão, Wanderson pareceu verbalizar o que Mandetta vem tentando externar via gestos: "Estamos cansados!". Falou no plural. Voltando algumas casas nesse "jogo", logo depois que o presidente Bolsonaro fez pronunciamento no qual criticou o "conceito de terra arrasada" no combate à Covid-19, alvejando governadores, Mandetta chegou a apontar "grande colaboração", referindo-se à fala do presidente ao "chamar atenção de todos que é preciso pensar na economia". Ali, Mandetta afirmou que a ação dos governadores no sentido de paralisar o comércio "ficou muito desarrumado", "foi precipitado" e disse que "ficou sensação de que entramos e não sabemos como saímos". Ontem, deputados, nas coxias, repisavam uma avaliação similar: "Se o ministro decidiu ficar, não deveria ter instigado a demissão ou dado motivo ao presidente. Era para ter deixado esse ônus para Bolsonaro no lugar de provocar, como fez na entrevista". Parlamentares dizem que Mandetta também passou a dar sinais trocados num movimento semelhante ao que ele mesmo atribuiu aos governadores: "entramos e não sabemos como saímos".

 

Aleluia surge em bolsa de apostas
Antes da reunião de líderes da Câmara Federal começar, ontem, a especulação que reinou solta entre os parlamentares foi: quem vai ficar no lugar do ministro Luiz Henrique Mandetta. Na bolsa de apostas dos deputados, o nome de José Carlos Aleluia apareceu. Um dos que levantou tal hipótese foi Baleia Rossi. Os deputados fizeram a "cotação" em tom de bom humor. Aleluia é do DEM, ex-deputado federal, e assesor especial de Mandetta no ministério. O nome do ex-ministro Osmar Terra também figurou.
Um respiro > Aleluia foi, inclusive, quem articulou a solução para o caso de requisição administrativa da União, que gerou demanda da Prefeitura do Recife e do Governo do Estado por respiradores. O deputado Augusto Coutinho entrou em contato com ele para viabilizar a liberação dos equipamentos.
Vitória > Mesmo dando voto contrario à MP do Contrato Verde Amarelo, Danilo Cabral viu aprovada emenda sua, que manteve o salário-educação pago pelas empresas. Esses recursos financiam os programas de merenda , transporte escolar e livro para os alunos.
Mais uma > Também foi de Danilo a emenda que ampliou o público atendido - os trabalhadores acima de 55 anos, que estão fora do mercado. “Tentamos minimizar a retirada de direito dos trabalhadores, principalmente nesse momento de crise”, disse. 

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