De um 'gestão Mandetta acabou' ao 'estamos cansados' no plural
Deputados avaliam que ministro não deveria ter dado motivo
No início do dia ontem, as palavras de Wanderson de Oliveira, braço direito do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que ecoavam eram: "A gestão Mandetta acabou". Ele as registrou em uma carta dirigida à equipe. O texto começava assim: "Finalmente, chegou o momento da despedida". O tom sinaliza para um tipo de agonia aliviada. Há 10 dias, o ministro chegou a registrar que "teve gente limpando gaveta, até as minhas gavetas". Naquele dia, Mandetta avisou que ficava à frente da pasta, pediu "paz" e apontou "solavancos". No último domingo, em entrevista ao Fantástico, indagado sobre esses "solavancos" e sobre a relação com o presidente Jair Bolsonaro, deu um recado: "Brasileiro não sabe se escuta o ministro da saúde, se ele escuta o presidente". Essa incerteza já vinha se reproduzindo há algum tempo.
Na tarde de ontem, Mandetta apareceu na coletiva acompanhado do mesmo Wanderson que assinara a carta de despedida mais cedo. Mandetta explicou que não aceitou a demissão. Wanderson disse que, na realidade, não pediu demissão "diretamente ao ministro". E indagado por que pediu demissão, Wanderson pareceu verbalizar o que Mandetta vem tentando externar via gestos: "Estamos cansados!". Falou no plural. Voltando algumas casas nesse "jogo", logo depois que o presidente Bolsonaro fez pronunciamento no qual criticou o "conceito de terra arrasada" no combate à Covid-19, alvejando governadores, Mandetta chegou a apontar "grande colaboração", referindo-se à fala do presidente ao "chamar atenção de todos que é preciso pensar na economia". Ali, Mandetta afirmou que a ação dos governadores no sentido de paralisar o comércio "ficou muito desarrumado", "foi precipitado" e disse que "ficou sensação de que entramos e não sabemos como saímos". Ontem, deputados, nas coxias, repisavam uma avaliação similar: "Se o ministro decidiu ficar, não deveria ter instigado a demissão ou dado motivo ao presidente. Era para ter deixado esse ônus para Bolsonaro no lugar de provocar, como fez na entrevista". Parlamentares dizem que Mandetta também passou a dar sinais trocados num movimento semelhante ao que ele mesmo atribuiu aos governadores: "entramos e não sabemos como saímos".

