Eleições 2022

Educação, saúde e economia: saiba o que motivou jovens a tirarem o título de eleitor

Mais de dois milhões de brasileiros entre 16 e 18 anos se habilitaram para votar número 47% superior ao de 2018

EleiçõesEleições - Foto: Abdias Pinheiro/SECOM/TSE

Contrariando o pensamento de que estariam desinteressados da política, os jovens se mobilizaram e, na reta final do prazo hábil para a votação de outubro, chegaram ao recorde de novos títulos de eleitor. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mais de dois milhões de brasileiros com 16, 17 e 18 anos se habilitaram para o primeiro pleito número 47% superior ao de 2018, por exemplo.

Ouvidos pelo GLOBO, dez representantes desta faixa etária, de todas as regiões do país, explicaram o que impulsionou a busca pelo primeiro voto: a percepção de que educação e saúde pioraram, a preocupação com a alta de preços e a sensação de que é necessário se engajar na tentativa de ver as agendas prioritárias seguirem adiante a massificação do uso de tecnologia, por exemplo são alguns dos motores desse movimento.

Vivendo a quase dois mil quilômetros de distância um do outro, os estudantes Cassiano Aires, de Santa Cruz do Sul (RS), e Luan Silva, morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, traçam diagnósticos semelhantes, a partir das experiências de vida distintas. Os dois jovens de 17 anos identificam que a pandemia agravou o quadro dentro de sala de aula. Para Luan, aluno da rede estadual, a falta de professores é uma realidade "gostaria que os próximos estudantes não passassem por isso", pontua , enquanto Cassiano defende uma atuação mais firme contra a evasão escolar.

É preciso haver maior incentivo, inclusive financeiro, principalmente para quem deixou de ir à escola. Também é necessário levar o estudo para mais perto de quem não tem acesso à internet. Houve um retrocesso muito grande nessa área, assim como na saúde avalia.

Por ser deficiente visual, o carioca Leandro Dias, também aos 17 anos, percebe a necessidade de maior inclusão no ensino brasileiro. Sua busca, com o voto, é por mais candidatos que tratem desse tema com atenção. Estudante da rede pública, ele relata que "teve sorte", pois encontrou em seu colégio a assistência necessária, e deseja que essa rede de apoio cresça e seja efetiva também nos casos de outros tipos de deficiência.

No mesmo tema, mas com uma opinião diversa, a mineira Rayane Batista, 17 anos, acredita que um dos principais problemas da educação é a presença das pautas políticas na escola. Para ela, é preciso que a sala de aula seja um local livre de influências e que possa contemplar novas áreas de ensino.

É preciso proteger nossas crianças, sem influenciá-las em questões que não são necessárias para a idade delas. As escolas hoje não formam seres humanos que pensam, está muito ligada à política. Acredito que deveriam preparar os alunos para o mercado de trabalho e investir no empreendedorismo afirma.

A recorrência do tema entre os relatos pode ser explicada, de acordo com a pesquisadora Larissa Dionisio, porque a educação diz respeito diretamente à juventude. Ela coordenou o estudo "Jovens no Poder", do Instituto Update, que buscou entender e dar visibilidade aos jovens que já atuam na política institucional. Larissa diz que é preciso aproximar esse grupo da política, o que só pode ser feito com uma linguagem próxima àquela com a qual estão habituados.

Esse mecanismo foi usado nos últimos meses, durante a campanha nas redes sociais para que jovens tirassem o título de eleitor. Liderado pelo TSE, o movimento foi encampado por personalidades como a cantora Anitta, com a interação de atores de Hollywood, casos de Mark Hamill, Mark Ruffalo e Leonardo DiCaprio. A adesão ocorreu também entre quem ainda não completou 16 anos, mas alcançará a idade antes de 2 de outubro, data do primeiro turno, a exemplo da cearense Kaylane Monteiro Araújo e da paranaense Amanda Zegli.

Um motivo para o grande número de novos títulos são as campanhas de mobilização com linguagem mais lúdica, divertida, das redes sociais. Com pautas e agendas importantes para os jovens, mas que não são faladas, normalmente, na linguagem dos jovens. A política é muito densa, cheia de termos jurídicos. Se a gente não tratar a política redesenhando isso, a gente vai afastar a juventude analisa Larissa.

Um dos pontos abordados na campanha do TSE foi a necessidade de "fortalecimento da democracia", fator lembrado pela estudante Mariani Venâncio, de 17 anos, moradora de Tambaú (SP).

A democracia é essencial, eu acredito no direito de escolher. Sou contra a ditadura, por ter sido um período sem direito de expressão e de muita tortura. Tenho estudado sobre isso na escola.

Moradora de Manaus, a indígena Sandy Yusuro, de 17 anos, acrescenta à discussão um ponto conectado diretamente com seu ambiente de convivência. Ela critica a permissividade do atual governo com o garimpo ilegal, questão que atinge o território onde vive povo Sateré-Mawé, do qual faz parte. Além dos impactos de saúde e ambientais, a deterioração do cenário econômico também é uma preocupação.

Comecei a ver que tinha algo errado quando percebi que, com o dinheiro que ganhava vendendo meu artesanato, não conseguia comprar mais quase nada afirma, sobre os preços dos alimentos.

Já Eduardo Ely, também aos 17 anos, encara o cenário econômico de outra forma. Ele acredita que a escalada dos preços é fruto da pandemia, mas não perdoa a falta de modernização do país.

Tem que investir em tecnologia. Hoje em dia, no mercado de trabalho, a tecnologia está muito forte. Quem aprende com métodos arcaicos sofre consequências em relação àqueles que já estão no mercado, principalmente em cidades no interior, que são menos desenvolvidas avalia.

Há também quem, a partir deste primeiro passo, trace o início de uma caminhada que pode desaguar na participação política por meio de um mandato. Natural de Baía Formosa (RN), Jhone da Silva, 16 anos, é filiado ao PV e almeja, um dia, ser eleito deputado federal:

Quando eu voto, estou definindo o meu futuro e não entregando nas mãos de outras pessoas. Sempre tive vontade de votar porque, enquanto adolescente, quero garantir os meus direitos. Pretendo que meu voto ajude a mudar o cenário que estamos vivendo no Brasil. O país está desmoronando.

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