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Populismo

Elo emocional e pré-campanha movem contatos de Bolsonaro com apoiadores

O apelo de Bolsonaro ao corpo a corpo, incomum no meio político fora dos períodos eleitorais, nunca foi deixado de lado

Bolsonaro em ato no Rio de JaneiroBolsonaro em ato no Rio de Janeiro - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

"Podem ter certeza: onde vocês estiverem, estarei no meio", disse o presidente Jair Bolsonaro em discurso em 12 de junho, em São Paulo.

Tática adotada por Bolsonaro desde a época em que figurava como azarão na corrida eleitoral, as aparições em que está cercado de apoiadores, com cenas de tietagem e aglomeração, foram remodeladas nas últimas semanas em motociatas –passeios de moto com milhares de participantes.

Desde maio, mesmo em meio à pandemia de Covid-19, Bolsonaro já promoveu atos desse tipo em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e no interior catarinense. No próximo fim de semana, pretende organizar uma nova edição em Porto Alegre.

As imagens de vias cheias de apoiadores motorizados, seguindo o líder em pose triunfante, tomaram conta das redes bolsonaristas nas ocasiões em que foram promovidas –e em parte serviram de resposta a protestos promovidos pelas esquerdas em defesa do impeachment.

A reportagem procurou acadêmicos que estudam o fenômeno do populismo para analisar os significados e intenções do mandatário ao promover iniciativas como essas e aglomerações em visitas pelo país.

O populismo é um conceito da ciência política aplicado tanto a representantes da esquerda quanto da direita. É caracterizado, entre outros pontos, pelo discurso de opor o "povo" a uma elite, que pode ser tanto econômica quanto política ou intelectual, e também pela defesa de uma interação direta com a base política, livre da mediação por partidos, mídia ou instituições.

Na visão de entrevistados, há uma tentativa do presidente de recuperar visibilidade em meio à falta de resultados do governo em áreas como economia e combate da pandemia. Também veem uma estratégia de manter uma mobilização ativa, antecipando a agenda eleitoral do próximo ano, e um forte viés personalista de exaltação.

O apelo de Bolsonaro ao corpo a corpo, incomum no meio político fora dos períodos eleitorais, nunca foi deixado de lado por ele desde que se recuperou de um atentado a faca na campanha eleitoral de 2018.

Aos fins de semana ou em ocasiões de folga, foi frequente ao longo do mandato o presidente fazer visitas a estabelecimentos comerciais simples, como padarias e feiras, para tirar fotos com simpatizantes e distribuir cumprimentos.

A pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Alemão Aline Burni, que é doutora em ciência política pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), diz ver na raiz dessa aclamação um certo "laço emocional" com apoiadores.

Em artigo sobre discursos do presidente na pandemia escrito com um colega, ela mencionou a tentativa de Bolsonaro imprimir um estilo de "super-herói" que resolve problemas, combinado com o de pessoa ligada a hábitos simples de um homem comum.

"É uma conexão personalista, direta com o líder Bolsonaro, mas ele conseguiu canalizar algumas demandas. Não é vazia. Está carregada de significados políticos, em termos de pautas, oposição a direitos de minorias, facilitar acesso a armas de fogo, frear a 'ideologia de gênero'. Isso dá substância para essa conexão com Bolsonaro."

Sobre as motociatas, afirma que ajudam a alimentar "um jogo de imagem e narrativa" sobre a extensão do apoio que o presidente detém na sociedade.

No ato promovido em São Paulo, Bolsonaro disse que se tratava do "maior passeio motociclístico do mundo". Porém dados do sistema de pedágio da rodovia dos Bandeirantes, dentro do trajeto dos motociclistas, mostrou a passagem de 6.661 veículos na ocasião.

"[Os atos] parecem muito reativos, porque ele constantemente faz esse tipo de mobilização frente a alguma coisa que está acontecendo, que coloca o governo em ameaça. Escândalo com ministros, corrupção, vacinas, a pesquisa [eleitoral]. É para mostrar que tem apoio, e para continuar mobilizando os que lhe dão apoio."

Além dos desgastes com a pressão pró-impeachment e com as investigações da CPI da Covid no Senado, o governo também atravessa um momento ruim em termos de popularidade.

A pesquisa mais recente do Datafolha, divulgada em maio, apontou liderança consolidada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida eleitoral para 2022 e a pior taxa de avaliação de Bolsonaro no mandato, com 24% de ótimo/bom. Sua taxa de rejeição eleitoral foi a mais alta aferida entre os pré-candidatos, com 54%.

Estudioso do populismo do período pré-golpe de 1964, o professor emérito da USP Francisco Weffort diz considerar o atual presidente um populista de direita que convive mal com o jogo democrático.

Para Weffort, o corpo a corpo e os atos políticos promovidos mostram Bolsonaro tentando se manter falando permanentemente, em presença ostensiva, o que é uma característica populista.
Define essas ocasiões como um show para o presidente aparecer que está vivo e que será candidato.

"O que o populismo exige de seus líderes, seja de direita ou de esquerda, é que faça as coisas. Não pode simplesmente falar. Embora a verborragia seja uma característica do populismo, que é uma maneira de manter a mobilização acesa, ele não pode viver só disso. Ele tem que fazer. E ele [Bolsonaro] não faz nada. Exceto brigar com o Supremo Tribunal Federal e com a maioria do Congresso", diz Weffort, que foi dirigente do PT e posteriormente ministro da Cultura no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

 

 

O professor não vê um impacto relevante no cenário político das cenas de milhares de motos reunidas ou nas imagens de tietagem ao presidente. Diz que todos os outros eleitos conservaram alguma parcela de apoio, até mesmo Fernando Collor, cassado em 1992.

"Se botar qualquer presidente da República para andar de motocicleta, a turma da motocicleta vai querer andar junto. Se qualquer presidente for à praça da Sé, vai juntar gente."

Os antecessores de Bolsonaro se mostravam pouco afeitos à exposição e ainda menos a promover atos políticos para mobilizar apoiadores fora de campanha.

Pouco popular, Michel Temer (MDB) foi um presidente quase sempre recluso. Dilma Rousseff (PT), alvejada por crises políticas a partir dos protestos de junho de 2013, se expunha pouco fora dos períodos de campanha.

Lula ficava mais à vontade diante de simpatizantes em viagens pelo país, mas dentro de um ambiente mais institucionalizado de visitas presidenciais.

Professor de ciência política da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Emerson Cervi diz discordar da caracterização de Bolsonaro como um populista e enxerga nos atos uma repetição do que o presidente sempre fez, mesmo quando ainda era um deputado isolado: a busca por visibilidade ao largo das instituições.

Cervi argumenta que a política econômica pró-empresariado não representa um viés antielitista característico desse conceito. Afirma que o sectarismo do presidente, ao fomentar constantemente uma divisão ao meio entre o eleitorado, também destoa do padrão populista de buscar formar grandes maiorias.

O professor vê no contato com apoiadores um efeito da liderança individual que Bolsonaro exerce, "na qual segmentos da sociedade têm uma relação com a personalidade, independentemente do que ele faça ou quais serão os resultados do governo dele".

Desde a época em que lançou pré-candidatura a presidente, parte dos simpatizantes o chamam de "mito".

Para Cervi, a agenda apagada nos dias de trabalho faz com que Bolsonaro tente "aparecer nos fins de semana", com essas inteirações.
"O bolsonarismo não é um movimento político, é um movimento social. O que discute são valores sociais, não políticos. Tem um lastro muito forte na sociedade, em determinados segmentos, por conta desses valores. Um movimento que reflete na política valores sociais. Não vai ser apagado ou neutralizado por um governo que tenha resultados negativos. Esse movimento social continuará existindo."

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