Coronavírus

'Enquanto estou segurando, ele vai liberar geral?', diz Caiado sobre Ibaneis abrir Brasília

Médico, Caiado tem sido um dos governadores que defendem o isolamento e o distanciamento social

Ronaldo CaiadoRonaldo Caiado - Foto: Antonio Cruz/Arquivo/Agência Brasil

A abertura total do comércio e dos serviços no Distrito Federal neste mês, anunciada pelo governador Ibaneis Rocha (MDB) nesta quinta (2), incomodou o vizinho Ronaldo Caiado (DEM), de Goiás. A localização geográfica do DF, incrustado no meio de Goiás, criou uma situação de interdependência entre os dois governadores.

Cidades cresceram ao redor de Brasília, servindo como dormitório para trabalhadores que vão e voltam do Distrito Federal todos os dias, mas vivem sob a jurisdição goiana. Neste momento, Goiás está voltando a fechar as atividades, devido ao aumento dos casos de Covid-19. Já Ibaneis decidiu tratar a doença como uma gripe e decretou a reabertura completa, mesmo com o crescimento do número de doentes.

A diferença levou Caiado a procurar o vizinho nesta quinta, sem sucesso. Recebeu como resposta que Ibaneis tinha ido para a fazenda. "Essa situação vai fazer com que o entorno de Brasília tenha um crescimento ainda maior no número de contaminados. Enquanto eu estou segurando, com revezamento de 14 por 14 [dias abertos e dias fechados], ele está liberando geral? Não tem como Goiás suportar isso", disse.



Médico, Caiado tem sido um dos governadores que defendem o isolamento e o distanciamento social para evitar a falência dos sistemas de saúde. Ele afirma que, nesse momento, os hospitais das cidades vizinhas à capital federal têm ocupação acima de 80%. Todas as três unidades de saúde que existem na região foram construídas ou reformadas nesta pandemia. Uma delas, na populosa Águas Lindas de Goiás (212 mil habitantes), é um hospital de campanha erguido pelo governo federal. "Não estou entendendo o que ele está fazendo. Com os hospitais todos lotados... Vou pedir uma ponderação da parte dele, porque a abertura dele terá reflexo direto em mim. Em Brasília as pessoas têm maior poder aquisitivo, plano de saúde, no entorno não tem nada disso", afirmou Caiado.

A paisagem em cidades como Luziânia, Águas Lindas e Formosa é formada por casas simples, muitas ruas sem calçamento e comércio de rua. Caiado disse que os prefeitos estão preocupados com a reabertura em Brasília, e ele já começa a pensar em um plano de contingência, com deslocamento de equipamentos para a região. A dificuldade maior, porém, é realocar mão de obra num curto espaço de tempo. "É uma preocupação generalizada, porque a contaminação chegou no entorno por Brasília. Não foi o entorno que levou a doença para Brasília, foi o contrário. O que disseminou o processo de contaminação no entorno foi Brasília", disse o governador, referindo-se à chegada da doença por meio da classe média alta que voltava do exterior.

Segundo ele, uma sobrecarga extra nos hospitais da região desaguará no Distrito Federal, com mais pacientes dessas regiões buscando atendimento na capital. Isso já aconteceu há poucas semanas e levou o DF a baixar uma norma determinando que só quem tivesse comprovante de residência na capital poderia ser atendido. Após negociação entre secretários de Saúde, a exigência foi suspensa."O SUS é nacional, não é de Goiás nem de Brasília. Lógico que as pessoas que forem acometidas vão recorrer aos leitos de Brasília. Se for partir para isso, vai provocar sobrecarga nos hospitais de Brasília. Eu estou fazendo a minha parte", diz Caiado.

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