Sex, 06 de Março

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Entorno de Lula se divide sobre tour no Carnaval e teme vaias com cortes nas redes sociais

Há receio entre aliados do presidente que ele fique exposto às críticas, além de questionamentos de campanha eleitoral antecipada

Presidente LulaPresidente Lula - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se divide sobre os planos do chefe do Executivo de fazer um tour para participar do Carnaval em três capitais do país.

A uma semana do feriado, há um clima de preocupação generalizada no governo com o possível efeito político negativo da presença dele para aproveitar a folia no Recife, Salvador e Rio de Janeiro.

De acordo com aliados do petista, ouvidos sob reserva, há o receio de que Lula fique exposto às críticas e, sobretudo, vaias — algo que poderia ser explorado por adversários nas redes sociais num momento considerado por eles como sem grandes crises envolvendo o governo.

Outro grupo de integrantes do governo e parlamentares da base, no entanto, avaliam como positiva a ida do presidente às festividades.

Esse núcleo pontua que é importante Lula estar mais na rua e próximo das pessoas. Além disso, de acordo com a avaliação, o presidente poderá aproveitar as viagens para fazer gestos a aliados estratégicos, além de mostrar vitalidade e energia para um eventual quarto mandato — o presidente tem 80 anos e vem buscando dar demonstrações de que a idade não será um impeditivo.

O petista deve cumprir roteiro intenso com a previsão de ir ao Recife, a Salvador e ao Rio, onde assistirá ao desfile da Acadêmicos de Niterói, cujo enredo é em sua homenagem. Na Bahia, o presidente apoiará a reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT) ao governo.

Em Pernambuco, deverá apoiar o prefeito do Recife, João Campos (PSB), ao governo estadual, apesar de aliados defenderem um palanque duplo com sinalizações também à candidatura de Raquel Lyra (PSD) à reeleição. Já no Rio, o petista estará ao lado do prefeito Eduardo Paes (PSD) na busca pelo governo estadual.

Há também a previsão de que ministros do governo e parlamentares da base desfilem na Sapucaí com a Acadêmicos de Niterói. Essa possibilidade, no entanto, tem deixado integrantes do Planalto preocupados.

O receio é de que pareça que o governo arregimentou ou constrangeu servidores para participarem da festa. Há também o temor de que isso possa configurar campanha eleitoral antecipada, além de aumentar os riscos de qualquer deslize ser explorado por adversários.

"Não tem problema nenhum ver o desfile em homenagem a Lula. É natural que as pessoas que gostam dele queiram participar. Acho natural os ministros participarem desse evento. A decisão da escola (em homenagear o presidente) partiu deles, o Lula nem sabia. Existe liberdade para escolher enredos. Tenho certeza que vai ser uma festa e um sucesso", diz o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ).

De acordo com relato de petistas, há um chamamento para que a militância e apoiadores participem do evento, seja nas arquibancadas ou até mesmo desfilando, criando uma atmosfera positiva ao presidente.

Integrantes do governo relataram ao GLOBO, sob reserva, que há uma orientação informal do Palácio do Planalto para que integrantes do primeiro escalão evitem desfilar na Marquês da Sapucaí na apresentação da escola. A diretriz, inclusive, tem desestimulado a ida de ministros ao desfile, que concordam com a chance de desgaste à imagem da gestão petista.

Procurado, o ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, afirmou que não há qualquer orientação do governo incentivando ou impedindo que servidores compareçam ao desfile. Pontuou, no entanto, que a decisão é pessoal de cada servidor, sem envolvimento dos cargos.

A Secom, em nota, diz que não há orientação da pasta sobre a participação de autoridades no desfile da escola de samba e que não tem a relação dos participantes nesse evento, “por se tratar de agenda de natureza privada”. Além disso, a Secom afirma que “desconhece a divergência de opiniões citada pela reportagem sobre a possível participação do presidente no evento”.

Brecha para adversários
Além do receio de gerar ruídos à imagem da gestão, há também a preocupação de aliados de que o desfile em si possa ser usado como argumento jurídico de adversários, que falam em campanha eleitoral antecipada.

Outro ponto que governistas consideram delicado é o fato de que órgãos vinculados ao governo repassaram recursos à escola de samba que homenageará Lula na Sapucaí. Na semana passada, técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU) orientaram que a Embratur suspenda o repasse de R$ 1 milhão à escola, num entendimento de que isso fere o interesse público.

A polêmica envolve um termo de colaboração assinado pela Embratur com a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) para o envio de R$ 1 milhão a cada escola do grupo especial.

"Não conversei dentro do governo, mas é preconceito. A Embratur sempre financiou a Liesa. Se a Liesa está decidindo assim, tem os critérios dela", disse a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) a jornalistas na semana passada.

Um interlocutor frequente de Lula afirma que considera um erro de estratégia ele comparecer a todos esses eventos. Ele reconhece a importância de o petista participar de atos de Carnaval, mas diz temer qualquer repercussão negativa. Esse aliado diz que qualquer vaia, por menor que seja, poderá ser explorada por seus adversários políticos, sobretudo no bolsonarismo.

Esse político afirma ainda que considera que o presidente está em um bom momento, com a estabilidade dos índices de aprovação de seu mandato, bons índices econômicos — como a baixa do dólar— e projeções de reeleição em pesquisas de intenção de votos divulgadas recentemente. A preocupação se dá especialmente sobre a repercussão nas redes sociais e em cortes de vídeos que poderão ser explorados pela oposição.

Outro aliado afirma que eventos que reúnem grandes multidões, como Carnaval e jogos em estádios de futebol, por exemplo, geram um sentimento de anonimato das pessoas, o que, na visão desse político, pode incentivar comportamentos hostis contra autoridades.

Sob reserva, aliados de Lula dizem enxergar influência da primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, na decisão do petista em participar desses eventos. Integrantes da escola de samba afirmam que não está descartada a participação dela no próprio desfile — já o petista deve acompanhar a festa no camarote da Prefeitura do Rio, a convite de Paes.

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