Ter, 11 de Agosto

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Política

Ex-presidente da CNI: Brasil precisa negociar com Estados Unidos, não adotar a Lei da Reciprocidade

O industrial Robson Andrade foi o entrevistado da semana no podcast "Direto de Brasília", apresentado pelo jornalista Magno Martins

"Precisamos reduzir o custo, melhorar condições tributárias, ter mais financiamento e crédito", pontuou Robson"Precisamos reduzir o custo, melhorar condições tributárias, ter mais financiamento e crédito", pontuou Robson - Foto: Reprodução Youtube Folha de Pernambuco

O ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, demonstra-se preocupado com o tarifaço imposto pelos Estados Unidos e com uma certa lentidão do governo brasileiro em iniciar as negociações. Em entrevista ao podcast "Direto de Brasília", o industrial avalia que os juros altos, a carência de infraestrutura e a concorrência com produtos importados da Ásia são os principais entraves para a economia brasileira. “Precisamos reduzir o custo, melhorar condições tributárias, ter mais financiamento e crédito”, pontuou Robson.

Como o empresariado está vendo o terceiro governo do presidente Lula?

A economia do país está crescendo, vai crescer um pouco mais de 1%, e tem se desenvolvido em alguns setores. Mas as empresas têm tido muitas dificuldades, principalmente com os juros muito altos. Você não tem crédito, ou o crédito é elevado, tem muitas empresas endividadas, e os juros altos prejudicam mais ainda. Além disso, a gente sofre hoje com a concorrência de produtos importados, principalmente da Ásia, da China, que vêm com preços muito baixos e em condições muito favoráveis aos chineses, competindo com uma indústria nacional que enfrenta dificuldades de crédito, de mercado, da infraestrutura, que é muito deficiente. Tudo isso dificulta a indústria.

O senhor foi presidente e hoje está no conselho da CNI. O que a confederação está fazendo para que o governo possa dar uma melhorada na economia?

A atuação da CNI é muito diversificada. Ela tem trabalhado muito com o Ministério da Indústria e Comércio, com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), com os ministérios da Economia e da Fazenda, sempre no sentido de reduzir o custo, de melhorar condições tributárias, de ter mais financiamento, de ter crédito com menores taxas de juros. E trabalha também junto ao Congresso nas discussões de legislações que têm ocorrido e que podem trazer mais prejuízos ainda.

Está se referindo às chamadas pautas-bomba?

Sim, as pautas-bomba têm tido um impacto enorme no déficit fiscal, que certamente vai aumentar, e isso aumenta a dificuldade do país de ter recurso para investir em infraestrutura, por exemplo. Essas pautas vão na contramão do desenvolvimento, do crescimento da economia, são pautas ruins. Mas tem outras questões que a CNI tem discutido muito, tem elaborado propostas e, principalmente, mostrado as consequências da aprovação de algumas medidas que estão sendo discutidas no Congresso Nacional.

Como tem visto a guerra tarifária entre Estados Unidos e Brasil?

Na realidade, todos os países procuram proteger suas economias, que é uma forma de proteger o emprego, a geração de renda, de melhorar o desenvolvimento de cada país. Mas, por outro lado, o comércio mundial hoje é quase sem fronteiras. Você procura todos os países, busca exportar para todos os continentes. Os Estados Unidos são um grande parceiro comercial brasileiro, tanto nas importações como nas exportações. E não só de commodities, mas nas exportações brasileiras de pequenas indústrias de calçados, de vestuário e de outros setores importantes para os Estados Unidos. Quando você aumenta em 25% a taxa de importação e coloca mais 12,5%, que foi de uma maneira mais generalizada, você vai para 37,5% de imposto. Isso cria um dificultador e, com certeza, a indústria brasileira perde competitividade da exportação para os Estados Unidos. Então é um problema grande, sério, que nós precisamos tratar com cuidado e atenção especial. Agora, acho que o caminho é o da negociação, não o da retaliação. Não é buscar retaliar os Estados Unidos com taxas de importação sobre os produtos americanos, porque eles já são taxados, em alguns casos até mais significativamente do que a exportação brasileira. Temos que negociar com o governo americano, discutir.

O senhor então não é favorável ao Brasil adotar a Lei da Reciprocidade, como foi anunciado pelo governo?

Não sou a favor, porque não vai nos levar a absolutamente nada. Não vai trazer nenhum benefício para a economia brasileira. E isso não é adotar uma postura passiva, é ser realista. Acho que temos que partir para negociar. Os motivos alegados pelo governo americano para esse tarifaço são frágeis, não são consistentes. Então são motivos que podem ser rebatidos, demonstrados, discutidos. E negociação é uma troca. Quando se entra numa negociação, você está disposto a levar suas ideias, mas também a aceitar algumas colocações. Então essa negociação é importante. Temos que chegar lá e mostrar a realidade econômica brasileira. Me parece que o governo do presidente Trump quer negociar. Isso depende de nós também termos essa intenção e partirmos para essa discussão.

O governo demorou a agir?

Acho que a negociação é o único caminho que temos para realmente resolver essa questão do tarifaço, que foi decidido de maneira unilateral e baseada em levantamentos ou informações que não são corretas. O Brasil tem um grande espaço para abrir essa negociação. Agora, acho que estamos agindo tarde, já devíamos ter agido desde antes, quando havia uma ameaça concreta. Não era uma ameaça que se poderia relegar. O Brasil tinha que ter começado e aberto negociações antes. Acho que retardamos e agora estamos correndo atrás do prejuízo. Podíamos ter, de uma maneira bem prática e pragmática, sentado à mesa e levado nossas argumentações e saber principalmente quais eram as questões levantadas pelo governo americano, que poderiam ter sido refutadas de maneira elegante e concreta, e não teríamos esse tarifaço.

O Brasil pode enfrentar uma potência como os Estados Unidos?

Acho que a gente é soberano, temos que manter a nossa democracia, que é nova em comparação com outros países. Temos que manter as nossas instituições respeitáveis, mas temos que fazer o nosso dever de casa também. Então a gente tem que ir lá, discutir, negociar. Não temos que ter receio dessa negociação. Temos que chegar e colocar na mesa o que nós podemos ceder e o que nós queremos em troca.

E quanto a buscar novos mercados, como o governo federal vem fazendo?

É uma alternativa, mas exportar não é uma coisa que você consegue fazer do dia para a noite. Abrir um mercado fora, em outro país, é um investimento de médio e longo prazo, que demanda recurso financeiro, demanda uma atuação de presença, de negociações políticas. Não é uma coisa simples. Acho que temos dois caminhos. Primeiro, procurar ajudar as empresas e os setores que estão sendo prejudicados. O governo está lançando agora o Plano Brasil Soberano 3, com financiamento para a indústria. Mas também precisamos negociar com os Estados Unidos.

Esse programa é um socorro emergencial?

É um paliativo, porque, na realidade, a taxa de juros do Brasil é enorme, é a segunda ou terceira maior do mundo. É realmente um absurdo, e esse paliativo diminui um pouco o custo financeiro. Mas não resolve o problema, que é de produção e é estrutural, e pode ocasionar, por exemplo, a redução de emprego. O Brasil Soberano 3 ajuda as empresas a se manterem durante algum tempo com o financiamento, mas isso vai ter um custo. Que é mais baixo do que os juros hoje, mas também não é sem custo. Se você considerar uma empresa que não está conseguindo produzir nem vender o seu produto e que tem uma margem pequena, esse custo é muito alto ainda. Então esse fundo realmente é algo que pode ajudar por pouco tempo.

E qual seria a solução?

O problema só será resolvido aumentando a produtividade, a produção, o mercado. Temos que ter outras medidas dentro do programa da indústria nacional, um conjunto de ações que precisam ser tomadas. O Brasil Soberano é um remédio que não vai resolver o problema da doença da indústria nesse momento.

Em sua história, o país praticamente aboliu o transporte ferroviário de cargas, priorizando o rodoviário, de carretas e caminhões. Isso é um erro?

Acho que o Brasil sempre investiu muito pouco em ferrovias, isso é histórico. A ferrovia é um meio de transporte que deveria ser usado num país com o tamanho do nosso de maneira mais consistente, com grandes distâncias e com cargas pesadas para aliviar as rodovias. Precisamos tanto de ferrovias como de transporte marítimo. Temos uma grande extensão de costa brasileira que permitiria fazer o transporte de cabotagem. Então esses dois investimentos são altamente necessários no Brasil. Temos os investimentos que estão sendo feitos na Transnordestina e outros em ferrovias, principalmente no Centro-Oeste. São investimentos importantíssimos, mas, no Brasil, são muito demorados. Enquanto países como a China constroem ferrovias em um, dois ou três anos, no Brasil demoram dez, 12 ou 15 anos para fazer uma ferrovia. Esse é o nosso absurdo. E qual é o problema? É que nós não temos dinheiro. A União não tem recurso para poder investir.

Por que não tem recurso?

Talvez porque gaste em lugares indevidos. Então, às vezes, os investimentos que mais ajudariam a população brasileira, a indústria, as empresas e o setor agrícola a transportar seus produtos, como ferrovias e cabotagem, não são feitos porque realmente faltam recursos. E falta talvez até disposição para enfrentar os problemas que são advindos de um projeto de ferrovia, como questões ambientais e de logística. Mas o Brasil precisa muito de investimentos em infraestrutura.

O governo brasileiro continua gastando muito, mas gastando mal?

Olha, eu acho que isso é quase que o normal no Brasil nos últimos anos. Não estou falando deste governo do presidente Lula, mas das últimas experiências que tivemos. Temos um gasto excessivo e de má qualidade.

O Nordeste é um destaque hoje, sobretudo quando se fala em energias renováveis e tecnologia. Então veio o impacto do tarifaço. Quais são os caminhos que o senhor encontra no Nordeste?

O Nordeste tem muitas vantagens competitivas para atrair indústrias, não só nesse momento, mas de maneira geral. A localização, a proximidade tanto com a América do Norte como com a Europa, tudo isso é um facilitador muito grande. E hoje o Nordeste tem portos excelentes, de ótima qualidade, e um diferencial muito grande, que é a condição de produção de energia renovável, tanto eólica como fotovoltaica. O Nordeste tem uma capacidade enorme e, através dessas vantagens, pode atrair outros setores de indústrias limpas, daquelas que estão buscando big datas, disponibilidade de energias de custo mais baixo, de energia limpa. O Nordeste tinha que explorar essas vantagens que tem na atração das indústrias. E também tem que investir em infraestrutura e em turismo, que pode transformar uma região. E o Nordeste tem uma vantagem enorme também nesse aspecto, de atrair turistas.

Além da questão dos juros, o que mais preocupa o empresariado nacional?

São muitos temas, mas vou apontar a questão tributária no Brasil. A gente tem uma preocupação muito grande com relação às alíquotas. E, no Brasil, se o governo precisa de mais dinheiro para fazer alguma ação, ele aumenta o imposto. Aí precisa reduzir, fazer um subsídio para o combustível porque o petróleo aumentou de preço, então precisa de dinheiro para também compensar esse subsídio. E onde vai buscar? Na sociedade. Então, na realidade, está sempre tirando do mesmo saco, porque sempre está saindo do bolso da sociedade brasileira. Quem paga imposto, na realidade, não é a empresa, é o cidadão que consome. A empresa é a repassadora desse imposto. E, quando aumenta o imposto, diminui o mercado, porque torna o produto brasileiro mais caro.

Ainda se sonega muito no Brasil?

Olha, não sei dizer em que nível é estimada a sonegação no Brasil. Primeiro porque a Receita Federal sempre procurou reduzir a sonegação, e eu não vejo o empresário sério com o intuito de sonegar. Pelo contrário, vejo um empresariado responsável, que cumpre com suas obrigações e que se penaliza, e às vezes pega empréstimo para pagar imposto. Porque, muitas vezes, você paga o imposto antes de receber do seu cliente, então você está financiando o governo. Veja, sonegação tem que ser combatida, mas não a vejo como um meio de sobrevivência da empresa. A CNI jamais compactou com essa situação, nós condenamos a sonegação, porque, quando ela existe, é porque alguém está pagando mais. Isso não é algo que a indústria brasileira séria, competente e correta possa incentivar. Acho que, através de sistemas digitais e informatizados, a sonegação é cada vez menor. E a reforma tributária vai reduzi-la muito mais.

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