Ex-secretário de Alckmin mandou destruir documentos, diz auxiliar

A secretária que narrou a destruição de supostas provas, Tatiana Mendes Campos, 33, foi voluntariamente à Polícia Federal contar sobre a ordem que teria recebido de Casagrande para triturar documentos

Em busca de voto útil, Alckmin repete discurso de Covas de 1989Em busca de voto útil, Alckmin repete discurso de Covas de 1989 - Foto: Divulgação / Facebook

O ex-secretário de Logística e Transportes do governo de Geraldo Alckmin (PSDB), Laurence Casagrande, mandou triturar documentos dentro do órgão público quando estava no cargo, segundo o depoimento de uma secretária à Polícia Federal. A Folha obteve uma cópia do documento sigiloso. O relato da secretária foi um dos motivos citados pela juíza Maria Isabel do Prado, da 5ª Vara Federal Criminal de SP, para decretar a prisão por tempo indeterminado do ex-secretário.

Também ex-presidente da Dersa, estatal paulista que administra rodovias, Casagrande foi preso com outros investigados no último dia 21, sob suspeita de ter atuado num esquema que resultou no superfaturamento de cerca de R$ 600 milhões na obra do Rodoanel Norte, segundo o TCU. O Rodoanel é uma das vitrines de Alckmin, pré-candidato à Presidência pelo PSDB.

A secretária que narrou a destruição de supostas provas, Tatiana Mendes Campos, 33, foi voluntariamente à Polícia Federal contar sobre a ordem que teria recebido de Casagrande para triturar documentos. Ele diz que executou a tarefa junto com outra secretária, Valdineia Pavani.

Tatiana, que trabalhou por 11 meses com Casagrande na pasta dos Transportes, disse o seguinte: "Que os documentos a serem destruídos pela depoente e Valdineia foram separados pelo próprio Laurence e entregues à depoente em sua sala; que seguindo a ordem superior efetivou a destruição de todos os documentos sem saber o seu conteúdo, como de praxe". De acordo com a secretária, foi a única vez que Casagrande deu uma ordem dessa natureza a ela.

Ao deflagrar a operação em junho deste ano, os policiais descobriram na caixa de emails de Casagrande uma mensagem, datada de 12 de dezembro de 2017, em que ele determinava a destruição de documentos. Tatiana disse à PF que o email era verdadeiro e que foi a partir desta mensagem que ela a Valdineia trituraram os documentos separados pelo então secretário de Transportes.

Os policiais perguntaram se era normal a destruição de documentos naquela época do ano. Tatiana respondeu que não. Segundo ela, essa operação ocorre quando um secretário está deixando o cargo, o que só ocorreu no caso de Casagrande em abril deste ano, mais de quatro meses após a mensagem que ordenou a destruição de papéis. Casagrande também destruiu documentos por conta própria, segundo a secretária, numa trituradora que tinha na sua sala.

De acordo com Tatiana, "era comum ele pedir para chamar a 'moça da limpeza' para limpar sua trituradora". Isso ocorreu entre o início deste ano e abril, quando Casagrande deixou o cargo na Secretaria de Logística e Transportes e foi nomeado presidente da Cesp (Companhia Energética de São Paulo). Segundo ela, havia rumores na secretaria de que ele deixaria o cargo por causa das mudanças políticas: Márcio França (PSB) assumiria o governo em 6 de abril com a decisão de Alckmin de se candidatar à Presidência e a pasta seria entregue a outro grupo político. Foi o que de fato aconteceu na Secretaria de Transportes: saiu Casagrande, ligado a Saulo de Castro (secretário de Governo), mais próximo a Alckmin, e a pasta foi entregue ao PR.

A secretária afirma no depoimento que "quer consignar que sempre teve Laurence como uma pessoa muito séria e que assim que o mesmo tomou posse na Dersa fez uma grande reformulação no código de ética da empresa". A Secretaria de Transportes e a Dersa funcionam no mesmo prédio.

Vários tucanos davam como certa a soltura de Casagrande quando ele foi preso por cinco dias porque consideravam frágil a acusação de que ele assinou contratos superfaturados e teria sido conivente com o suposto esquema de superfaturamento no Rodoanel. Ele é apontado como um aliado ético do partido. O que mudou a situação de Casagrande foi a menção que os procuradores federais fizeram no pedido de prisão ao depoimento prestado pela secretária sobre a destruição de documentos.

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