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POLÍTICA

FHC declara voto em Doria à Presidência depois de mal-estar no PSDB provocado por encontro com Lula

O PSDB terá prévias em novembro, disputadas por Doria, Eduardo Leite, Tasso Jereissati e Arthur Virgílio

FHC e Doria, durante a reabertura do Museu da Língua Portuguesa FHC e Doria, durante a reabertura do Museu da Língua Portuguesa  - Foto: Governo do Estado de SP/Divulgação

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) declarou publicamente neste sábado (31) voto no governador de São Paulo e colega de partido, João Doria, para a Presidência da República em 2022. A sinalização ocorreu meses após o almoço de FHC com o pré-candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva.

"Ele é candidato à Presidência e tem o meu voto", disse o presidente de honra do PSDB, apontando para Doria, durante evento que fez parte da agenda de comemorações pela reinauguração do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. O governador riu e aplaudiu, em sinal de agradecimento.

FHC provocou mal-estar no partido em maio após participar de um encontro privado com Lula, que foi divulgado pelo petista em suas redes sociais como uma conversa em que os dois discutiram a democracia brasileira "e o descaso do governo Bolsonaro no enfrentamento da pandemia".


Na época, dirigentes tucanos reagiram mal e criticaram o ex-presidente pelo gesto, que foi considerado negativo para os esforços de construção de uma terceira via para o pleito de 2022. O PSDB terá prévias em novembro, disputadas por Doria, Eduardo Leite, Tasso Jereissati e Arthur Virgílio.

Diante da celeuma, FHC foi às redes sociais na ocasião reafirmar sua posição para, segundo ele, "evitar más interpretações. "PSDB deve lançar candidato e o apoiarei; se não o levarmos ao segundo turno, neste caso não apoiarei o atual mandante, mas quem a ele se oponha, mesmo o Lula", escreveu.

O ex-presidente tucano também teve uma reunião fechada com Doria dias após a publicação da foto com Lula. Segundo a coluna Painel, FHC defendeu na conversa uma candidatura do partido em 2022 e a realização de prévias.

A declaração de voto, neste sábado, foi feita na presença de uma plateia de convidados e de autoridades do Brasil e de outros países de língua portuguesa. Um dos políticos que estavam ao lado de Doria e Fernando Henrique era o ex-presidente Michel Temer (MDB), também entusiasta de uma alternativa à polarização entre Lula e Jair Bolsonaro (sem partido) prenunciada para as eleições do ano que vem.

Doria tem se dedicado a uma intensa agenda para tentar obter maioria de votos entre filiados e políticos de seu partido na disputa interna. Filiações de prefeitos, divulgação de vídeo com o mote "João vacinador" e um site que disponibiliza material para militantes marcam a ofensiva do governador.

Em viagens para buscar convencer seus pares a lhe darem a chance de concorrer ao Planalto, o paulista tem disparado críticas a Bolsonaro e a Lula, chamando-os de "negacionista" e "corrupto", respectivamente. Já o próprio Doria é apresentado como "vacinador", em referência ao empenho do Governo de São Paulo para fazer deslanchar a vacinação contra a Covid-19 no estado e no Brasil, e "a cara limpa da paz e do consenso", alguém que "não viveu em berço de ouro" como se pensa.

No período da divulgação da foto com Lula, membros do PT afirmaram que a aproximação era positiva porque ajudaria a reforçar a imagem de um candidato conciliador, que dialoga com forças distintas e respeita adversários, características que ele tem procurado exaltar para se contrapor ao atual presidente.

Já Bolsonaro atacou a reunião de seus dois opositores. Sem citar nomes, disse durante uma viagem ao Maranhão naquela semana: "Falando em política, para o ano que vem, já tem uma chapa formada: um ladrão candidato a presidente e um vagabundo como vice".

Aliados do presidente, inclusive o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), seu filho, também atacaram a reunião e insinuaram que os dois ex-presidentes temem a reeleição do atual titular do Planalto. A presidente nacional do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann (PR), reagiu: "Só mesmo Bolsonaro é incapaz de aceitar que dois ex-presidentes podem conversar civilizadamente sobre os graves problemas do país, como fizeram Lula e FHC".

"O Brasil quer voltar a debater o futuro pela política. O ódio e a mentira deram no que deram", escreveu Gleisi em uma rede social, na época dos fatos. Em março deste ano, FHC declarou sentir "certo mal-estar" por não ter votado em Fernando Haddad (PT) contra Bolsonaro em 2018. Ele demonstrou, em entrevista à revista Época, arrependimento por ter anulado seu voto no segundo turno da eleição presidencial daquele ano.

Como mostrou a Folha, os pré-candidatos da chamada terceira via têm aparecido com índices tímidos nas pesquisas de opinião. O levantamento mais recente do Datafolha, de julho, mostrou que os nomes que são aposta desse campo são lembrados por um percentual ínfimo dos eleitores.

Na pesquisa, Lula lidera com folga. Em um dos cenários simulados pelo instituto, o petista tem 46% e é seguido por Bolsonaro (25%), Ciro Gomes (PDT, 8%) e, em quarto lugar, Doria (5%). O governador paulista tem 37% de rejeição, empatado com Lula. Já Bolsonaro tem 59% dos eleitores a dizer que não votam nele de jeito nenhum. O tucano enfrenta grande dificuldade no Nordeste, onde alcança apenas 1% de intenção de votos.

A pesquisa também mostrou Doria ultrapassando Bolsonaro em um eventual segundo turno, em que venceria por 46% a 35%. Em um embate direto com Lula, no entanto, o tucano perderia para o petista, com um placar de 56% a 22%.

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