Grupo ligado a Marina tinha negócios com Lidermac

Contratos mais vantajosos foram em parceria com a construtora carioca Construcap, coordenada por aliados da ex-ministra, que chegou a ser vice, e depois titular, na chapa do ex-governador Eduardo Campos à presidência, em 2014

Escritório da Lidermac tinha negócios com a família de aliado da ex-ministra Escritório da Lidermac tinha negócios com a família de aliado da ex-ministra  - Foto: Divulgação

A construtora Lidermac, investigada por participação em um esquema de lavagem de dinheiro, tem como um dos contratos mais volumosos com o Governo do Estado uma parceria com a construtora carioca Construcap, coordenada por aliados da ex-ministra Marina Silva, que chegou a ser vice, e depois titular, na chapa do ex-governador Eduardo Campos à presidência, em 2014.

O consórcio formado pelas empresas foi responsável pela construção do acesso viário da fábrica da Fiat, publicado no Diário Oficial, em agosto de 2013, e foi uma das contrapartidas do Estado no investimento privado. O custo da obra foi orçado em R$ 142 milhões.

A Construcap foi alvo da Operação Abismo, na 31° fase da Operação Lava Jato, quando foram levados em condução coercitiva Eduardo e Roberto Capobianco, da família do ambientalista João Paulo Capobianco, coordenador da campanha da ex-ministra Marina Silva, em 2010, e um dos colaboradores do seu projeto eleitoral em 2014. Neste pleito, Silva e o ex-governador Eduardo Campos fizeram uma aliança na eleição presidencial.

Na campanha de 2014, a Construcap doou para o comitê da campanha presidencial socialista o valor de R$ 464.309,23. Em 2010, a empreiteira também foi uma das doadoras oficiais da campanha de Marina Silva. O projeto eleitoral recebeu R$ 3,15 milhões de empreiteiras, entre elas, a Construcap. Além da construtora carioca, o montante também recebeu doações feitas pela Camargo Correia, Andrade Gutierrez e Promon S/A.

Abismo

Em julho de 2017, a Polícia Federal deflagrou a Operação Abismo para investigar suspeitas de desvios em licitações para a reforma do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes). A suspeita é que as firmas integrantes do consórcio -integrado pelas empreiteiras OAS, Carioca Engenharia, Construbase Engenharia, Schahin Engenharia e Construcap CCPS Engenharia - formaram um cartel para fixar preços e fraudar a licitação da reforma do centro de pesquisa da Petrobras.

Delatores

João Paulo Capobianco não participa comercialmente dos negócios da família. No entanto, delatores da Carioca Engenharia teriam citado o empresário como representante da empresa em reuniões que teriam resultado no direcionamento da obra.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de Marina Silva, que ressaltou que João Capobianco não foi coordenador da campanha de 2014, mas atuou como coordenador apenas do projeto presidencial de 2010. Também foram procuradas a Construcap e o empresário João Capobianco, sem sucesso.

Vórtex

A operação - um desdobramento da Turbulência - veio a tona na última terça-feira (31) após investigações mostrarem que a Lidermac repassou, em julho de 2014, o montante de R$ 159.910,00 para a Câmara e Vasconcelos, já investigada na Turbulência, e que, segundo a Polícia Federal (PF), repassou esse mesmo valor, dois dias depois, para a dona do Cessna Citation, aeronave que vitimou o ex-governador Eduardo Campos (PSB) durante a campanha presidencial em agosto de 2014. A conta bancária da Câmara e Vasconcelos teria sido usada, segundo a PF, como uma espécie de “conta de passagem”.

Na manhã da última terça (31), seis mandados de busca e apreensão foram cumpridos e quatro de conduções coercitivas expedidos em nome dos sócios Rodrigo Leicht Carneiro Leão, Gerson Carneiro Leão Neto, Glauco José Carneiro Leão Filho e Camila Leicht Carneiro Leão, porém só três foram levados para prestar depoimento. A PF, todavia, disse que a quarta pessoa, que não estava no Recife, se comprometeu a se apresentar.

Contratos

Além de estar ligada ao esquema de compra do jatinho, a empresa também firmou contratos milionários com o Governo do Estado entre 2010 a 2016, com valores que giram em torno de R$ 87 milhões, segundo a Polícia Federal. Desse montante, R$ 75 milhões foram firmados até 2014, período no qual Eduardo Campos estava à frente do Governo. "Esse fato não quer dizer que esses contratos são irregulares. Mas o fato de ter sido usado uma empresa como uma conta de passagem, é algo típico de quando ocorre lavagem de dinheiro", explicou o superintendente da PF em Pernambuco, Marcello Diniz Cordeiro.

Doações
Ao mesmo tempo em que os contratos aumentaram, as doações eleitorais da empresa saltaram de R$ 30 mil, em 2006, para R$ 3,8 milhões, em 2014, segundo a PF. Extraoficialmente, uma fonte ligada à investigação afirmou que, deste montante, R$ 1,5 milhão teria sido para a campanha do governador Paulo Câmara via PSB.

Entretanto, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2014, a empresa doou R$ 1.650.000,00 para campanhas de seis partidos da então Frente Popular, sendo R$ 500 mil destinados ao Diretório Nacional do PSB, quantia que foi repassada à campanha do governador Paulo Câmara (PSB). Atualmente, as empresas privadas estão proibidas de fazer doações eleitorais por determinação do Supremo Tribunal Federal.

A Vórtex, que é uma segunda fase da Turbulência, foi iniciada no segundo semestre de 2016. Na época em que houve o arquivamento da investigação de organização criminosa no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) - novembro de 2016 - a força tarefa do Ministério Público Federal (MPF) identificou irregularidades que levavam ao crime de lavagem de dinheiro, com cruzamento de dados bancários e dados do Tribunal de Contas da União, Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE) e Controladoria-Geral da União (CGU).

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