Inconformismo que incendeia o País

Ocupações de estudantes são consideradas movimentos políticos, apesar de não partidários

Greve geralGreve geral - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Tratadas por setores do Governo Federal como mobilizações partidárias, as manifestações e ocupações das escolas e universidades - que começaram há mais de 30 dias - vêm tomando corpo em todo o País. Em Pernambuco, pelo menos 40 unidades de ensino entre universidades federais, estaduais e escolas, além da reitoria da Universidade Católica de Pernambuco, seguem tomadas pelos estudantes.

As movimentações evidenciam que, ao contrário do que pensa o senso comum, os estudantes sabem da importância das universidades e das escolas para a sociedade. Mais do que isso: revela uma profunda insatisfação com as políticas públicas para o setor e, principalmente, repúdio aos rumos e às denúncias que rondam a política. A geração que deixou suas casas e invadiu prédios públicos está, principalmente, inconformada com a falta de diálogo com o Governo Federal.

Segundo o sociólogo Nadilson Silva, essas movimentações são o resultado de um processo de “conscientização dos estudantes”, iniciado ainda em 2013, com as manifestações do Passe Livre, onde os discentes assumiram um “papel ativo na sociedade, independentemente de vinculação a partidos políticos", disse.

O jovem, ainda de acordo com ele, começa a ficar “mais engajado” com aquilo que é relacionado aos direitos e deveres; e com o papel do Estado na educação. Além disso, para Nadilson, há nas ocupações questionamentos quanto à legitimidade do Governo Temer. “Por trás da movimentação contra a PEC e as medidas está, também, à movimentação contra Temer”.

Altivez
Embora não seja considerado vitorioso em sua totalidade - por não ser visto como um empecilho à aprovação da PEC -, o movimento de ocupações das unidades de educação é visto com interesse por especialistas, que observam nos atos uma retomada dos movimentos sociais.

A cientista política Priscila Lapa diz que as ocupações se caracterizam como movimentos politizados. "Todo movimento que busca a intervenção em alguma ação do Governo é político. Não, necessariamente, partidário, mas político. E mesmo que não consiga o impedimento da aprovação no Senado, mostrou que pode sim fazer diferença. Prova disso, foi o adiamento do Enem, algo que nunca aconteceu antes”, diz.

O cientista político Rudá Ricci vai além: para ele os estudantes iniciaram, talvez, “o movimento que vai virar uma onda de mobilizações” contra o Planalto. Rudá chama atenção ainda para os prejuízos que podem atingir o governo Temer.

“O governo estimulou as ocupações por não ter negociado nada com os estudantes. E essa divulgação do cheque pago para Temer durante a campanha torna a situação dele delicada. O que se fala nos bastidores do Senado é que ele está ponderando em adiar o segundo turno da votação da PEC. Essa possibilidade. de alguma maneira, seria um alento para os estudantes”, completou.

Faculdade de Direito
Símbolo de resistência política, a Faculdade de Direito do Recife também foi ocupada. O bastião recebeu as manifestações desde a noite da última quinta, quando o grupo interditou o espaço.

Historicamente simbólica para o Estado - reconhecido pelo Império como a província mais revolucionária por preferir à República à monarquia -, a Faculdade foi palco de diversas lutas libertárias, como a abolição , e ainda durante a Ditadura Militar, quando os presos políticos ouviam os badalos do sino da instituição para contar as horas e os dias. Durante as movimentações anti e pró-impeachment, o local foi também espaço de movimentações da população.

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