'Intervenção no Rio é jogo de xadrez de Temer', afirma especialista

Presidente do Fórum de Segurança Pública diz que intervenção vai surtir efeitos paliativos, como a desarticulação de facções criminosas e um recrudescimento nos índices de violência

Sociólogo Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança PúblicaSociólogo Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública - Foto: Reprodução / Youtube

Jogar para as Forças Armadas o comando da segurança pública do Rio de Janeiro foi uma jogada profissional de xadrez do governo de Michel Temer (MDB), que não conseguiu implementar medidas de fôlego na área. Essa é a opinião do sociólogo Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Em entrevista à reportagem, Lima diz que a intervenção federal no Rio vai surtir, em um primeiro momento, efeitos paliativos, como a desarticulação de facções criminosas e um recrudescimento nos índices de violência. "Mas serão momentâneos, porque pelo desenho que aí está nada foi feito para atacar a complexidade da questão, que envolve um trabalho conjunto das forças de segurança."

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Confira trechos da entrevista concedida à reportagem.

PERGUNTA - Como o senhor analisa a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro?
Renato Sérgio de Lima - A intervenção é uma medida que vai deslocar a atenção por completo da pauta muito ruim da área que já era tocada por este governo. Um exemplo é o Plano Nacional de Segurança Pública, criado há um ano e que não obteve nenhum efeito prático. É um jogo profissional de xadrez habilidoso para atenuar um problema que não será resolvido agora e vai cair em cheio no colo do próximo presidente.

P. - Na prática, como funcionará a intervenção?
RL - O interventor [general Walter Braga Netto] passa a assumir toda a gestão da pasta da segurança, que inclui o orçamento, as estratégias de inteligência e os recursos humanos, como os bombeiros e as polícias Civil e Militar. Eu vejo que os policiais militares não terão muito problema nisso porque já são vinculados ao Exército e as culturas das duas instituições não são estranhas. Quem pode não gostar muito da ideia será a Polícia Civil, que vai perder sua autonomia.

P. - Por que foi preciso fazer a intervenção no Rio?
RL - O Rio chegou a esse ponto porque é um Estado central do país e tem forte cobertura midiática. Tudo que acontece lá ganha força. Mas nos esquecemos que o Rio vive a mesma explosão de casos de violência de Ceará, Rio Grande do Norte e Goiás. A intervenção foi uma jogada política para responder a uma situação de descalabro civil que se impôs e ganhou mais força com as últimas cenas de arrastões no Carnaval e de seu gestor declarando falhas nos planos de segurança.

P. - O senhor acredita que a intervenção poderá reduzir os índices de violência no Rio?
RL - Em um primeiro momento sim porque não estamos falando apenas da presença de homens das Forças Armadas, que já estão no Rio desde o ano passado. Haverá um novo desenho de estratégias e substituições de peças que não estavam dando certo. Crimes a mando de facções criminosas nas comunidades poderão cair, mas ainda acho que a medida vai gerar apenas um 'efeito-tampão'. É hora de discutir como as polícias estão organizadas, desarticular o crime organizado de dentro dos presídios e investir pesado em inteligência.

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