Lavareda: Lula tem discreto favoritismo, mas 2026 não é jogo jogado
O cientista político Antônio Lavareda foi o entrevistado da semana no podcast "Direto de Brasília", apresentado pelo jornalista Magno Martins
O ano de 2026 começa praticamente dando a largada para a sucessão presidencial. E o atual ocupante da cadeira, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), inicia o último ano de seu terceiro mandato com “discreto favoritismo” para a reeleição, na visão do cientista político Antônio Lavareda. Em entrevista ao podcast "Direto de Brasília", apresentado por este blogueiro, o estudioso ressaltou que o pleito ainda não está definido, mas o cenário atual seria vantajoso para o mandatário da República.
“Nós vamos para uma eleição no ano que vem na qual deve ser dito: hoje, Lula é o favorito, mas ele tem um discreto favoritismo. Não é um jogo jogado, a eleição de 2026 ainda não está resolvida. Vai depender de fatores internos da própria campanha, vai depender de escândalos, se a economia vai na direção projetada, se anda de lado ou até descarrila. Não é um jogo jogado, mas o Lula começa o ano com um discreto favoritismo. Vale lembrar que das nove eleições presidenciais que nós tivemos desde 1989, quem termina o ano anterior em primeiro lugar nas pesquisas, que é como o Lula termina hoje, ganhou a eleição em seis ocasiões”, destaca Lavareda.
Para o cientista político, um dos principais desafios do Brasil hoje é vencer a polarização que “não é simétrica como na França, onde a extrema direita disputará com a extrema esquerda”. “No Brasil, nós temos uma polarização que é ultradireita versus centro-esquerda. Lula sempre fez governos transversais, que, no popular, se chama de balaio de gatos, de cores diferentes do ponto de vista ideológico ou correntes. Acredito que, para melhorar o clima político do país, precisa ter um conjunto de circunstâncias, como uma economia caminhando bem, com o país crescendo. Só o crescimento econômico ajuda a diminuir as tensões numa sociedade”, observou.
“Precisa também fazer um combate eficiente às fake news, enfrentar a necessidade de regulação das redes sociais, que é algo muito difícil no Brasil a preços de hoje. Você precisa ter um aperfeiçoamento institucional, uma reforma do sistema eleitoral. Aliás, você precisa de pequenas reformas em todos os poderes, haja vista essa crise na qual o Judiciário está mergulhado no momento”, completou Lavareda.
Sobre o campo da oposição, o cientista político cravou que “a divisão faz a força”, em alusão à estratégia de múltiplas candidaturas não ser algo que enfraqueça o grupo. Ele destacou o potencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-SP), recentemente ungido como candidato do pai, Jair Bolsonaro.
“Flávio é tão competitivo quanto seria o pai se pudesse participar da eleição. O eleitor que votaria em Jair Bolsonaro provavelmente votará em Flávio. Não vejo grandes diferenças. Essa rejeição ao Flávio diminuirá ao longo do tempo, à medida que ficar mais claro para todo o eleitorado bolsonarista que ele de fato é um candidato ungido por seu pai. Então acho que ele terá de 90% a 95% daquele segmento eleitoral que votaria no ex-presidente. Não acho que o Flávio seria inviável. O que vai definir a eleição é a rejeição ao Lula. O candidato que o enfrentar no segundo turno vai ser diretamente beneficiado por essa rejeição. Então a aprovação e rejeição do Lula hoje são as variáveis básicas para a elaboração de qualquer prognóstico que se queira estimar com relação a 2026”, ponderou o cientista político.
Lembrando as campanhas que fez no passado, Lavareda discorda da visão de que a direita estaria desarrumada e aponta o principal problema para Lula em 2026. “Eu tenho uma perspectiva totalmente diferente (da maioria dos analistas). Já pilotei várias campanhas no Brasil todo. Desde que foi instituído o segundo turno, um dos piores problemas para quem disputa na cadeira, que é o caso do Lula, é ter uma oposição muito fragmentada. Porque o eleitorado deles se junta no segundo turno inexoravelmente, independentemente do acordo dos líderes. Ou seja, o eleitor se reagrega por adjacência ideológica. No caso, havendo segundo turno, vou deixar uma frase para você: a divisão faz a força”, cravou.
Sobre o posicionamento do centrão, o cientista político ironizou, dizendo que seria uma “resposta de um milhão de dólares”. “Não temos uma resposta definitiva, como nada no centrão é definitivo. O centrão não é alguma coisa que tenha concretude, materialidade. Como eu digo, o centrão é uma entidade metafísica, é uma maçonaria sem loja. Ninguém jamais ouviu falar de quem é a diretoria do centrão, quem é a comissão dirigente. Não há presidente, não há o maior líder do centrão. As expressões são sempre ‘líderes do centrão’, ‘membros do centrão’, então ele é amorfo, não tem uma definição, e obviamente a marca principal dele é o pragmatismo, que por definição é contextual. Ou seja, a racionalidade se adapta às circunstâncias. E se as circunstâncias mudam, as posições mudam também. Mas acho que, a preços de hoje, se a decisão fosse nesse momento, boa parte do centrão liberará seus diretórios estaduais para apoiarem os candidatos à presidência que lhes convierem”, concluiu Lavareda.

