Ter, 16 de Junho

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Política

Moreira Franco: Brasil não aponta caminhos

Autor do recém-lançado livro "Política como Destino", o ex-ministro e ex-governador do Rio de Janeiro foi o entrevistado da semana no podcast "Direto de Brasília", apresentado pelo jornalista Magno Martins

Moreira Franco (D) ele fez uma análise das últimas seis décadas da política nacionalMoreira Franco (D) ele fez uma análise das últimas seis décadas da política nacional - Foto: Reprodução: Youtube/FolhadePernambuco

Autor do recém-lançado livro "Política como Destino", o ex-ministro e ex-governador do Rio de Janeiro, Moreira Franco (MDB), avalia que as dificuldades do atual momento do Brasil ainda derivam do processo de redemocratização. Em entrevista ao podcast "Direto de Brasília", ele fez uma análise das últimas seis décadas da política nacional, ressaltou que o problema da segurança pública precisa ser enfrentado e que as instituições precisam cumprir seus papéis em vez de disputar o poder. "Entramos numa trilha que não está nos levando de maneira tranquila a construir uma sociedade democrática que tenha estabilidade", resumiu.

O seu livro faz um balanço dessas quase seis décadas de política nacional. Como tem sido a repercussão?

As pessoas têm reclamado porque o livro tem mais de mil páginas (risos), mas foram episódios muito ricos. O país vivia basicamente um processo de transição entre um regime autoritário para um democrático. Evidente que um processo dessa natureza é muito rico em episódios, problemas e soluções. Tive a oportunidade de militar no MDB com políticos extremamente competentes, capazes, bem preparados, e conseguimos sair de um regime autoritário e duro sem praticar nenhum ato de violência.

Um episódio importante da transição foi a criação da Frente Liberal, que apoiou Tancredo Neves. É possível afirmar que, se não fosse esse movimento, Paulo Maluf teria vencido no colégio eleitoral?

Não acredito. Acho que havia ambiente favorável a Tancredo até do lado dos que não estavam no MDB. Havia muita restrição ao Maluf. O (ex-ministro do Interior) Mário Andreazza disputava com ele e era mais maleável. Mas nós tínhamos um personagem extremamente rigoroso, experiente, vivido, que foi o doutor Tancredo, que conseguiu fazer uma frente ampla, trazendo não só aqueles que trabalharam no MDB e nos movimentos, mas a Frente Liberal, e conseguiu formar chapa com José Sarney. Até eleitoralmente, se o voto fosse direto, seria uma chapa muito forte.

O ex-senador pernambucano Marco Maciel teve um importante papel na transição. É verdade que Tancredo o queria como vice, e não Sarney?

Eu nunca soube disso. Gostava muito de Marco Maciel. Doutor Tancredo sabia que precisava ter um vice que fosse mais amplo do que ele próprio, que viesse do outro lado. Maciel seria um nome que teria todas as condições, pela biografia que tinha, para ser o vice dele. Mas não sei se iria ser possível chegar lá. Talvez até pudesse, porque o vice acabou sendo o Sarney, que fazia parte do mesmo núcleo do PDS que Marco Maciel, Jorge Bornhausen e outros dirigentes da Arena.

Sarney assumiu a presidência com a morte de Tancredo. Ele ficou receoso?

Nunca soube disso. Evidentemente era uma situação muito traumática. É atemorizante para qualquer um. Eu estava naquele momento, as pessoas estavam tensas, foi uma coisa surpreendente, depois de tanta articulação, tanta luta, da dedicação de pessoas que praticamente deram a parte final de suas vidas políticas para restabelecer a vida democrática. E aquilo tudo ser vítima de uma fatalidade.

O governo Sarney foi criticado economicamente, mas, do ponto de vista político, garantiu realizar a transição. Em que um governo Tancredo seria diferente?

Não saberia lhe responder isso. O presidente Sarney conseguiu ultrapassar dificuldades muito profundas e amplas naquele momento, conseguiu administrar a frustração pela morte de doutor Tancredo com muita sabedoria e entregou um país institucionalmente organizado, do ponto de vista partidário, das instituições, mesmo com uma situação econômica muito difícil. Mas buscando ainda caminhos que nos permitissem dar continuidade ao processo de redemocratização. Na época nem éramos do mesmo partido, mas reconheço a contribuição que ele deu e que nos permitiu acreditar na democracia e lutar por ela.

Então veio a primeira eleição direta e o país elegeu Fernando Collor, que dois anos depois sofreu impeachment acusado de corrupção. O país é sem sorte?

Esse é um dos temas que procurei descrever, o que vi. Nós conquistamos numa luta incrível. De uma hora para outra, como você diz, viu-se que estivemos à beira de perder tudo. Não é trivial. E, como essa conquista se deu nesse ambiente de inquietação, nós estamos vivendo essas dificuldades até agora. Procurei mostrar os descaminhos desses processos. E creio que foi uma fatalidade, falta de sorte talvez.

Quais seriam esses descaminhos?

As dificuldades foram muitas, é um acúmulo de problemas que surgiram e foram se somando, e cada vez ficava mais difícil dar solução, como hoje é muito difícil. Para resolver o problema que estamos vivendo do ponto de vista institucional, político e partidário. Veja o funcionamento do Congresso Nacional, a quantidade de partidos. Você não sabe quem é quem, o que querem, as dificuldades se dão de maneira muito pouco debatida, com reflexão muito baixa. Uma instituição atropelando a outra, sem o rito definido na Constituição. Não é um momento fácil esse que estamos vivendo, é o que chamo de descaminhos. Entramos numa trilha que não está nos levando de maneira tranquila a construir uma sociedade democrática que tenha estabilidade.

O senhor governou o Rio de Janeiro há 40 anos, e hoje o estado vive uma situação dramática no tocante à segurança pública. Qual sua percepção?

Lamentavelmente, no Brasil, essa é a história. Não é só no Rio de Janeiro. Se você for a qualquer estado do Brasil hoje, o quadro é mais ou menos o mesmo. Não há normalidade institucional democrática nesse processo. Esse é o grande problema que vivemos. O Rio começou com o Comando Vermelho, depois outros grupos foram se formando, e hoje estão instalados no Brasil inteiro, e se comunicam. E a vida política está vendo os problemas que surgem.

Mas esses grupos já estavam instalados quando o senhor era governador?

Naquela época já tinha o Comando Vermelho, que surgiu quando o ex-presidente Ernesto Geisel resolveu, no processo de reabertura, colocar presos políticos em um presídio normal, na Ilha Grande, misturando com presos que foram cooptados pelo crime e, em decorrência disso, acabaram lá. Os militantes mais radicais que estavam lá por questão política começaram a fazer a cabeça dos demais presos. Daí surgiu o Comando Vermelho, que era a cor do Partido Comunista. Esse processo vem desde essa época e foi crescendo, e hoje está no Brasil inteiro. Esse é um grande problema que vivemos e tem que ser enfrentado, e não é fácil enfrentar. Não temos essa tradição, mas é inevitável que esse problema seja enfrentado com a seriedade e determinação que exige.

O senhor foi ministro de Dilma Rousseff (PT) e de Michel Temer (MDB). Qual foi, se é que houve, participação do vice no processo do impeachment?

Você conhece o presidente Temer. Em nenhum momento houve essa intenção, ao contrário. Junto com alguns companheiros, coordenamos um programa para tirar o país de uma crise econômica que já se vivia naquela época e restabelecer parâmetros que permitissem uma recomposição. Esse programa foi debatido, eu coordenei a conversa com as melhores cabeças que se tinha na época, elas davam sugestões. Com esse esforço, fizemos uma proposta chamada Ponte para o Futuro. Esse programa foi entregue ao presidente Temer, que na época era vice, e ele levou à presidente Dilma.

Dizem que o rompimento veio daí...

Ela não quis aceitar, achou que aquilo era uma tentativa de desprestigiá-la. Tratou o programa e o próprio presidente Michel de maneira pouco protocolar. E o processo de impeachment, é bom que não se esqueça. Como se pode falar em tentativa de golpe, ruptura ou de mau trato do vice, quando se tem um processo institucional, com ritos definidos na Constituição, presidido até seu momento final pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), na época o ministro Ricardo Lewandowski, que depois foi ministro da Justiça do presidente Lula (PT)? Não acho que procede uma avaliação que veja nesse processo qualquer desvio da responsabilidade institucional e moral do vice-presidente com a presidente. Não houve golpe.

Pegando o gancho dessa palavra, para o senhor que participou da redemocratização, houve tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023?

Eu não sou tão adepto dessa tese. Primeiro porque golpe se faz com Forças Armadas, e não tinha ali. Não conheço nenhum golpe militar sem que haja um exército. Nesse caso não houve, houve um movimento que se deu de maneira difusa, nas portas dos quartéis, uma invasão ao Congresso Nacional. Foi muito mais baderna e depredação do que propriamente a busca da violência para criar constrangimento de natureza política, com consequências de um golpe militar. Não existe golpe sem Forças Armadas, a história mostra que isso se dá quando existem homens e mulheres organizados de maneira tradicional, usando arma como instrumento de luta. Isso não houve, houve baderna.

E quanto à chamada minuta do golpe?

Nunca vi. Não me passa pela cabeça que se faça a minuta de um golpe. Não consigo ver isso. Se faz minuta de golpe em quartel. Não é possível que essas pessoas sejam tão despreparadas a esse ponto, e no Brasil, onde temos uma experiência vivida a custo muito alto e profundo para a população e para o país. Fazer uma coisa tão desorganizada, sem consistência, sem referências mais sólidas. Não acredito. Se tentaram fazer golpe, são incompetentes.

Mas quais as suas reflexões daquele momento até os dias atuais?

Aquilo vem sendo usado para criar um ambiente de ruptura, isso se enquadra no ambiente que estamos vivendo hoje no mundo. Em todos os países existem movimentos que contestam a realidade institucional. É um momento de mudança, sobretudo tecnológica. Estamos começando uma ordem institucional, tecnológica e política, e irá surgir uma nova ordem. Temos que estar preparados para ela.

Quais as suas perspectivas para o futuro do Brasil?

Nós já tivemos perspectivas de futuro muito mais generosas do que temos hoje. O país continua gastando mais do que tem, e quando se gasta mais, não dá certo. É um caminho muito rápido para a criação de dificuldades, aprofundamento de crises e frustrações. As instituições vivem momentos de grande dificuldade, todas questionadas, com escândalos incrivelmente altos, complexos, envolvendo vários níveis. Não estamos vivendo um momento que nos aponte um caminho e nos leve a uma realidade mais segura, completa, democrática e justa, que é o que todos queremos.

Há esperanças?

Esperanças eu sempre tenho. Creio que é muito triste para a minha geração chegar ao ponto em que estamos chegando. Dá uma tristeza muito grande, porque mostra os descaminhos que têm sido muito profundos, com muito lastro institucional. Mas não podemos entregar as armas, temos que continuar na luta. Acredito que ainda vamos chegar a ter um ambiente de um país que nós queremos e lutamos até hoje para termos. Não podemos recuar. Tem que perseverar.

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