MST anuncia que voltou a ocupar fazenda de coronel amigo de Temer

É a segunda vez que o MST age no local: em maio de 2016, eles foram à fazenda para "denunciar as conspirações golpistas de Temer"

Michel TemerMichel Temer - Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil

Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) anunciou nesta terça (25) a invasão de uma série de fazendas ligadas a políticos e empresários investigados sob suspeita de corrupção. Entre elas, estão as propriedades de Ricardo Teixeira, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e do coronel João Baptista Lima, amigo do presidente Michel Temer (PMDB).

A ação, segundo o movimento, é parte da Jornada Nacional de Lutas, em razão do Dia dos Trabalhadores Rurais nesta terça. O lema é "Corruptos, devolvam nossas terras!".

O MST afirma ainda ter invadido as propriedades de Blairo Maggi, ministro da Agricultura, em Rondonópolis (MT), a base militar de Alcântara, no Maranhão, a sede do Incra (Instituto Nacional da Reforma Agrária) em Sergipe e uma fazenda no Paraná.

João Pedro Stedile, líder nacional do MST, gravou um vídeo em que convoca o movimento a agir neste 25 de julho e diz que não há mais política pública para a questão agrária no país.

Ele menciona a medida provisória que permite a venda de assentamentos e o projeto de lei que autoriza a venda de venda de terras a estrangeiros.
"Não podemos nos acovardar diante de um governo corrupto, golpista e com data de validade já vencida", afirma Stedile na gravação. "Vamos dar uma demonstração à sociedade brasileira de que estamos firmes e não temos medo."

Lima 

É a segunda vez que o MST invade a fazenda de Lima. Em maio de 2016, eles foram à fazenda para "denunciar as conspirações golpistas de Temer". Afirmam que, naquela ocasião, encontraram cartas endereçadas a Temer e materiais de sua campanha a deputado federal de 2006.

Oficialmente, a propriedade, batizada de fazenda Esmeralda, está registrada parte no nome de Lima (749,1 hectares) e parte (1.245,84 hectares) no nome da Argeplan, escritório de arquitetura e engenharia de que o coronel é sócio.

Procurada pela reportagem nesta manhã, a Polícia Militar de Duartina confirma que há uma ocorrência em andamento na fazenda, mas não informou detalhes sobre o caso. O movimento afirma que há 800 militantes no local.

Lima coordenou todas as campanhas de Temer ao Congresso, desde 1986. Foi assessor de Temer na Secretaria da Segurança Pública nos governos Franco Montoro (1983-1987) e Luiz Antônio Fleury Filho (1991-1995).
Hoje, é um dos principais investigados pela Polícia Federal nos inquéritos envolvendo o presidente.

Executivos da JBS afirmaram, em acordo de delação, que a empresa deu R$ 1 milhão nas mãos de Lima, em 2014, como parte de um suposto acordo feito entre Temer e Joesley Batista.

Em maio, durante a Operação Patmos, a PF encontrou no escritório da Argeplan documentos que reforçavam o elo do coronel com o peemedebista.
Havia registros de reforma de imóveis de familiares de Temer, envelopes com movimentações bancárias, programação de pagamento do escritório político de Temer e recortes de reportagens, publicadas em jornais e revistas, sobre corrupção e propina ligadas ao presidente.

A reportagem não conseguiu localizar o coronel até as 10h.
Após a primeira ação do MST, no ano passado, a assessoria de imprensa de Temer afirmou, em nota, que ele "não tem propriedades rurais. Não é dono de fazenda em Duartina".

Nessa mesma ocasião, o coronel João Batista Lima Filho disse, também em nota, que a fazenda está no nome dele e de sua empresa, a Argeplan, que opera há 40 anos.

Teixeira

Ainda de acordo com o movimento, mais de 300 famílias ocuparam a fazenda de Ricardo Teixeira em Piraí, região do sul fluminense. Teixeira é acusado na Espanha e nos EUA de participar de um esquema de corrupção na venda de direitos dos jogos da seleção e de torneios internacionais.

Desde então, ele nunca mais deixou o Brasil temendo ser preso.
De acordo com o MST, a máfia no futebol brasileiro é produto de exportação. Na nota, o movimento diz que Ricardo Teixeira não só desencadeou todo um sistema de estelionato sobre o futebol e lavagem de dinheiro no Brasil, segundo estimam procuradores do Ministério Público Federal, como sua expertise em corrupção no futebol é pauta do FBI e da polícia espanhola.

Nesta segunda (24), a Procuradoria-Geral da República pediu a transferência para o Brasil do procedimento penal instaurado na Espanha contra o dirigente, que comandou a CBF por mai de duas décadas.

O objetivo do órgão é ter acesso aos detalhes e provas da investigação espanhola para viabilizar uma investigação ao cartola no Brasil.
A fazenda Santa Rosa, de Teixeira, foi o elo entre o ex-presidente da CBF e a Ailanto Marketing, investigada por superfaturar amistoso da seleção com Portugal, em novembro de 2008.

A Ailanto pertence a Sandro Rosell, ex-presidente do Barcelona, preso desde maio na Espanha. O cartola espanhol é acusado de lavar dinheiro, entre outros crimes, em negociações envolvendo os direitos da seleção.

A Ailanto foi dona dona de uma empresa que tinha como endereço a fazenda de Teixeira. A VSV Agropecuária Empreendimentos Ltda arrendou a fazenda do cartola em 2008 e pagaria R$ 600 mil ao longo de cinco anos. O jogo foi bancado por R$ 8,5 milhões em dinheiro público. Segundo funcionários da fazenda, a VSV nunca trabalhou lá.

Na época, Teixeira informou que a ligação da VSV Agropecuária Empreendimentos Ltda com a sua fazenda "é legal". De acordo com o dirigente, a relação dele com a empresa, que tem a Ailanto como sócia, foi declarada em seu Imposto de Renda.
Mas a assessoria não explicou qual o tipo de relação comercial desenvolvida entre a fazenda do dirigente e a firma subsidiária da empresa investigada por suspeitas de irregularidades no amistoso da seleção em 2008.

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