O poderio da família Beltrão

Poderio do grupo Beltrão tomou conta de Coruripe, Penedo, Piaçabuçu, Jequiá da Praia e Feliz Deserto, todas no Litoral Sul de AL

Teresa Leitão (PT) durante visita a setor do Aeroporto do RecifeTeresa Leitão (PT) durante visita a setor do Aeroporto do Recife - Foto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

As eleições municipais deste ano ratificaram em Alagoas o poderio do grupo Beltrão, liderado com mãos de ferro pelo deputado estadual licenciado João Beltrão (PSD), pai do ministro do Turismo, Marx Beltrão. Com atuação no litoral sul alagoano, o velho cacique, mesmo internado num hospital com problemas decorrentes do diabetes, elegeu cinco prefeitos da sua família, entre os quais a filha Jeannyne Beltrão, de apenas 32 anos, em Jequiá da Praia, a 78 km de Maceió.

Em Coruripe,município onde começou a vida pública e governou por três vezes, elegendo depois o filho Marx em duas eleições seguidas, João Beltrão impôs a maior derrota ao grupo adversário: elegeu o irmão Joaquim Beltrão com quase 70% dos votos válidos, obtendo 19.710 votos. Por tabela, ainda elegeu o vereador Guto Beltrão, do PDT.

Coruripe é a galinha dos ovos dourados da família. Distante apenas 85 km da capital, o município é base petrolífera da Petrobras, gera royalties para engordar os cofres municipais e tem uma população em torno de 55 mil habitantes. Visitada por turistas do mundo inteiro, um dos seus símbolos é o Farol do Pontal, construído em 1948 como centro de sinalização náutica. Está presente no logotipo da Prefeitura, no brasão do time de futebol e, desde 2006, no brasão da cidade.

“Quem deu o pontapé do desenvolvimento de Cururipe foi o deputado João Beltrão quando prefeito e seu filho Marx imprimiu uma grande marca de gestor como prefeito”, orgulha-se o presidente da Câmara, Mesaque Padilha (PMDB), segundo mais votado, com 1.282 votos. Mas na passagem pelo poder municipal, Marx passou a responder processo pela acusação de fraudar a comprovação de quitação previdenciária do município ao Ministério da Previdência para tirar o município da inadimplência e, assim, receber transferências voluntárias e financiamentos de instituições federais.

A fama de grupo poderoso e influente está na boca do povo. “Os Beltrão são boca quente”, diz Zenilda Alves dos Santos, vendedora ambulante, que se vira para tirar o sustento da família vendendo pastel, castanha e outros quitutes na beira de um canal na entrada da cidade. Ela votou no prefeito Joaquim Beltrão, irmão de João, líder do grupo.

“Os que entraram na disputa contra o prefeito já sabiam de antemão que sofreriam uma grande derrota”, afirmou. O prefeito foi reeleito por 69,74% dos que foram às urnas.

Penedo
Em Penedo, maior colégio eleitoral da região, João reelegeu o sobrinho Marcius Beltrão, do PDT, por uma diferença de 517 votos ante Ivana Toledo, do PP, com quem polarizou. Às margens do Rio São Francisco, Penedo é uma das mais belas e antigas cidades do Brasil. Além do rio, o que chama atenção é seu Centro Histórico, que reúne 13 igrejas, 10 capelas e inúmeros sobrados.

O prefeito Marcius Beltrão, 46 anos, só não conseguiu eleger a maioria na Câmara de Vereadores, podendo, provavelmente, vir a conviver com um adversário no comando da Casa na sua segunda gestão. Dos 15 vereadores, apenas seis são do seu grupo. Ernande Pinheiro (PR), quarto mais votado, os Beltrão são o que ele classifica de “profissionais da política”. Embora eleito na oposição , faz prognósticos de que o ministro Marx Beltrão terá um lugar de destaque a ocupar na política alagoana.

Vitória especial na bela Piaçabuçu
Os tentáculos da família não se limitaram a Coruripe e Penedo: foram estendidos a outros municípios. Entre as vitórias, uma teve sabor especial: o grupo retomou nas eleições do último dia 2 o município Piaçabuçu, que havia sido perdido e contabilizado como única derrota nas eleições passadas.

Na cidade, o clã elegeu Djalma Beltrão (PRB), primo do velho donatário do feudo e tio do ministro do Turismo. Com 49,57% dos votos válidos, Djalma derrotou a tucana Doutora Lúcia, atual vice-prefeita, apoiada pelo prefeito Dalmo Moreira (PSB), já reeleito, por uma frente de 656 votos, não tão elástica como se previa.
“O grupo se perpetua no poder pelo poderio econômico. Apesar disso, tive o prazer de impor uma derrota a eles, na eleição passada”, afirmou Dalmo Moreira.

Nove ilhas
De nome e exploração indígena, o município de Piaçabuçu fica a 141 km de Maceió, e se destaca por formar um conjunto de nove ilhas de beleza sem igual, tendo 4 km de praias banhadas pelo rio São Francisco.

Com ecossistema preservado, é um dos maiores polos pesqueiros da região, com destaque para camarão criado em cativeiro, sendo ainda área de desova de tartarugas.
No seu território as águas do Velho Chico desaguam no mar. Na rota do Descobrimento do Brasil, a cidade litorânea foi visitada no ano de 1859 pelo imperador Dom Pedro II, que, inclusive, participou de festas religiosas antes de seguir viagem rumo à Bahia.

Com potencial mas sem investimento

Em Feliz Deserto, a 120 km de Maceió, a força de João Beltrão fez chegar ao poder a sua cunhada Rosiana Beltrão (PMDB) com 57% dos votos válidos - 1.625 votos. A partir de janeiro, ela passa a suceder o prefeito Maykon Beltrão, também filho de João.

Geraldo Simões, do DEM, perdeu por uma diferença de 424 votos. Feliz Deserto é marcada por uma tragédia ocorrida em abril de 2005. A cidade foi castigada por um temporal que durou dois dias, alagando completamente toda a área central.

A chuva destruiu aproximadamente 300 casas de taipa, deixando desabrigados 1,5 mil pessoas. A Prefeitura, através de doações, conseguiu abrigar provisoriamente a população em diversos pontos da cidade. A reconstrução começou em dezembro de 2005 e, em julho de 2006, foram entregues 185 casas a população. Secretário de Administração do município, Gutemberg Breda diz que o monopólio da família na região se deve principalmente ao modelo de gestão.

“Coruripe e Jequiá da Praia alcançaram a melhor nota no Ideb”, destaca ele, acrescentando que Feliz Deserto, apesar de ter elevado potencial turístico, não conseguiu ainda atrair investimentos hoteleiros. “O município vive dependente do FPM, em média R$ 380 mil, que dá apenas para cobrir os encargos e pagar pessoal”, afirmou.

Além de conseguir emplacar familiares nesses municípios, o grupo Marx, emplacou aliados de peso em cidades do interior, a exemplo de Júlio Cezar (PSB - Palmeira dos Índios), Rogério Teófilo (PSDB - Arapiraca), Padre Eraldo (PSD - Delmiro Gouveia) e Cacau (PSD - Marechal Deodoro).

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