Pedido de demissão foi “surpresa relativa”

Interlocutores do Planalto admitem que a CPMI do BNDES causaria “constrangimento”

Há dez dias instado a se explicar sobre a gravação do empresário Joesley Batista, o presidente Michel Temer havia encontrado em alguns membros de sua gestão - alvos de críticas do comandante da holding J&F - um trunfo em favor do seu governo. Um deles era Maria Silvia Bastos, que nas palavras de Temer, “moralizou o BNDES” e era junto com Pedro Parente, da Petrobras, um símbolo de que o governo estava “acabando com os velhos tempos das facilidades aos oportunistas”. O detalhe é que, ontem, Maria Silvia pediu demissão. Para alguns integrantes do governo, a saída dela foi vista como uma “surpresa relativa“. Motivo: a criação da CPMI do BNDES. Na última quinta-feira, o presidente do Senado, Eunício Oliveira, fez a leitura do requerimento de criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar fraudes e irregularidades em aportes concedidos à empresa JBS pelo banco público. Outro requerimento prevê CPI exclusiva do Senado. Na hora que isso avança, um dos integrantes do governo, nos bastidores, admite: “Isso ia causar constrangimento, de pegar funcionários importantes para o banco e colocá-los a se explicar”. Essa conta pode ter sido feita por Maria Silvia que, na visão de membros da base, poderia acabar “pagando o pato” de gestões anteriores à sua. Quanto a Temer, perdeu uma das poucas vitrines que lhe restavam e foi, logo, na equipe econômica, sua menina dos olhos.

Teoria da Conspiração
Em Brasília, um grupo de deputados trocava ideias sobre os nomes ventilados para eleição indireta, quando chegaram a Henrique Meirelles. Comparavam virtudes e desvantagens. Lembrou-se que ele é o candidato que o mercado financeiro simpatizaria, que comandou o Banco Central nos governos de Lula, como também foi deputado eleito pelo PSDB. Definiram ele, então, como uma “cobra-de-duas-cabeças”. Até que um deles fez uma interferência.

Cérebro : O parlamentar interrompeu com a seguinte observação: “Mas ele foi presidente do conselho da J&F”. E o companheiro do lado devolveu: “Mas Joesley (Batista) falou mal dele na gravação com Michel Temer”. A observação que veio por último foi: “Isso já é coisa de Joesley, que já fez isso para salvar Meirelles, porque ele, agora, quer Meirelles (como presidente)”.

Ops! 1 : Com nomes cotados como viáveis em caso de eleição indireta, Nelson Jobim e Henrique Meirelles têm sofrido questionamentos, em conversas nas coxias do legislativo, por motivos bem similares.

Ops! 2 : Jobim é sócio do BTG Pactual, banco investigado na Lava Jato e Meirelles foi presidente do conselho da J&F, holding investigada na Lava Jato.

Só observo : Nos partidos médios, há uma compreensão de que os passos a serem dados por eles, em relação a eventual eleição indireta, só poderão ser decididos depois que as duas legendas protagonistas, PMDB e PSDB, se posicionarem.

Saída de Emergência :
O cálculo que pesa em relação à condição do PT na eleição indireta é o de que sendo os petistas minoria, caso não admitam um entendimento em torno das opções cogitadas, seriam atropelados por um nome apoiado pela ala governista. Caso votem em nome de consenso, poderiam ser cobrados pelos movimentos. Então, uma estratégia viável seria lançar um candidato, mesmo que para marcar posição.

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