PF utiliza métodos fascistas, diz Renan

É inacreditável que uma pinimba de agentes defina uma crise institucional", também afirmou o senador

Bruno Araújo Bruno Araújo  - Foto: Marcelo Camargo/abr

Em seu primeiro pronunciamento público após a Operação Métis, realizada no Senado na sexta-feira (21), o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), atacou o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, e disse que a Polícia Federal utiliza "métodos fascistas" por ordem de um "juizeco de primeira instância". Bastante irritado, ele atacou também o que considerou "excessos" da Lava Jato. "É inacreditável que uma pinimba de agentes defina uma crise institucional", afirmou Renan, em alusão à delação de um policial legislativo que deu origem à ação que culminou com a prisão de quatro agentes do Senado, entre eles o diretor da polícia da Casa, Ricardo Carvalho.

A operação da PF foi autorizada pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal do DF. Segundo a investigação, os agentes do Senado estariam atuando para obstruir investigações da Lava Jato contra senadores e ex-senadores ao realizar varreduras em busca de escutas nos gabinetes e nas residências deles. Renan criticou a ação acompanhado dos senadores Lindbergh Farias (PT-RJ) e Vanessa Grazziotin (PC do B-AM), além do deputado Paulinho da Força (SD-SP). Segundo ele, o Senado ingressará com uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal) para "fixar as competências dos poderes".

Renan, que esteve com o presidente Michel Temer, classificou a ação da PF de "espetáculo inusitado com participação do ministro do governo federal que não tem se portado como ministro de Estado, mas como chefete de polícia". A assessoria do ministro da Justiça afirmou que ele não vai se pronunciar sobre as declarações do presidente do Senado. Segundo Renan, Moraes "falou mais do que devia, dando bom dia a cavalo". "Tenho ódio e nojo de comportamentos fascistas. Como presidente do Senado, cabe a mim repelir", afirmou.

EXCESSOS
"A Lava Jato é sagrada, significa sempre avanços. Mas não quer dizer que não podemos criticar seus excessos", disse. "Estamos nos avizinhando do Estado de exceção. Não podemos chegar a isso", disse Renan, alegando que houve "dezenas" de pedidos de varredura, inclusive de senadores que não são alvo da Lava Jato. Disse ainda que as varreduras não têm relação com a operação.

O presidente do Senado divulgou uma lista de 32 pedidos de autoridades à polícia legislativa por varreduras para detectar grampos ilegais em seus gabinetes ou residências. A lista conta com pedidos feitos entre 2013 e 2016. Dessas, 19 foram autorizadas e a maioria executada nos gabinetes dos senadores. Entre os solicitantes está o próprio Renan Calheiros, que em 20 de maio deste ano pediu uma varredura no gabinete do ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) Bruno Dantas, seu afilhado político.

Há também um pedido da Presidência da Câmara dos Deputados, quando esta era ocupada por Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A varredura no gabinete e na residência oficial de Cunha foi solicitada em 13 de novembro de 2015 e executada nas duas semanas seguintes. "Fazer varredura para detectar grampos ilegais é uma rotina. Esta atividade, além de regulamentada no Senado Federal, é uma atuação rotineira", disse Renan, completando que até a Polícia Federal já requisitou os equipamentos do Senado, em 2005.

Indagado diversas vezes, ele disse que "nunca" solicitou varredura em sua própria residência. Logo após a entrevista, ele foi ao Palácio do Planalto se reunir com Temer. Na conversa, disse considerar ter dado o recado para que o ministro da Justiça fique calado e não se intrometa em questões do Senado. Na avaliação de assessores do Planalto, a crítica pública de Renan enfraquece o ministro da Justiça, que pode cair caso se envolva em alguma nova polêmica.

O presidente, contudo, tem dúvidas em realizar uma troca neste momento. O receio é que uma demissão passe a mensagem pública de que ele cedeu a um pedido de Renan e seja acusado de querer interferir na Lava Jato ao exonerar alguém que não impôs obstáculo à operação policial.

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