Jorge Waquim
Jorge WaquimFoto: Divulgação

Por Jorge Waquim*

O Brasil cultiva o esquecimento. Exemplo disso é a palavra senzala.

É um paradoxo que a palavra senzala, no Brasil, caia no ouvido comum como algo positivo, como um lugar de cantos e danças, pois senzala era lugar de tortura, de sofrimento, onde seres humanos eram mutilados, engaiolados, assassinados. Na consciência nacional ecoa um sentido que é o contrário dessa realidade. E, talvez por isso mesmo, o nome senzala hoje batiza prédios, restaurantes e hotéis pelo Brasil afora. O sentido da palavra senzala foi confundido, transmutado, renegociado. Como isso aconteceu é um enigma, e resolvê-lo talvez nos forneça a chave que nos explique enquanto povo.

Palavras são mais do que sons ou tinta num papel. Por detrás delas, escondem-se sentidos – pontos de vista – sobre determinada situação ou coisa. Palavras despertam significados justamente por carregarem consigo o ponto de vista escolhido por quem fala. E esses pontos de vista não existem por mero acaso, mas são construídos socialmente e refletem práticas e ideias de uma comunidade. A palavra senzala no Brasil foi construída sob esse ponto de vista, essa ideia, esse sentido de alegria e de sons. Esquecemo-nos ao longo dos anos do terror que foram as senzalas?

A Alemanha cultiva a memória e faz constante mea culpa sobre a loucura nazista, sempre rememorando o horror dos campos de concentração durante a segunda guerra. Acontece que as senzalas são nossos campos de concentração. No entanto, como parte da cultura do esquecimento, varremos o horror das senzalas para baixo de um colorido tapete ao qual paradoxalmente atribuímos o mesmo nome, mas com sentido diametralmente oposto.

A senzala não está longe no tempo, um século e pouco mais nos separam do fim oficial dessa tragédia humanitária, nem tampouco do lugar: o racismo, velado e silencioso, que impera no país é a tradução da ocultação desse terrível passado.
Na última segunda-feira comemoramos o Dia da Consciência Negra, em referência à reação negra à escravidão materializada nos quilombos, como uma tentativa de contrariar essa cultura do esquecimento. Quilombos, fenômeno mal estudado nas escolas, mal lembrado no espaço público e, portanto, maltratado pela consciência nacional.

O Brasil, ao tentar se esquecer do seu passado, tentando enterrá-lo a todo custo, se assemelha a um indivíduo que precisa de ajuda, mas que não busca tratamento, e assim delira, diz confusões, troca os sentidos: senzala é nome lindo, o torturado é o algoz, previdência social para quem ganha pouco é privilégio, escravidão é o motor da nação. O atual ocupante do cargo de presidente do país lidera um grupo que parece ser produto direto desse passado esquecido e, portanto, mal resolvido. Mas, e aí, como colocar um país inteiro num divã? Disso depende a saúde do nosso futuro. 

*Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre

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