Ulysses Gadêlha
Ulysses GadêlhaFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Por Ulysses Gadêlha*

Não é segredo que a eleição de 2018 é a mais esperada desde que o ex-presidente Lula (PT) chegou à presidência em 2002. O aumento exponencial de casas com acesso a Internet e, mais recentemente, a febre dos smartphones adiciona a esse pleito um ingrediente que os EUA já experimentaram em 2016, no duelo entre Trump e Hillary Clinton. O historiador escocês Niall Ferguson, de passagem pelo Brasil, no Fronteiras do Pensamento, afirmou essa semana que nós, brasileiros, poderemos esperar o mesmo surto de “polarização”, “fake news” e “visões extremistas”. Então, diante do exemplo dos americanos, é razoável viver a mesma experiência com um pouco mais de cautela.

O governador de São Paulo e pré-candidato à Presidência da República, Geraldo Alckmin (PSDB), tem repetido à exaustão uma frase atribuída ao diplomata brasileiro San Tiago Dantas (1911-1964): “o povo erra menos que as elites”. “Basta ter todas as informações para formular seu julgamento”, complementa o tucano. Tirando essa frase do contexto de campanha, é plausível que ela descreva o caminho a ser seguido rumo ao fortalecimento da democracia.

A Internet carrega todos os elementos que Niall Ferguson aponta, em entrevista à Folha de São Paulo, onde ele afirma que "fomos ingênuos em acreditar no Vale do Silício". "Empresas como Facebook e Google têm como prioridade gerar receita de publicidade, não fazer do mundo um lugar melhor." Vale ressaltar que, apesar dos milhões de computadores e celulares disponíveis, o Brasil ainda está aquém da democratização do acesso a Internet se comparado com os EUA e isso interfere diretamente no impacto que as redes têm no mundo-da-vida. Contudo, as informações necessárias à compreensão da realidade estão todas lá.

Antes desse ciclo que a internet trouxe, de pluralismo e crise de sentido, também não havia uma repercussão tão grande de figuras acadêmicas como Leandro Karnal, Clóvis Barros Filho, Luiz Felipe Pondé e Mario Sergio Cortella. Essas personalidades, ao contrário do que pregavam os críticos da indústria cultural, têm a capacidade de fazer “pensar fora da caixa”.

Em sua página no Facebook, Karnal tem 1,2 milhões de seguidores. São 1,2 milhões de pessoas que sabem quem é o professor de História da Unicamp Leandro Karnal. Essas pessoas ouvem suas reflexões e levam para o meio social suas ideias sobre política, cultura, história e comportamento. Curiosamente, o próprio historiador tem uma opinião crítica sobre a relação entre política e tecnologia, mas aposta no amadurecimento como um fio de esperança.

Essa é a mesma internet que dá milhões de seguidores para atrações classificadas como besteirol, em canais de YouTube e outros espaços. A internet é, sim, um meio controverso, porque eliminou filtros (que produziram o fenômeno da pós-verdade), desmantelou hierarquias de conhecimento, horizontalizando a importância de mentes brilhantes e de jovens adolescentes com pouco repertório. A amplitude que eles recebem, independente do mérito de suas causas, é a mesma.

Isso é bom e ruim, ao mesmo tempo. Há pessimistas como o filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016), que acreditam que “a internet deu voz aos imbecis”. E a isso se soma uma onda conservadora que toma conta da rede mundial, distorcendo a realidade em nome de um projeto de poder. Mas, há também, iniciativas que reforçam o acesso universal a informação e ao conhecimento, iniciativas que prezam pela liberdade, que atuam em favor dos direitos e garantias fundamentais que formam um Estado-Democrático de Direito. O que a rede promete, no futuro, é o amadurecimento de uma cultura, que só será possível geração após geração. E, conforme especialistas, estamos vivendo a primeira geração digital. É preciso ir mais longe.

Ulysses Gadêlha é repórter da Folha de Pernambuco

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