Ulysses Gadêlha
Ulysses GadêlhaFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Por Ulysses Gadêlha*

A distopia de George Orwell, o livro 1984, resume - com sua narrativa - um sentimento recorrente ao longo de 2017 e que só tende a se acentuar: estamos nos habituando a exercitar “dois minutos de ódio”, principalmente com o auxílio das redes sociais. Especialistas acreditam que o ódio “viraliza”, que pode ser usado como substância para deflagrar um comportamento de “manada”, quando animais que se juntam para se proteger ou fugir de um predador. O preceito é que a ficção pode nos ajudar bastante a entender a realidade.

Orwell se debruçou sobre os regimes totalitários vigentes na década de 1940 para dissertar sobre estratégias de controle social. Um dos principais meios é a vigilância sistemática e mútua: os cidadãos são vigiados através de “tele-telas” instaladas em qualquer lugar público ou privado, mas também viabilizam uma rede de delatores entre si. Essa mentalidade se instala numa sociedade em que o perigo é iminente, o inimigo está à espreita ou mesmo cidadãos mal-intencionados podem praticar crimes contra a Pátria – mesmo em pensamento.

Outra estratégia aplicada à sociedade ficcional de 1984 é a manutenção do caos em torno do território controlado pela figura onipresente do “Big Brother”. O governante diz quem são os inimigos, diz como a realidade se parece – estatísticas da indústria nacional, informes de guerra, narra uma história e uma memória com que a sociedade deve se apegar, etc. Por meio de frases feitas, o governo dita o sentimento de uma nação: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.” O grande líder diz, afinal, quem devemos amar ou odiar e institui, a partir dessa visão maniqueísta, os dois minutos de ódio, que são praticados diariamente, onde uma multidão achincalha, xinga e vocifera contra a figura do traidor.

A manipulação da realidade, com as fake news e o fenômeno da pós-verdade, geram uma situação de crise, uma situação crucial onde as pessoas perdem o controle da narrativa pública, é uma crise de sentido que permeia a nossa cultura, nossa economia, o convívio e a política. O especial da BBC Brasil, intitulado “Democracia Ciborgue”, desvelou a atuação de perfis falsos para manipulação da opinião pública, que ocorreu nas eleições de 2012 e 2014, na eleição para a presidência do Flamengo, entre outros casos. “Há indícios de que os mais de 100 perfis detectados no Twitter e no Facebook sejam apenas a ponta do iceberg de uma problema muito mais amplo no Brasil”, conta a jornalista Juliana Gragnani, que assina a reportagem.

A ficção, acessível ao grande público, ajuda a desvendar esse sistema perverso. Em outro exemplo mais atual, a série Black Mirror, que vai para a quarta temporada nessa sexta-feira (29), traz sinais claros de como a tecnologia pode manipular o humor de populações. O episódio Hated in the Nation (odiado pela nação, em tradução livre) trata sobre mortes de pessoas que foram alvo de críticas nas mídias sociais. É como se o “trending topics” do Twitter promovesse uma espécie de julgamento social e a tecnologia apenas facilitava a execução do condenado.

A tecnologia, que outrora mediava o humor das pessoas em regimes autoritários como o de 1984, hoje manipula reações, gera consensos para atingir determinados resultados, mas essa conspiração é imperceptível para a maioria. Citado pela reportagem, o professor Fábio Malini, do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), atesta que “o discurso de ódio é o motor da viralidade política”. Essa viralidade depende, intimamente, de um conteúdo que permita a polarização das opiniões (FlaxFlu, bem ou mal), logo uma lógica de fácil apreensão, comercializável, por assim dizer.

Fica a sensação de que, mesmo num regime democrático, um Estado Democrático de Direito, o cidadão comum está desassistido de prerrogativas básicas para o exercício da cidadania, uma vez que a informação verdadeira tem um custo. Informar-se como antigamente, confiando numa credibilidade cabal de veículos na Internet, pode não ser tão proveitoso, pois há interesses conflitantes na rede. A ideia é buscar uma verdadeira emancipação evitando o sentimentalismo, o sensacionalismo, a solução fácil, porque a realidade é complexa. É algo que o leitor precisa aceitar.

* Ulysses Gadêlha é repórter do caderno de Política da Folha de Pernambuco

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