Jorge Waquim
Jorge WaquimFoto: Divulgação

*Por Jorge Waquim

Entre as datas comemorativas, a única que não tem um sentido meramente simbólico é a do ano novo. A comemoração é concreta e astronômica, vamos dar mais uma volta no carrossel solar. É um recomeço e com ele novos planos, novas promessas, novas estratégias de vida.

O novo, no entanto, não nasce espontaneamente, mas é resultado de uma ação, de um planejamento, é uma planta que cresce pela cuidadosa administração da razão. O novo implica em criação, e criar significa encontrar soluções para ultrapassar problemas presentes e futuros.

Mas não se cria do nada, a estratégia é, a partir de ideias e ferramentas existentes, elaborar soluções, que também incluem outras ideias e ferramentas. Assim acontece com a construção de uma melhor ponte, de uma nova solução ambiental, de uma nova técnica cirúrgica. Mas a criação acontece sobretudo a partir de um sistema educacional que permita o desenvolvimento de pessoas capazes de pensarem seu lugar e sua comunidade e de desenvolverem novas ideias e soluções.

Para uma nação, nada é mais importante do que a sua capacidade de criar. Está aí a principal fonte de riqueza de uma sociedade. É pela criação que uma sociedade resolve seus problemas e se torna melhor, mas é também pelas soluções que resultam da criação, comercializadas e compartilhadas com outros povos, que uma nação se enriquece.

Como uma sociedade faz valer sua capacidade de criação e de inovação? Uma parte da resposta está em seus cidadãos, fontes de ideias e soluções, mas a resposta também não pode deixar de incluir o Estado. O Estado enquanto promotor da inteligência, enquanto criador de condições para que seus cidadãos prosperem. A outra parte da resposta reside justamente na dinâmica instaurada entre cidadão e Estado, como aquele cobra deste, como este responde às expectativas daquele, em um sistema que se costuma chamar de verdadeira democracia.

A democracia, assim, vai além do simples lançar votos em uma urna. E, ao contrário da ditadura, a democracia é o reino da criação coletiva. Somente há democracia de verdade naquelas sociedades que, com inteligência coletiva, promovem criação cotidiana para atender não apenas aos problemas que aparecem, mas para se anteciparem às futuras questões que as irão impactar. Mais do que apenas uma mera platitude lançada para reforçar um raciocínio, essa ideia de democracia tem se revelado de extrema importância nos países considerados desenvolvidos. Está aí a chave que explica seu desenvolvimento.

Em nossas latitudes, pelo contrário, o Estado e dinâmica democrática não estão à altura das expectativas dos seus cidadãos. Se, por um lado, a democracia das urnas está por aqui estabelecida, por outro, o vai e vem às urnas não tem produzido resultados que deveriam ser consequências naturais da verdadeira democracia. É visível os problemas de todo tipo, desde a incompetência do Estado em se livrar da corrupção, mal que o infesta até os intestinos, até aos problemas no combate às desigualdades sociais, passando pela destruição progressiva e inexorável do patrimônio natural do país e a degradação urbana.

O Estado brasileiro, criador de desigualdades, não sabe o que fazer com seus jovens pobres. Não tem capacidade criadora para desenvolver uma geração educada e transformadora. O território, rico em recursos naturais, é passado à máquina com soluções onde não há a ideia de criação para melhor. As cidades, eternamente poluídas e engarrafadas, sentem falta de governos que proponham soluções inteligentes e cidadãs.

O futuro é uma porta aberta a uma possibilidade de construção. O desejo e a sempre expectativa é que, não obstante os problemas, no novo carrossel solar criemos um país melhor.

*Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre.
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