Jorge Waquim
Jorge WaquimFoto: Divulgação

Jorge Waquim*

Mais de uma semana já se passou desde a terrível execução da vereadora Marielle Franco, do Rio de Janeiro. E até agora, qual tem sido a ação por parte do Estado? Ou melhor perguntando, o que os representantes do Estado andam fazendo? Até agora, tudo parece se resumir a uma série de mal-entendidos e ações mal coordenadas. Senão, vejamos.

Marielle, pelo que contam os especialistas, foi assassinada por mãos treinadas. A escolha da arma e munição, do momento e do falado ponto cego, onde não há câmeras que filmem a ação, faz pensar que os assassinos foram agentes do Estado ou pessoas que de alguma maneira foram treinadas por agentes do Estado – há até mesmo relatos de que ex-armeiros militares têm sido aliciados pelo tráfico.

O titular do novo ministério da segurança, no dia seguinte ao acontecido, fez uma declaração enganosa sobre como as balas se extraviaram, e foi obrigado a se retratar. Balas que, já não há dúvidas, foram adquiridas pelo Estado, e que este não soube exercer sobre elas a devida tutela.

O show de horrores nos dias que se seguiram, com as fake news que inundaram o espaço cibernético, precisava de uma palavra oficial para combatê-lo. No entanto, presenciamos estupefatos uma desembargadora, que deveria exercer a cautela e a razão, contribuir com o espalhamento das fake news sobre Marielle.

A intervenção no Rio de Janeiro pretende ser mastodôntica, com um aporte de bilhões de reais. O que confirma a precariedade da intervenção, começada sem a existência de recursos, e a repetição da combinação de gasto estratosférico de dinheiro com um resultado quase sempre pífio: continua a morrer gente nos morros do Rio, não obstante a presença maciça de soldados.

O Estado repete seu modus operandi, dispendioso e ineficaz, e os seus representantes dão a pensar que atuam sem inteligência.

Como Marielle, têm morrido assassinados centenas de ativistas pelo Brasil afora. Ativistas ambientais, trabalhadores sociais, sindicalistas, jornalistas e políticos de alguma maneira engajados em transformar a realidade do país. O assassinato sem punição dessas pessoas demonstra que o Brasil é um lugar em constante luta consigo mesmo e é mais um indicador de um Estado sem direção.

O Estado, que deveria ser uma força de pacificação, ao contrário, parece ser um agente da manutenção dos conflitos e das desigualdades. Desigualdade na posse da terra, em um país continental. Desigualdade no acesso ao trabalho como resultado da desigualdade do acesso à educação. Desigualdade no acesso ao direito, com prisões de portas sempre abertas para negros e pobres. Desigualdade no acesso aos recursos do próprio Estado, tolhido em sua maior parte por uma casta que costuma limpar seus cofres, reduzindo os recursos dedicados àqueles que mais precisam.

Contra essa dura realidade, uma força nasce quase que espontaneamente das ruas, dos campos, das pequenas cidades, das periferias, das favelas, das comunidades dentro das florestas. Força que parece ser maior do que o Brasil.

O assassinato de Marielle se insere na destruição que assola desde sempre o país. Com a força do Estado, ou com seu desleixo, destruímos o patrimônio nacional – natural e arquitetônico – pela aplicação de uma mecânica impiedosa que passa por cima de vidas todos os dias. O país fica mais pobre para alguns ficarem mais ricos, eis a verdade que bate na nossa cara. Destruímos também pessoas; Marielle é mais um caso, pungente e revelador, da destruição humana que se pratica cotidianamente.

O assassinato de Marielle põe à prova a capacidade do Estado brasileiro em conter o caos que se anuncia.

*Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre.

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